
Durante os últimos quatorze meses do nosso doutorado na Alemanha, nossa casa funcionou como um relógio. Quando eu saía para a biblioteca, minha esposa ficava com o Lucas. À tarde trocávamos de lugar. Não havia avós, tios ou amigos por perto. Nem vaga na creche. Só nós três tentando equilibrar um bebê e finalizar duas teses de doutorado.
Nossa experiência foi cansativa. Mas havia uma diferença fundamental: sabíamos que ela teria fim. Para 11,9 milhões de brasileiras, essa rotina não dura meses. Dura anos. É como se praticamente toda a população do Rio Grande do Sul estivesse criando filhos sozinha. A maioria dessas mulheres é negra e possui baixa escolaridade. Em um país onde quase metade dos lares já é chefiada por mulheres, a maternidade solo deixou de ser exceção para se tornar parte da paisagem social brasileira.
O dia dessas mulheres começa antes do sol nascer: café, mochila, criança sonolenta, corrida até a creche, depois outra até o trabalho. E não para por aí — o dia inteiro é gasto pensando se o filho almoçou, se está com febre, se alguém chegou no horário para buscá-lo. Quando finalmente voltam para casa, a casa não devolve o cuidado que elas dão o dia inteiro. Entrega louça suja, roupa para lavar, lição para conferir, conta vencendo em cima da mesa. No dia seguinte, tudo recomeça. Talvez a maior pobreza dessas mulheres não seja financeira. Talvez seja emocional. Quantas delas ainda se lembram da última vez em que alguém perguntou, simplesmente: “E você, como está?”
A pensão alimentícia, que deveria ser o mínimo, ainda é tratada por alguns pais como um favor. Embora seja uma das poucas dívidas que podem levar à prisão, muitos escondem patrimônio, trabalham informalmente ou simplesmente atrasam os pagamentos. O processo para definir o valor pode levar mais de dois anos. Mas o supermercado não espera. A farmácia não espera. O aluguel também não.
A recente aprovação do “Pix pensão”, um projeto da deputada Tábata Amaral que significa um avanço importante, permite o débito automático da conta do devedor, agilizando o cumprimento. Mas é apenas um paliativo. Enquanto isso, países como França e Alemanha já entenderam que o Estado não pode ficar de braços cruzados: eles pagam a pensão e depois cobram do pai. Criança não pode esperar.
E o que dizer das 1,7 milhão de crianças brasileiras que têm apenas o nome da mãe no registro? Talvez por isso o termo “mãe solo” seja, em certa medida, injusto. Ele sugere uma escolha. Na maioria das vezes não houve escolha alguma. Houve abandono. Mulheres que permaneceram sozinhas ainda durante a gestação ou logo nos primeiros anos de vida dos filhos.
Poderíamos imaginar que essas dificuldades desaparecem entre mulheres mais escolarizadas. Não desaparecem. O movimento Parent in Science demonstrou que mesmo pesquisadoras altamente qualificadas sofrem uma queda significativa na produtividade após a maternidade. Se isso acontece entre mulheres com emprego estável, imagine entre aquelas que dependem do trabalho informal para sobreviver.
Mas a situação mais perversa é que a maioria das mães solo nem pode usufruir da licença. Elas precisam trabalhar assim que o bebê nasce, porque o dinheiro não espera. Recorrem ao trabalho informal, ao chamado empreendedorismo por necessidade, que oferece flexibilidade, sim, mas também menor remuneração, zero proteção social e nenhuma segurança. Muitas chamam isso de empreendedorismo. Na prática, isso é sobrevivência. É a ilusão da autonomia num sistema que continua empurrando essas mulheres para a margem.
Há um provérbio indígena que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. No Brasil, abandonamos essa aldeia. E deixamos que milhões de mulheres tentem reconstruí-la sozinhas. Depois chamamos isso de “força feminina”, como se fosse elogio e não omissão coletiva.
Porque, no fim, essa não é uma história sobre mães. É uma história sobre nós, sobre o tipo de sociedade que aplaude a resiliência de quem sofre em vez de perguntar por que ela precisa ser resiliente. Toda vez que celebramos uma “supermãe” sem cobrar políticas públicas, escolas em tempo integral, pensão garantida pelo Estado, estamos assinando embaixo dessa omissão. Enquanto continuarmos chamando de heroísmo aquilo que, na verdade, é abandono coletivo, continuaremos produzindo mães cada vez mais fortes e uma sociedade cada vez mais fraca. Nenhuma aldeia sobrevive quando deixa suas crianças aos cuidados de uma única pessoa.
Referências:
– O Assunto – Pix Pensão Alimentícia e o direito de mães e filhos receberem em dia.