
Na fila do caixa do supermercado, pega o celular para aproveitar a espera e responder alguns e-mails do trabalho. Quando entra no carro, já coloca um podcast para escutar enquanto dirige. Ao caminhar até o prédio onde se localiza o escritório, ouve um áudio do amigo, e, a seguir, responde, sem pensar muito. Na hora do almoço, depois de comer, passa cerca de vinte minutos vendo vídeos no Instagram. Esquecer os fones na hora da academia parece uma tortura. Ao chegar em casa, já noite, cozinha algo simples enquanto escuta um audiobook, e depois janta em frente à televisão, assistindo a uma série qualquer. Toma banho ao som de uma playlist genérica e, ao deitar, fica mais uma hora nas redes sociais antes de tentar ler, mas é interrompido seis vezes por notificações.
–
Qual foi a última vez que você não fez absolutamente nada por meia hora seguida? Nas últimas semanas, tenho me permitido momentos de ócio. Sem distrações: música, podcasts, tempo de tela, livros, artes manuais. Nada. Só eu, observando ao redor, sendo. Também não é meditação, estou de olhos abertos e não procuro esvaziar a cabeça. Existo, simplesmente.
Esse exercício, no começo, gera uma certa ansiedade, uma inquietação. Começo a pensar em tudo que preciso fazer, no texto que preciso escrever, naquele vídeo que ainda não editei, na comida do cachorro que está acabando. Será que a guerra vai escalar? Tenho que lavar a louça do almoço. Depois de uns minutos imersa em pensamentos acelerados, a mente começa a aquietar. A respiração fica mais lenta, suspiro, o olhar pousa na grande janela que emoldura a natureza, que também só é, só existe. Percebo meu corpo. Fito meus pés, dentro de meias cinzas, apoiados no estofado do sofá. Nessa época do ano, eu praticamente não vejo meus pés nus, somente nas aulas de yoga, e no banho. Tiro as meias. Depois de alguns minutos contemplando as árvores ao fundo dançarem ao ritmo do vento, me lembro que não respondi à mensagem de uma amiga, e sinto o impulso de pegar o celular. Não o deixei por perto, justamente para não ceder.
Vivemos hiperestimulados todo o tempo. Conheço pessoas que não suportam o silêncio, para elas, ele é mesmo amedrontador. Precisam estar sempre ouvindo música, ou fazendo alguma coisa, como se os próprios pensamentos as perseguissem e, se as alcançassem, estragariam seus dias. Então, não se permitem o tédio, o não fazer nada. Pergunto-me se, na Itália, o dolce far niente ainda é praticado pelos jovens.
Séries e filmes estão cada vez mais mastigados, pois a maior parte das pessoas já não consegue ficar mais de uma hora focada. Até as plataformas e estúdios agora consideraram o comportamento de “segunda tela” na hora de desenvolver conteúdo: roteiros mais diretos, com diálogos que reforçam informações importantes e menos dependência de detalhes sutis ou puramente visuais. Já reparou? Assisti a um filme da década de 1980 recentemente, e fiquei impressionada como as produções eram completamente diferentes, o ritmo das cenas, as entrelinhas.
Isso tudo acaba dizendo menos sobre a indústria audiovisual e mais sobre como estamos vivendo. Se até a televisão precisa disputar a nossa atenção com notificações e distrações constantes, está na hora de olharmos para dentro, e refletir sobre como nos desacostumamos a sustentar o silêncio e nossa própria existência sem interrupções.
Quando nos permitimos não fazer nada, algo muito valioso acontece: a mente desacelera, e, aos poucos, vem a clareza. É nesse espaço vazio que a criatividade encontra lugar para aparecer e onde emoções, tantas vezes abafadas pelo excesso de estímulos, finalmente podem ser sentidas e processadas. O ócio, então, deixa de ser percebido como “perda de tempo” e se torna uma forma de autocuidado. Tenho a impressão de que parte do aumento das questões de saúde mental começa justamente na falta desse espaço: não damos tempo para digerir o que sentimos; seguimos consumindo, distraindo, evitando, produzindo. E, sem esse respiro, tudo se acumula.
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.

