
Houve um tempo em que me perguntavam qual era a minha profissão e eu titubeava em me dizer psicanalista. Sempre pensava que minha formação era insuficiente para me autointitular dessa maneira. Olho com carinho para essa época, porque essa prevenção era parte neurose e outra parte muito de um cuidado ético com o que veio a ser meu ofício – essa é uma melhor palavra do que profissão.
Um dia entendi que ser psicanalista só acontecia mesmo no cara a cara – ou no cara a divã –, com paciente, em um momento analítico. Aí, então, pude relaxar para deixar essa palavra trabalhar em mim. Enquanto isso, eu ia trabalhando em busca desses tais momentos.
Quer nas andanças nas políticas públicas na Argentina e no Brasil, ou na estabilidade mais quadrada do consultório particular, acompanhei coisas bem diversas no sentido humano e psicopatológico mesmo – que, aliás, talvez seja ainda mais humano. Uma boa quantidade de neuroses velhas, daquelas de livro, e uma enormidade de neuroses novas, dessas que vêm com roupa de liberalismo. Já ouvi psicoses começadas com estrondo se transformarem em quadros estáveis. E vi pessoas plácidas transbordarem mais do que chope em dia quente. Também escutei delírios eloquentes que encontraram acolhimento e alojamento no social. Tive casos mais raros de sujeitos melancólicos que não cederam à mania ou ao suicídio, mas toleraram com dignidade e com menos obscenidade a visão crua que carregavam do mundo.
E lá se vão 22 anos de prática clínica.
É um tempo interessante e uma espécie de meio do caminho. Um tempo perigoso, porque pode dar a falsa ideia de que não há mais tempo para surpresas, embora sempre haja. É um tempo construído com o meu melhor e o meu pior, porque sou intensamente interessada no que faço.
Ultimamente, ademais, um tempo para pensar mais a sério em uma palavra que dá medo – a aposentadoria. Calma! Mas não muita.
Venho de uma família negra e de workaholics convictos. Nesse contexto racial desfavorecido, estudo e trabalho sempre foram o feijão com arroz; o mantra inescapável e sem fim.
Acontece que decidi que essa é uma boa corrente para romper, daqui a 20 anos ou menos. Deixar de “melhorar” e simplesmente frear a máquina. Uma boa resistência a se fazer, mas nada fácil. Não quero nem pensar agora em quanto tenho depositado na previdência, embora seja a típica decisão que pede atos consequentes, como mais planejamento, por exemplo.
Serei capaz? E qual a profundidade da palavra temida? Férias vitalícias? Paralisias? Novas aventuras? Perguntas tão temidas quanto a palavra. Respostas daqui a algumas translações.