
Quem não se lembra da Corrida Maluca? Possivelmente os mais jovens… então perguntem ao Chat, pois vale a pena revisitar esse clássico. Mais do que um desenho divertido, ele traz uma metáfora poderosa sobre comportamento, competição e escolhas.
Dick Vigarista era, sem dúvida, o melhor piloto. Tinha o carro mais tecnológico, estava quase sempre na frente e reunia todas as condições para vencer com facilidade. Mas havia um problema fundamental: isso não bastava para ele. Em vez de simplesmente seguir adiante e garantir sua vitória, ele parava no meio do caminho para arquitetar planos mirabolantes com o único objetivo de prejudicar os outros competidores. E, como sabemos, esses planos sempre falhavam e, no fim, ele terminava a corrida em último lugar.
Para Dick Vigarista, ganhar não era suficiente. O mais importante era que os outros perdessem.
Esse comportamento, por mais caricatural que pareça, não está tão distante da nossa realidade. Existe dentro de nós algo que podemos chamar de “drive do Dick Vigarista”. Em muitos momentos, mais do que focar no crescimento do nosso próprio negócio, nos pegamos desejando, consciente ou inconscientemente, que o outro não dê certo. Esse impulso é muito característico do que gosto de chamar de “capitalismo raiz”, em que a lógica da competição extrema transforma o mercado em um campo de batalha, e eliminar a concorrência parece mais importante do que construir algo sólido e significativo.
Ao longo de mais de uma década vivendo a Economia Criativa, posso dizer que um dos maiores desafios foi justamente identificar e “matar” o meu próprio Dick Vigarista. Não é um processo simples, porque ele se disfarça de estratégia, de sobrevivência e até de ambição. Mas, na prática, ele nos afasta do que realmente importa.
A ideia fundadora da Economia Criativa propõe uma mudança profunda: em vez de termos poucas empresas produzindo muito, termos muitas empresas produzindo o suficiente, cada uma com sua identidade, sua linguagem e seu propósito. Para que isso aconteça, é essencial criar mercado para todos. Isso exige uma virada de chave importante: a concorrência precisa dar lugar à complementaridade. Até porque, quando falamos de autoralidade, não existe concorrência direta – existe diversidade.
Claro, isso não significa que o cenário seja ideal. Com o crescimento da Economia Criativa, também aumentou o número de cópias. Pessoas que visitam feiras, observam produtos e depois reproduzem. Isso atrapalha? Sim, atrapalha. Mas existe uma verdade importante aqui: quem copia não cria e quem não cria, não sustenta. A falta de autenticidade cobra seu preço no médio e longo prazo.
Há oito anos, eu e a Bia criamos a Aloja, uma loja autoral e colaborativa aqui em Porto Alegre (momento jabá – fica na Av. 24 de Outubro, 1681 – ao lado da Igreja Auxiliadora). Ao longo desse tempo, um dos maiores aprendizados foi observar como as marcas vão, aos poucos, compreendendo o que realmente significa fazer parte de um espaço autoral. Não se trata apenas de ocupar uma prateleira. Trata-se de construir junto.
Na Economia Criativa, a cumplicidade de propósito é o que sustenta o crescimento coletivo. Quem apenas “larga” seus produtos na loja, só porque está pagando, ainda não entendeu o enredo do samba. O crescimento das marcas acontece de forma conjunta, com troca, apoio e alinhamento. Não é sobre puxar a brasa para a própria sardinha, mas sobre assoprar o fogo para que ele aqueça a todos.
E é justamente nesse ponto que voltamos ao Dick Vigarista. Porque, inevitavelmente, veremos outras marcas crescerem mais rápido que a nossa. E, nesses momentos, o impulso da comparação aparece. Mas é aí que mora a virada: precisamos aprender a celebrar, não a competir. Porque autoralidade não se compara; ela se reconhece.
Trata-se de uma mudança de paradigma. Uma transformação estrutural na forma como pensamos, agimos e nos posicionamos no mercado. É sair da escassez e entrar na abundância. É entender que o sucesso do outro não diminui o nosso; pelo contrário, fortalece o ecossistema do qual fazemos parte.
E talvez o maior desafio, e também a maior beleza, seja este: compreender que, quando paramos de perder energia focados na corrida dos outros, finalmente começamos a percorrer, com verdade, o nosso próprio caminho. Neste instante, descobrimos algo ainda mais potente: não cruzamos a linha de chegada sozinhos. Cruzamos juntos, mais fortes, mais conscientes, mais humanos e, acima de tudo, infinitamente mais criativos.
Heloísa Hervé é publicitária, foi professora na UNISINOS por 14 anos, fundadora Aloja e da 2B Comfy, cofundadora do SOMOS MAG – movimento Moda Autoral Gaúcha, participante do Comitê de Economia Criativa do Rio Grande do Sul, consultora SOMA/SEBRAE.
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