
1 – O gordo é um camarada flexível.
2 – Em relação aos almoços, penso agora, embora considere também outros campos da vida. Fiquemos com o almoço. O gordo gosta de comer fora, expandindo seu raio de ação para que caiba um restaurante estrelado de França e um xis da esquina, o asiático que uma moça manhosa recomenda holograficamente e o bolinho de batata de um insalubre mas redentor boteco da Cristóvão.
3 – E gosta também de um bom almoço caseiro. Quando um amigo o convida para aquele arroz com feijão ancestral. Passando num zaz por Porto Alegre, chamou-me o Mamute — um ex-gordo que traiu a causa emagrecendo — para almoçar na casa deles. A alegria da conversa ao redor de uma mesa que só o brasileiro sabe preparar e reconhecer-lhe o valor.
4 – O tema do almoço é sempre delicado para o gordo. O tempo só agrava a situação, consubstanciado em seus índices: colesterol, glicose, triglicerídeos, números e mais números, uma conspiração de dados desfavoráveis, que a certa altura já não podem ser ignorados.
5 – No tempo do colégio, havia só um colega que me superava em quilos. A ele encantava o duplo almoço. Não poucas vezes aparecia lá em casa para o segundo turno. Em geral, haviam-se ido os adultos, e ele comia sossegado as raspas das panelas. Pelo menos ali, sem condenação. Em outros lares acabava indo menos, talvez pelos apelidos pouco generosos que habitavam aquele tempo.
6 – As crianças gordas viviam numa espécie de crise de sentido: eram fofas e apertadas pelas tias, ainda havia um resquício de tempo de mais fome e, talvez por isso, eram vistas como saudáveis e coradas. Por outro lado, experimentavam certas brincadeiras, provocações e piadas ainda não reunidas e catalogadas em termos estrangeiros.
7 – O gordo dos dois almoços me dizia que a saída para a gente era sorrir as bochechas para os adultos e sentar o sarrafo nos colegas. Gordão mete medo, Pedroca. Tem que ser o gordão mete medo.
8 – E assim ele ia filando boias e distribuindo sopapos.
9 – Não sei que fim levou. Nunca o encontrei nas redes. Também não o busquei, diga-se de passagem. É provável, se resistiu e manteve sua robusta dieta, que não esteja mais por aqui. Pode ter passado, claro, por uma conversão, ou estar rolando nas rosetas das canetinhas.
10 – A bem da verdade, não era um camarada flexível.
11 – No fim do primeiro grau, antes de ele ser transferido para outra escola, fomos a um dos tantos rodízios de pizza que se aboletavam pela avenida Getúlio Vargas. Sem adultos (eram os selvagens anos 1980) e com um objetivo: não se podia recusar nenhum sabor. O vencedor levava para casa uma barra de chocolate para confeitaria que um dos nossos colegas levantara da casa da avó.
12 – E não é que o sujeito que raspava panelas não podia com a cebola da portuguesa, o abacaxi da californiana e uns calamares suspeitos da (admito) intensa pizza de frutos do mar.
13 – Também não levei a cobiçada barra. E eu era o favorito de todos, depois da queda do Duplo Almoço. Estávamos no certame apenas eu e o Seco (nunca conheci alguém apelidado de seco que não comesse como gordo). E dê-lhe que te dê-lhe — porque nada podia ser negado — sabores extremos.
14 – Há uma ocorrência vegetal, contudo, capaz de me derrubar, verde como a criptonita.
15 – Rapazes! A nossa famosa pizza de brócolis.
16 – O sorriso cor de musgo do Seco. Cor de louro fresco.
14 – Secos. Vejam se não nos campeonatos de comida. Os mais encarniçados inimigos.
Todos os textos de Pedro Gonzaga estão AQUI.

