
Ao definir uma noção de monetização da atenção, tenciono ponderar sobre alguns mecanismos por trás das ferramentas que sustentam essa estrutura. A única mercadoria que gera mais valor é a força de trabalho; contudo, vemos atualmente uma força de trabalho indireta. Ou seja, a mercadoria continua sendo humana, mas desloca-se para o seu “tempo livre”, e não mais apenas para o tempo formal de trabalho. Seria essa uma economia da atenção e o seu processo de “mais-valia digital”, termo que proponho para definir essa aquisição de valor indireto oriunda da captura do sujeito em seu tempo livre, dentro de um ambiente virtual no qual a exibição de propagandas é central.
A definição clássica de mais-valia, tal como formulada por Karl Marx, refere-se à diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o salário que ele recebe. No entanto, na contemporaneidade, essa relação parece se expandir para além dos limites da fábrica e do expediente. Plataformas digitais, redes sociais e aplicativos operam como dispositivos que prolongam a captura do valor, transformando interação, lazer e até mesmo o ócio em fontes de produção econômica. Assim, o tempo que antes poderia ser considerado improdutivo passa a ser incorporado como parte de uma engrenagem que extrai valor continuamente.
Nesse contexto, a chamada economia da atenção – conceito amplamente discutido por autores como Herbert A. Simon – ganha centralidade. A abundância de informação gera escassez de atenção, e é justamente essa atenção que passa a ser disputada e convertida em ativo econômico. Cada clique, curtida, compartilhamento ou permanência em uma tela constitui um dado que pode ser mensurado, analisado e, sobretudo, monetizado. O usuário, ainda que não remunerado, participa ativamente do processo produtivo, fornecendo matéria-prima para sistemas de publicidade direcionada e algoritmos de recomendação.
A “mais-valia digital”, portanto, não se limita à produção de conteúdo, mas abrange também o consumo enquanto prática produtiva. O sujeito não apenas trabalha sem perceber, mas também alimenta continuamente um sistema que se aperfeiçoa a partir de seus próprios comportamentos. Trata-se de uma forma de exploração difusa, menos visível do que a exploração clássica, porém potencialmente mais abrangente, pois se infiltra nos interstícios da vida cotidiana.
Além disso, há uma dimensão subjetiva que não pode ser ignorada. A captura da atenção implica também a modulação do desejo, das emoções e das formas de relação social. Plataformas são projetadas para maximizar o engajamento, muitas vezes recorrendo a mecanismos psicológicos que incentivam repetição, dependência e validação constante. Nesse sentido, a monetização da atenção não apenas extrai valor econômico, mas também reorganiza a experiência humana, redefinindo os limites entre autonomia e condicionamento.
Dessa forma, a economia da atenção e a noção de mais-valia digital apontam para uma transformação profunda no modo como o capitalismo opera. Se antes a exploração estava concentrada no tempo e no espaço do trabalho, agora ela se estende por toda a vida social, dissolvendo fronteiras e tornando cada instante potencialmente produtivo. A questão que se coloca, portanto, não é apenas econômica, mas também ética e política: até que ponto estamos dispostos a ceder nossa atenção – e, consequentemente, partes de nossa subjetividade – em troca de acesso, entretenimento e conectividade?
A monetização da atenção representa uma nova etapa na dinâmica de produção de valor, na qual o sujeito se torna simultaneamente consumidor e produtor, muitas vezes sem plena consciência desse duplo papel. Reconhecer esse processo é o primeiro passo para problematizá-lo (e aqui tem-se a função deste texto) e, eventualmente, pensar em formas de resistência, regulação e reapropriação do tempo e da atenção como dimensões fundamentais da experiência humana.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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