
1 – O fogo na lareira começa a se extinguir. Restam ainda brasas entre as cinzas e depois a escuridão será uma forma visual do frio. A crônica tem esses minutos para se escrever, antes que os dedos se engripem e as palavras custem mais do que o necessário.
2 – Voltamos a Canela depois de uma semana de mudança. Era a parte final que havia de trazer de Buenos Aires. Roupas, livros, utensílios variados.
3 – Mudar é paletear. Eram duas mudanças. A nossa e a do Rafael Bassi, onde deixamos nossas coisas.
4 – Por sorte paleteamos juntos, o que guarda ao menos o consolo da solidariedade nas agruras.
5 – Nada a lamentar, exceto pelo ciático em chamas e a baixa da imunidade.
6 – Restam apenas brasas e cinzas claras na lareira.
7 – Antes da viagem, revisei o carro numa mecânica aqui de Canela, que há anos tem sido de confiança.
8 – Na hora de pagar, a moça da recepção perguntou o que fazíamos. Quando a Tainá disse que eu era escritor, ouvimos de volta:
9 – Mas que legal. A gente não imagina que um homem rústico assim possa escrever.
10 – Talvez fosse minha camisa de flanela (há que adotar esta pele da serra), talvez a barba por fazer.
11 – Achei curioso o adjetivo num primeiro momento. Logo me envaideci.
12 – Era um título ao fim e ao cabo, que não me fora conferido por amigos intelectuais e afetados, galhofeiros em cafeterias com grão especiais do Kilimanjaro. Recebera-o numa oficina do interior, espécie de destino antevisto da semana seguinte como paleteador.
13 – Há no apagar das brasas uma imagem muito antiga de nossa aventura humana.
14 – Quatro graus lá fora.
15 – Amanhã começa o trabalho de pôr em ordem a biblioteca.
16 – Imagino a decepção da recepcionista ao saber que a lenha aqui já vem cortada.
17 – Enquanto este rústico observa o último fulgor do toco calcinado acabar de se consumir.
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