
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho”.
Carlos Drummond de Andrade
Certo dia, apressado, indo para o trabalho, cruzei com um conhecido que não via há muito tempo. O roteiro para esses encontros casuais já está escrito pelo automatismo dos nossos dias: um aceno rápido, um sorriso protocolar e um “olá, tudo bem?” lançado ao ar, mais como uma senha de passagem do que como uma pergunta real. Eu esperava o habitual “tudo bem, e contigo?”, que nos liberaria mutuamente para seguir adiante.
Mas ele me surpreendeu. Segurou o meu braço, olhou-me nos olhos e indagou de um jeito que, por um momento, cheguei a pensar que fosse ironia:
— Tu queres saber mesmo como estou? — e emendou: — Tens algum tempo para me ouvir?
O compromisso na agenda não me permitia estender o passo ali, na calçada. Diante de uma conversa que, pelo tom e pelo peso do toque no meu braço, prometia ser demorada e importante — pelo menos para ele —, veio a insistência: propôs um café no dia seguinte. Cedi.
O que ele me revelou naquele encontro daria uma grande narrativa. Mas não é isso que motiva estas linhas. Não seria honesto expor o teor do seu desabafo, e a situação em si não tem interesse além da curiosidade do leitor. A questão aqui é outra, muito mais profunda e invisível: a urgência desesperada da falta de alguém que o ouvisse. Enquanto ele falava, percebi que meu conhecido não buscava conselhos ou soluções prontas; ele buscava um artigo de luxo que deixamos escassear no mundo moderno: a atenção pura.
A lembrança daquele apelo me trouxe à mente um alerta do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele previu que, no futuro, haverá uma nova profissão: o “ouvinte profissional”. Iremos a ele e pagaremos por hora, simplesmente porque não restará mais ninguém disposto a nos escutar de graça. O que meu conhecido buscava, de forma quase mansa e suplicante, era esse acolhimento gratuito que a sociedade decidiu privatizar.
Han argumenta que adoecemos de ego. Vivemos na cultura da exposição constante, onde o “eu” precisa ser publicado e projetado o tempo todo, transformando os diálogos em meros trampolins para a autoexaltação. Repare bem: quando alguém nos conta algo, nossos olhos logo ganham aquela textura particular de quem já está calculando a resposta antes de o outro terminar. Pegamos o primeiro gancho e roubamos a narrativa: “Isso me lembrou uma vez que eu…”. A história deixa de ser de quem fala.
Naquilo que o filósofo chama de “sociedade do rendimento”, o tempo dedicado ao outro é visto como prejuízo, um desperdício de produtividade. Essa pressa interna gera uma profunda intolerância ao silêncio. Dois segundos de pausa em uma mesa de bar e logo sacamos o celular ou inventamos uma frase qualquer para preencher o vazio, como se a falta de barulho fosse um sinal de falha na engrenagem. Esquecemos que o silêncio, quando não incomoda, é a prova real de que há alguém nos habitando. Os terapeutas usam essa pausa para dar espaço ao que realmente importa. Mas nós não aguentamos a suspensão; preferimos arrebatar o fio da conversa para garantir o nosso turno. É o que Han conceitua como o “colapso do outro”: perdemos a capacidade de reconhecer o interlocutor na sua alteridade e passamos a dialogar apenas com espelhos.
Não se trata de um problema novo. Há milênios, Pitágoras já exigia o silêncio de seus discípulos para que aprendessem a ouvir, lembrando que na quietude se descobrem as verdades que o ruído oculta. Diógenes, na mesma esteira, ironizava que temos dois ouvidos e uma única língua exatamente para que ouçamos mais e falemos menos. Séculos depois, a advertência continua intacta, mas a nossa capacidade de escuta vem sendo erodida em pequenas decisões cotidianas: a resposta apressada, o desvio de olhar para a tela, o assunto que redirecionamos para nós.
O psicólogo Carl Rogers defendia que poucas coisas têm tanto valor terapêutico quanto o ato de se sentir recebido e compreendido. Não avaliado, não julgado — apenas recebido. Escutar não é um ato passivo de quem simplesmente cala a boca; é um dom exigente, uma entrega generosa que requer esvaziar-se de si mesmo pelo tempo necessário para que o outro exista.
Aquela interrupção no meu caminho foi a minha “pedra de Drummond”. Quase fez com que eu me prometesse nunca mais passar de um mero ‘olá’, deixando de lado o protocolar ‘tudo bem?’. Afinal, percebi que parar para aquele café não foi uma concessão generosa ou uma quebra incômoda na minha rotina. Foi, na verdade, a reconquista de uma humanidade que estamos permitindo esvair-se. Muita gente busca o que antes se encontrava em uma amizade: alguém que simplesmente esteja lá, por inteiro, sem ir a lugar nenhum enquanto a palavra flui. Diante de um mundo que grita para projetar a própria voz, ter a calmaria necessária para acolher a alma alheia se tornou a verdadeira e mais rara virtude: o privilégio da escuta.
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