
Enquanto dezenas de milhares de pessoas saíram para as ruas empunhando bandeiras, há quem reclame que o trânsito está parado, da dificuldade de andar por Porto Alegre, que trabalhador precisa se deslocar, que as ruas ficaram sujas.
Uma coisa de todo esse contexto é certa: há vários níveis de interpretação do significado do que estamos atravessando. Tem gente que vive no seu mundinho. E o que atrapalha a sua rotina é um problema. Isso não é novidade. Em toda história foi assim. Só que hoje, os impactos da escolha de gente que pouco se importa com o destino do país onde mora vão afetar a vida no planeta.
Quem for eleito nesse momento, em que estamos a um passo do ponto de não retorno (quando a Amazônia não conseguir mais cumprir suas funções, entre elas como ajudar a regular o clima), pode deixar toda a Terra ainda mais quente. Resultado: mais eventos extremos, mais estiagens, ciclones, tornados e inundações serão gerados.
Quem fica sabendo e entende o significado das manchetes da imprensa está à beira de um ataque de nervos. E, nada melhor para desanuviar do desastre que pode vir, do que participar de caminhadas, comícios, de transitar onde há outros pares que estão na mesma vibração, trabalhando por uma virada no resultado das eleições.
Maria Gabriela Santo, de 19 anos, vem participando de mobilizações nos últimos dias. Na segunda, dia 19, ela esteve na caminhada do Largo dos Açorianos até o Centro da Capital com o candidato Lula. “Senti algo que é difícil colocar em palavras. Nunca tinha visto tanta gente reunida em um mesmo lugar, de tantas idades, histórias e realidades diferentes. Jovens, idosos, famílias, pessoas que talvez nunca tivessem participado de um movimento político, mas que estavam ali por algo que nos une: a democracia. Foi uma das coisas mais bonitas que já presenciei”.
Outra garota, de 12 anos, que pediu para não ser identificada, acha que todo mundo deveria ir a um ato desse tipo. Para ela foi emocionante e também porque, “como criança”, acredita que também precisa acompanhar as coisas que podem impactar seu futuro.
Já Dora Alano, de 16 anos, que vai votar pela primeira vez este ano, foi uma das que foi à passeata com a família. Para ela, o momento é muito importante; ela quer influenciar na votação, pois é “no novo governo que vai começar a vida adulta”. Dora acredita que a situação exige ir para a rua, sair da frente das telas, romper bolhas, ver pessoas diferentes para fomentar maior consciência. Ela está preocupada com a questão climática, de sofrer consequências do que será definido neste pleito. “Esta eleição é muito maior do que o Brasil, do que eu, do que o mundo, com relação aos impactos climáticos. E o que for feito nos próximos quatro anos vai ser decisivo.
Se, para o contexto socioambiental, corremos um risco gigantesco, pois, no sistema terrestre, nos ciclos naturais, nós precisamos obedecer a Ciência, afinal a chuva cai, não sobe. Diante das leis humanas, o entrevero do candidato que defende a mudança na Constituição é tão ou mais embaraçoso e perigoso. Estamos a poucos metros de um labirinto de relações, digamos assim, onde brotam muitos interesses pessoais, privados, em detrimento do bem comum.
Milícia à vista
Vou dividir com vocês algumas coisas que acabei ficando sabendo como funciona o mundo da milícia, lugar onde transita o mesmo candidato que pode ajudar a derrubar ainda mais a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, enfim, o que resta de ambientes naturais dos ecossistemas brasileiros. Tenho um amigo que é nascido e criado na zona Oeste carioca, onde a milícia manda e desmanda.
O pai dele foi motorista de transporte coletivo de uma cooperativa ligada a essa turma. Ele me explicou alguns modus operandi desse meio, pois, como em qualquer negócio que visa lucro, dinheiro, a meta é expandir. Conquistar territórios, naquele estilo do jogo de tabuleiro War. Aliás, esse ‘esquema’ miliciano no Rio tem tentáculos em vários segmentos, inclusive políticos.
Por sinal, algo nunca antes visto: o próprio Estadão, jornal bem conservador, fez um editorial alertando para o perigo de um candidato ligado a esse pessoal ganhar a eleição no dia 23 de setembro último. No texto, o jornal destaca a ligação dos assassinos da vereadora Marielle Franco, no RJ, com a milícia e com o referido candidato (clique aqui) para saber mais.
