
Durante a Copa do Mundo de 2026, um nome importante voltou a ecoar nas arquibancadas: Patrice Lumumba. O responsável por isso é Michel Kuka Mboladinga, torcedor congolês conhecido como “Lumumba Vea” (Lumumba vive), que, desde 2013, homenageia o líder assassinado transformando o próprio corpo em estátua viva durante os jogos da seleção da República Democrática do Congo (RDC). Vestido em terno nas cores da bandeira congolesa, reproduz a pose da estátua de Lumumba erguida em Kinshasa, capital do país africano, permanecendo imóvel por 90 minutos.
Michel já vinha ganhando notoriedade continental desde a Copa Africana de Nações de 2025, mas foi neste Mundial que sua homenagem explodiu para o mundo: viralizou nas redes sociais e acumulou centenas de milhares de seguidores.
No entanto, sua própria trajetória na Copa acabou reproduzindo, de forma simbólica, o enredo de limite fronteiriço já conhecido no continente africano e, inclusive, por Lumumba: inicialmente por questões sanitárias e, posteriormente, com seu visto para entrada nos Estados Unidos negado, ele só conseguiu acompanhar a RDC contra a Colômbia, em Guadalajara, no México. Foi impedido de presenciar os jogos disputados em solo estadunidense. Contudo, ele fazia parte da delegação oficial da seleção congolesa. Sendo assim, é inadmissível a negativa do visto. Não se tratava de um torcedor “qualquer”, mas de um homem convocado para estar na Copa representando o seu país. A “ironia” não passou despercebida. Passados mais de 60 anos, as barreiras seguem sendo fortemente impostas a quem carrega a memória da resistência africana.
A República Democrática do Congo se despediu do torneio na segunda fase (dezesseis avos de final), derrotada por 2 a 1 para a Inglaterra, mas Michel Kuka deixou uma carta emocionada de despedida, celebrando os “52 anos de preparação, provas e repetidos fracassos” que trouxeram a seleção até ali e prometendo voltar “com ambições ainda maiores”.
O episódio reacendeu o interesse do público por Lumumba, cujo centenário de seu nascimento foi celebrado em 2025. Saiba mais sobre sua trajetória e de outros ativistas africanos:
Patrice Lumumba (1925-1961), República Democrática do Congo
Patrice Lumumba nasceu em uma família camponesa em Cassai, situada na região centro-sul da RDC, e trabalhou como funcionário postal antes de se tornar uma das figuras mais importantes da política congolesa do século XX. Fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC) e liderou a campanha pela independência da República Democrática do Congo do domínio belga, tornando-se o primeiro-ministro do país recém-independente em junho de 1960. Em seu discurso de posse, rompeu o protocolo diante do próprio rei da Bélgica para denunciar as humilhações, os espancamentos e o racismo estrutural impostos ao povo congolês durante décadas de colonização, um dos discursos mais marcantes da descolonização africana.
Seu governo durou poucos meses. Em meio à Guerra Fria, Lumumba defendia que as imensas riquezas minerais do Congo (cobre, cobalto, urânio, diamantes) deveriam beneficiar primeiro os congoleses, uma postura que colidia frontalmente com os interesses de empresas de mineração belgas e com os planos ocidentais para a região. Ao buscar apoio soviético diante da recusa de ajuda por parte da Bélgica e dos Estados Unidos para conter uma rebelião separatista em Katanga, tornou-se alvo de uma operação de desestabilização orquestrada pela CIA e pelo governo belga. Foi deposto, capturado, torturado e executado em janeiro de 1961, aos 35 anos; seu corpo foi dissolvido em ácido para que não restasse um túmulo capaz de se tornar símbolo de resistência. Décadas depois, a Bélgica reconheceu formalmente sua responsabilidade moral no assassinato e, em 2022, devolveu à família um dente do líder, guardado como “troféu” por um dos policiais envolvidos no crime.
Mais do que um chefe de governo derrubado, Lumumba tornou-se um dos maiores símbolos do pan-africanismo do século XX. Sua trajetória uniu, de forma inseparável, a luta pela independência política à defesa da soberania econômica africana: a ideia de que a verdadeira libertação do continente exigia não apenas o fim do domínio colonial formal, mas o controle africano sobre suas próprias riquezas e seu próprio destino. Ainda em vida, buscou aproximação com outros líderes pan-africanistas do período, chegando a assinar com Kwame Nkrumah um acordo simbólico para uma futura “União dos Estados Africanos”. Sua morte precoce e violenta, arquitetada por potências estrangeiras, tornou-se prova viva daquilo que ele mesmo denunciava: a resistência do Ocidente em aceitar uma África verdadeiramente livre. Décadas depois, seu nome segue sendo evocado por movimentos de libertação e por gerações de africanos e afrodescendentes como símbolo de dignidade, soberania e recusa ao neocolonialismo, como mostrou, mais uma vez, a homenagem de Michel Kuka Mboladinga nas arquibancadas da Copa de 2026.
