
Mirelle era a mulher mais poderosa do reino-do-faz-de-conta.
Chegou a essa posição quando casou novamente com um homem que já tinha vários filhos. Alguns eram quase da idade dela, outros mais jovens, mas todos, como ela, de índole questionável.
Todos os dias Mirelle conversava com seus egos e perguntava:
– Algoritmo, algoritmo meu, existe alguém mais poderosa do que eu?
E todos os dias ouvia a mesma resposta:
– Não, poderosa, depois do teu loiro, em todo reino da falcatrua, você é a pessoa mais poderosa.
E assim foi por algum tempo; Mirelle envolta em seus likes e incensada pelos seguidores da seita que ajudou a criar.
Quando o marido foi acometido por uma doença grave de caráter e não pôde mais governar, Mirelle achou que seria a nova escolhida.
Foi ao seu habitual bajulador e repetiu a pergunta:
– Algoritmo, algoritmo meu, existe alguém mais poderosa do que eu?
Ao que o mesmo respondeu:
– Ehhhh, então… não, princesinha, quer dizer, sim, sim, você continua sendo a mulher mais poderosa…
– Como assim, “a mulher”? Não sou a pessoa mais poderosa?
– Sabe o que é, Mirelle? O povo aqui é meio machista… e os teus enteados todos querem o lugar do pai…
– Ahhhh, aqueles inúteis… Mas qual deles? O meio-irmão feio, inimigo da sinapse? Não, já sei, aquele que fugiu pra casa do vizinho e vive incentivando ele pra nos invadir… Não, não, tem que ser aquele outro, o que nunca me aturou e ficava com a senha do Wi-Fi e das redes sociais do meu loiro… Espera, não pode ser, o Otávio? O que comprou a mansão com todas as moedas de ouro que tirei do laguinho das emas?
– Chega, Mirelle, se aprume, mulher!
Mirelle respirou fundo, mas não conseguia parar de tremer. Teria ela que envenenar os laranjas que acompanham a família?
Ela aguentou muito até hoje e estava no seu limite. Quando não recebeu nenhum centavo da verba da peça “Meu Jumento Favorito”, baseada na vida do marido e financiada com verba ungida do Banco do Mestre, ela não fez escândalo.
Levantou lentamente a cabeça, lembrando que a vingança é um prato que não se come porque o diabo amassou, mas que, se Deus tarda, o ódio não falha.
Algoritmo, sentindo a tensão no ar, calmamente continuou:
– Sem desespero, porque eu vou te ajudar. Faz exatamente o que disser e amanhã eu te coloco nos trending topics da Idade Média de volta. Tocar o terror é com a gente mesmo, né, Mi?
Ela, já semi recomposta, balançou a cabeça, concordando.
– Liga pro cabeleireiro, compra umas tranqueiras na Shopee, pede emprestada a camisa da tua amiga que viu o capeta na jabuticabeira, e volta aqui bem plena amanhã.
No dia seguinte, Mirelle chegou entusiasmada. Cabelos arrumados, mas com o cabeleireiro em punho, just in case. Camisa da Farm do RioCrente com dizeres motivacionais. Cenário de novela americana com decoração Boho-Chilique. Ainda deu tempo de vender um patrocínio da Molduraria Emoldura-me Varão e encher a parede com uns diplomas de internet.
Mirelle leu todo o discurso que o Algoritmo entregou e, depois de descascar o verbo em Otávio, foi plena aguardar o cabaré incendiar e seu saldo bancário aumentar.
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