
A branquitude tem uma habilidade impressionante de decidir quem é branco e quem não é, dependendo de quem ela quer excluir. E o mais curioso é que ainda transforma isso em piada.
Quando ela acha que tu está querendo entrar no clubinho dos brancos, vem rapidamente o deboche: “Vamos fazer um chá de revelação pra ela?”, “Alguém avisa que ela não é branca?”.
Foi assim comigo a minha vida inteira. É assim também com pessoas da minha cor.
A cantora Anitta é um exemplo disso. Quando comentou que, nos Estados Unidos, não era lida como branca, recebeu uma avalanche de comentários afirmando que, no Brasil, ela também não era. De repente, parecia haver um consenso absoluto sobre o lugar racial que ela deveria ocupar.
Mas basta uma pessoa da cor da Anitta ou da minha cor tentar concorrer a uma vaga por cotas raciais para o discurso mudar completamente. Aquela mesma sociedade que antes fazia piada com a possibilidade de ela se considerar branca agora se indigna com a possibilidade de ela se considerar negra.
Aí começa: “Mas tu é branca.” “Isso é fraude.” “Como assim tu quer usar cota?”
O curioso é que, nas duas situações, a pessoa é questionada, ridicularizada ou atacada. Se ela se considera branca, precisa de um “chá de revelação racial” para descobrir que não é. Se ela se considera negra e tenta acessar uma política de reparação, precisa ser lembrada, muitas vezes pelas mesmas pessoas, de que é branca.
Para te barrar do clubinho branco: preta.
Para te barrar da política de reparação: branca.
Só que o mais triste nessa história não é que a régua seja confusa. Ela é apenas convenientemente móvel.
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Sheisa Amaral é escritora, roteirista e doutora em Diversidade Cultural e Inclusão Social, com livros e trabalhos publicados no Brasil e no exterior.