Amílcar Cabral (1924-1973), Guiné-Bissau e Cabo Verde
Nascido em Bafatá e criado em Cabo Verde, Cabral formou-se engenheiro agrônomo em Lisboa, onde conviveu com círculos nacionalistas africanos ao lado de Agostinho Neto. De volta à Guiné em 1952, atuou como diretor do censo agrícola colonial, experiência que marcou seu pensamento político. Em 1956, fundou o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) com Luís Cabral e Aristides Pereira. Amilcar Cabral se destacou como teórico da libertação nacional, defendendo a resistência cultural como condição da luta política, ideia sistematizada no texto “A Arma da Teoria” (Havana, 1966), desdobramento de discursos do ativista e reunida postumamente em seu livro “Unidade e Luta”, onde se reúnem mais textos e discursos políticos. Historiadores como Patrick Chabal defendem que tensões internas no partido, enfraquecido pela infiltração e conspiração da PIDE (Polícia Política Portuguesa), foram o motor de seu assassinato em janeiro de 1973, em Guiné-Conacri, meses antes da independência. Amílcar Cabral não viu a independência, mas seu legado ultrapassou fronteiras, sendo hoje referência em teoria e luta africana.
Steve Biko (1946-1977), África do Sul
Bantu Stephen Biko nasceu em Ginsberg, bairro negro de King William’s Town, na África do Sul. Foi expulso ainda jovem de sua primeira escola por associação com o irmão, acusado de atividade política. Ingressou na seção para estudantes negros da faculdade de medicina da Universidade de Natal, filiando-se a uma organização multirracial de estudantes. Frustrado com a liderança ainda dominada por brancos liberais, rompeu com a organização em 1968 e fundou a Organização de Estudantes Sul-Africanos (SASO), articulando o que ficaria conhecido como Movimento da Consciência Negra, influenciado fortemente pelo Black Panther e outros movimentos norte-americanos e também por Frantz Fanon.
Sua tese central, exposta em textos assinados sob o pseudônimo “Frank Talk” (compilados postumamente em “Eu escrevo o que eu quero”, 1978), era a de que a libertação política era impossível sem antes alcançar a libertação psicológica, ou seja, o sentimento de inferioridade internalizado pela população negra sob décadas de dominação branca. Essa ideia influenciou fortemente o entendimento brasileiro da Consciência Negra, dando origem ao nome da data hoje celebrada por aqui no dia 20 de novembro. Vigiado pelo sistema do apartheid, Biko foi colocado sob ordem de banimento em 1973, confinado a King William’s Town e proibido de falar em público, ser citado na imprensa ou se encontrar com mais de uma pessoa por vez. Biko foi preso pela última vez em agosto de 1977. Espancado durante interrogatório, sofreu lesões cerebrais graves e foi transportado nu e algemado por 1.200 km até Pretória, onde morreu em 12 de setembro. Biko tornou-se símbolo internacional da luta antiapartheid, inspirando o filme “Cry Freedom” (1987). Seu legado é gigante, pois questiona a subjetividade negra, por isso, sua ideia de libertação não é pontual com algum marco exato, ela acontece com o tempo, à medida que questionamos nossos desejos, percepções, padrões de beleza e mesmo afetos.
Ruth First (1925-1982), África do Sul
Filha de imigrantes judeus lituanos ativos no Partido Comunista Sul-Africano, Ruth First estudou ciências sociais na Universidade de Witwatersrand e se tornou jornalista, expondo condições de trabalho análogas à escravidão em fazendas de batata na região de Bethal, um dos primeiros grandes escândalos sobre trabalho migrante forçado no país. Casou-se com Joe Slovo, figura central do Partido Comunista, e juntos tornaram-se um dos casais mais visados pela repressão do regime. Em 1963, foi presa e mantida em isolamento por 117 dias sob a Lei de Detenção de 90 Dias, sem acusação formal, experiência registrada no livro-testemunho “117 Days” (1965), hoje referência sobre os efeitos psicológicos da detenção sem julgamento no aparato repressivo do apartheid. Exilada, radicou-se em Moçambique, onde pesquisou sistemas de trabalho migrante na Universidade Eduardo Mondlane, além de assinar “The Barrel of a Gun” (1970), análise pioneira sobre golpes militares na África pós-colonial.
Foi assassinada em 17 de agosto de 1982 por uma carta-bomba em seu escritório em Maputo. Quase duas décadas depois, nas audiências da Comissão da Verdade e Reconciliação (1998-99), o ex-espião Craig Williamson admitiu ter articulado o envio do artefato, mesmo agente que confessou o assassinato da ativista Jeanette Schoon e de sua filha de seis anos, Katryn, em 1984. Seu legado permanece vivo na Bolsa Ruth First, mantida pela Universidade de Witwatersrand em apoio ao jornalismo investigativo, e na obra de sua filha, a escritora Gillian Slovo, que dedicou parte de seus livros a reconstruir a vida e a trajetória da mãe.