Meu amigo me explicou que essas regiões onde a milícia comanda, há muitos anos, geralmente tiveram pouca interferência do Estado, desde quando começou a formação dos bairros. E, quando há ausência de serviços de segurança pública e de infraestrutura, a própria comunidade acaba se organizando com o apoio da milícia.
Conforme o ChatGPT: no Rio de Janeiro, milícia é um grupo criminoso que exerce controle territorial sobre comunidades e bairros, impondo regras, cobrando taxas e explorando serviços de forma ilegal ou coercitiva. Diferentemente de uma organização que atua apenas no tráfico de drogas, as milícias cariocas costumam buscar o controle de atividades econômicas e da vida cotidiana dos moradores. Um estudo divulgado em 2025, com dados de 2024, estimou que cerca de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro viviam em territórios sob controle ou influência de grupos armados — incluindo milícias e facções do tráfico (saiba mais aqui).
Nosso papo começou quando perguntei a ele sobre a expressiva votação do candidato em áreas onde esse segmento atua fortemente. Ele me disse que há gente que vota em quem o pastor recomenda, outros têm medo, outros precisam abaixar a cabeça e dançar conforme a música. Muitas vezes, o pastor segue a cartilha de quem manda no pedaço. Quem vive naquele território precisa se relacionar com quem vende o gás, com quem comanda os serviços básicos do local. E o miliciano é o cara com quem ele cresceu junto à comunidade, em que todo mundo se conhece.
É comum que esses caras já tenham passado por áreas públicas, como Corpo de Bombeiros, Polícia, etc. Acabam virando segurança de bicheiro, de outras “personalidades” que precisam de proteção e resguardo. Segundo ele, essas pessoas acabam encontrando um caminho para ascensão social, pois elas atuam em negócios com lucro garantido, como serviços de venda de gás, de internet, na construção civil, entre outros.
Quando empresas legalizadas tentam entrar no mercado em que atuam, não conseguem. Uma empresa de telefonia móvel, por exemplo, acabou desistindo de operar porque, toda vez que instalavam cabos e fios, eram roubados. E a lógica que funciona é a da eliminação. Se os caras dominam um determinado negócio e se alguém de fora quer entrar, há várias formas de afastá-lo. A cobrança de taxas, a expulsão de moradores, as ameaças e os assassinatos podem ser utilizados para manter o domínio territorial e afastar concorrentes.
Por outro lado, as milícias garantem segurança à população. Embora alguns grupos se apresentem como protetores das comunidades contra o tráfico de drogas, essa justificativa não elimina seu caráter criminoso. A proteção oferecida funciona como pretexto para impor um sistema de extorsão e controle social.
Ou seja, é uma teia de relações em que se estabelecem pactos de sobrevivência. Ele contou que o pai dele tinha que destinar uma grana para a cooperativa em que trabalhava e também para a segurança do chefe do negócio. Além disso, em épocas perto das festas de final de ano, a polícia fazia blitz para levantar dinheiro. Eles ainda chamam isso de “arrego”. Ele é indignado com essa prática, pois, para o motorista entrar na cooperativa, precisa pagar vários impostos, estar com tudo legalizado, e ainda é obrigado a desembolsar para esse tipo de situação. Quer dizer, o sujeito paga para o Estado e para os poderes paralelos. E quem não concorda pode ter um final triste. As regras são estipuladas por eles.
Segundo o que tem saído na imprensa, vários cargos eletivos são ocupados por integrantes da milícia, não só no Rio, mas em São Paulo. Confesso, essa área da contravenção, desde que trabalhei na Editoria de Polícia, no século passado, não é algo que me satisfaz.
Porém, creio que é determinante sabermos minimamente o risco que a nação corre. Enquanto isso, tem gente que não vota no partido tal porque há políticos trans ou gays. Pior, porque há muitos integrantes que defendem a Amazônia, nossos povos originários, os legítimos brasileiros.
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Perdi as contas de quantos grupos, associações, federações etc. lançaram manifestos em apoio à candidatura do Lula. Todos que têm a mínima noção do significado da vitória do outro candidato estão se mobilizando em defesa da democracia e da Constituição Federal.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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