
“Se alguém escolheu escrever como ofício, deve-se desconfiar que algum prazer (ou ao menos, vá lá, algum sentido) tire da labuta — por mais difícil que ela seja. O trabalho, quando fruto de uma vocação e não da mera necessidade de subsistência, é um dos motivos que nos fazem querer sair da cama, toda manhã. Colocá-lo, não só nas letras, mas em todas as áreas, nas mãos do computador, é um caminho para a humanidade se alienar ainda mais de uma existência que já não anda, digamos assim, num patamar Dalai Lama de mindfulness.”
Antonio Prata, na Folha de S. Paulo do último domingo, 7/6
…
Fechei uma trilogia com chave de ouro. Depois de “A Cronologia do Alef Bet” e de “Uma Estrela no Pampa”, agora, no próximo dia 25, virá ao mundo “A Parteira do Bom Fim”, todos pelo querido selo SlerBooks e, acredite, conversando entre si. Mais: conversando com o leitor.
“A Parteira do Bom Fim: a História de Dona Francisca, a mulher que dava à luz” é uma crônica de 140 páginas em que a estrutura foi milimetricamente calculada. Trata-se de uma biografia que começa contando o significado muito mais que prático da figura de uma parteira.
Dona Francisca Mermelstein nasceu na Hungria em 19 de junho de 1900, fugiu da opressão aos judeus em 1927, já com dois filhos, aportou no Rio Grande do Sul, chegou à colônia de Quatro Irmãos e, um ano depois, radicou-se em Porto Alegre, onde ficou até 1967.
Nesse período de quatro décadas, até fazer “aliá” (quando o judeu migra para Israel), ela pôs mais de 10 mil crianças no mundo, 8 mil delas na Beneficência Portuguesa; as outras, nas casas das parturientes, em especial no Bom Fim, o bairro judaico da cidade.
Mas a tal crônica de 140 páginas começa por uma curiosidade. Já na Porto Alegre que a adotou, ela teve o caçula Ari, em 1930, e o Ari foi um dos melhores amigos do pai deste colunista. Aí você dirá: “Ah, por isso que tu escreveu a história dela, né?” Não, meu velho.
Veja este trecho:
“Ari Mermelstein, o filho caçula de Dona Francisca Mermelstein, tinha um sonho: orgulhoso, ele queria muito escrever a incrível história da mãe dele, de Frida e de José. Ari era um típico jovem judeu de Porto Alegre, perfeitamente adaptado à capital gaúcha, apaixonado pela cultura, apreciador do futebol e repleto de bons amigos, até que fez aliá (foi para Israel) em meados dos anos 1960. Nascido em 1930, ele faleceu aos 63 anos, em 1993 – os irmãos, Frida e José, eram, respectivamente, 10 e oito anos mais velhos que o “temporão” Ari.
Mais de três décadas se passaram desde a sua morte, e esse desejo, firme como os princípios éticos judaicos, manteve-se como que congelado. Sabendo disso e muito apegada ao pai, a neta de Francisca, Ida Mermelstein, resolveu preencher esse vácuo paterno de alto significado afetivo.
Do Canadá, ela se informou a respeito de um jornalista que se dedicava a escrever livros, abordando apaixonadamente temas como judaísmo e diversidade, em especial no futebol. Tomou do telefone, conversou com os amigos Vera Cardoni e Marcos Rovinski sobre a ideia de tocar adiante o projeto paterno e, por fim, entrou em contato com o jornalista. O diálogo foi assim:
– Bom dia, eu sou a Ida Mermelstein. Minha avó tem uma história incrível, ela foi a parteira da comunidade judaica. Pôs no mundo muitos dos judeus que hoje integram a coletividade em Porto Alegre.
Encantado com a história maravilhosa relatada no telefonema, o jornalista respondeu:
– Olha só que interessante. História incrível, mesmo. Mas, por curiosidade, Ida, não tenho como não te perguntar: o que tu é de uma pessoa chamada Ari Mermelstein?
– Sou filha do Ari Mermelstein!
– Filha do Ari Mermelstein?! Bah, Ida! É sério?! Eu sou filho do Henrique Gerchmann, de quem o Ari era amicíssimo…
Corta.
Pausa para respirar, porque a emoção foi (na ocasião) e continua sendo forte quando escrevo sobre esse diálogo revelador, esse reencontro transgeracional como tantos elementos do judaísmo e sua long and winding road (se você ainda não percebeu, os Beatles aparecem novamente, porque estão sempre comigo).
Segue.
Diz ela, então:
– Henrique Gerchmann?! Meu Deus, não pode ser. Os nossos pais eram vizinhos, eram muito amigos, viviam juntos!
O jornalista é o mesmíssimo autor que escreve estas linhas e que volta a se emocionar ao lembrar daquele momento.”
…
E não é que o Ari tinha uma única folha do manuscrito em que começava a escrever a história da própria mãe e que esse projeto foi interrompido pela sua morte precoce aos 63 anos? Imaginem se ele e meu pai viajassem no tempo e soubessem que, décadas depois, o filho do amigo daria continuidade a esse sonho. Coisa de cinema, não?
Você se emocionou? Pois adquira o livro, porque, partindo do manuscrito incipiente que me foi repassado pela querida Idinha, tem muito mais história ali. Tem vida, porque é isso que gera a parteira.
Começo contando que Dona Francisca integra uma linhagem que se inicia pelas heroínas transgressoras Sifrá e Puá, as parteiras que se recusaram a acatar a ordem do faraó, deixaram Moises viver, e, encurtando a história, hoje temos o mandamento “Não matarás”.
Mas, enfim, é uma longa história, que fala de Porto Alegre, do Bom Fim judeu, do Rio Branco africano, de Quatro Irmãos, envereda por depoimentos criteriosamente variados, de pacientes, filho de paciente, parente, amiga, estudiosas, fechando um mosaico que perfila.
Reúno tudo o que ouvi de profissionais sobre a atividade da parteira/enfermeira. Enfim, creio que contemplou uma vida que, na verdade, foi emocionante em si, mas, nos partos, sempre naturais (se exigisse cirurgia, iria para o médico), o tom era, invariavelmente, tranquilo. E isso é muito significativo.
Na Parte 2 do livro, a partir da página 83, compilei reflexões identitárias que andei fazendo aqui mesmo na SLER a respeito da condição judaica nesta esquina perigosamente desafiadora da vida. De certa forma, é uma continuidade do que foi feito em “A Cronologia do Alef Bet”.
…
Vamos celebrar a beleza da vida conhecendo a história de quem nos trouxe a ela. A sessão de autógrafos será no auditório da Federação Israelita, dia 25, às 19h, e o que eu pretendo continuar ali é o que se faz em uma crônica, mesmo que de 140 páginas: conversar com você.
Obs: a arte da capa, como nos outros livros da minha trilogia judaica, é da minha filha Paula, e o bebê da foto, no colo da Dona Francisca, é a Ida.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.