Thomas Sankara (1949-1987), Burkina Faso
Capitão do exército, formado parcialmente em Madagascar, onde teve contato com movimentos estudantis de esquerda, Thomas Sankara assumiu a presidência em 1983, apoiado por uma geração de oficiais jovens descontentes com a instabilidade do então Alto Volta. Em poucos anos, promoveu um dos programas de transformação social mais radicais da África pós-colonial: nacionalizou terras e recursos minerais, vacinou cerca de 2,5 milhões de crianças em poucas semanas, promoveu o plantio de dez milhões de árvores contra a desertificação e mobilizou trabalho voluntário para construir estradas e ferrovias. Renomeou o país para Burkina Faso, “terra dos homens íntegros”. Em 1987, na cúpula da Organização da Unidade Africana, defendeu que os países africanos deveriam se recusar coletivamente a pagar a dívida externa herdada do colonialismo, comparando sua cobrança a uma forma renovada de dominação e colonização. Foi também pioneiro em políticas de igualdade de gênero, proibindo o casamento forçado e nomeando mulheres para cargos de comando.
Sankara foi assassinado em outubro de 1987 em um golpe liderado por seu amigo Blaise Compaoré, figura que se tornaria um dos maiores exemplos da chamada ‘Françafrique’, a rede de influência francesa no continente, recebendo apoio político, econômico e militar de sucessivos governos de Paris ao longo de seus 27 anos no poder. O legado de Sankara segue vivo na cultura política do país, o atual líder, Ibrahim Traoré, no poder desde 2022, invoca com frequência a memória de Sankara. Entre as referências sobre sua trajetória estão “Thomas Sankara Speaks” e a biografia de Ernest Harsch, “Thomas Sankara: An African Revolutionary”.
Para você que chegou até aqui, talvez estranhe a escolha dos nomes. Pode estar se perguntando: “mas e o Nelson Mandela e a Winnie Mandela, o Cheikh Anta Diop, o Kwame Nkrumah, o Aimé Césaire, por que eles não estão neste texto?” A resposta é simples: o que conecta os ativistas aqui reunidos é o fato de que todos foram assassinados por sua luta.
Meus heróis não morreram de overdose, entende? Por isso, é tão disruptiva a atitude de Michel ao transformar o próprio corpo em estátua viva: ele não está apenas lembrando um ativista, Lumumba, ele leva a mão à boca, faz o sinal de uma arma e denuncia publicamente sua morte. É uma afronta.
Não era de se esperar outra coisa senão que seu visto fosse negado. Mas a verdade é que, como escreveu Assata Shakur, “Revolucionários Negros não caem do céu. Somos gerados por nossas condições. Moldados por nossa opressão. Estamos sendo fabricados em massa nas ruas”, Michel Kuka promove, em todos os jogos, uma denúncia viva do que fizeram a Lumumba. Sua exposição, e mesmo a tentativa de silenciá-lo, só impulsionam ainda mais esse legado e essa luta.
Nota técnica da autora: parte do texto – biografia dos personagens e revisão – foi elaborada com apoio de inteligência artificial.
Saiba mais dos ativistas em:
Amílcar Cabral – Britannica; BlackPast.org; Público; Observador.
Steve Biko – Britannica;South African History Online; Geledés;
Ruth First – Britannica; South African History Online; South African History Online (evento).
Thomas Sankara – Britannica; BlackPast.org; Aventuras na História; Brasil de Fato.
Patrice Lumumba – Britannica; South African History Online; Brasil de Fato; Jacobin Brasil.
Referências:
Michel Mboladinga (“Lumumba Vea”) e a Copa do Mundo de 2026: Exame, Repórter Maceió, Terra, CNN Brasil, Alma Preta (links acima).
Patrice Lumumba: Britannica, EBSCO Research Starters, Brasil 247, Wikipedia (EN), Marxismo.org.br, Buala.org (Cabral).
Amílcar Cabral: Buala.org; CHABAL, Patrick. Amílcar Cabral: Revolutionary Leadership and People’s War. Cambridge University Press, 1983.
Steve Biko: Marxismo.org.br, Alma Preta, RTP; BIKO, Steve. I Write What I Like. Organizado por Aelred Stubbs. Bowerdean Press, 1978.
Ruth First: Arquivo de mídia da TRC (justice.gov.za); FIRST, Ruth. 117 Days. Penguin Books, 1965; FIRST, Ruth. The Barrel of a Gun. Allen Lane, 1970.
Thomas Sankara: Resistir.info; HARSCH, Ernest. Thomas Sankara: An African Revolutionary. Ohio University Press, 2014; SANKARA, Thomas. Thomas Sankara Speaks. Pathfinder Press, 2007.
Assata Shakur (parágrafo final): SHAKUR, Assata. Assata: An Autobiography. Lawrence Hill Books, 1987; averdade.org.br (“Assata Shakur e a luta das mulheres negras revolucionárias”).
Mariana Pedroso é administradora (UFRGS), mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS) e mestranda em Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento (UPO-Sevilla). É pesquisadora e consultora em diversidade, equidade, inclusão e associada Odabá. @maritocracia
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