
Vivemos uma contradição curiosa. De um lado, o mercado cultua a juventude. As redes sociais valorizam a aparência, muitas empresas de tecnologia preferem perfis jovens e, em muitos espaços, quem passou dos 40 anos já começa a ser tratado como ultrapassado. A lógica dominante parece exigir velocidade, produtividade constante e conexão sem pausa.
De outro lado, a realidade insiste em desmentir essa crença. Pessoas com 70, 80, 90 e até 100 anos seguem ativas, criativas, influentes e admiradas. Isso mostra que envelhecer não significa parar. Significa, muitas vezes, continuar de outro modo, com mais experiência, mais lucidez e, em muitos casos, mais liberdade.
Basta olhar para a história recente. É difícil acreditar que não possam surgir novos Roberto Marinho, que criou a TV Globo aos 60 anos; Harland Sanders, que expandiu a KFC depois dos 65; Ray Kroc, que impulsionou o McDonald’s depois dos 60; ou um novo Morgan Freeman, cuja consagração veio após os 60 anos. A grande lição é simples: o talento não tem prazo de validade.
Foi pensando nisso que resolvi observar onde estão e o que estão fazendo hoje personalidades, artistas e políticos idosos. A juventude precisa conhecer a trajetória de pessoas que abriram caminhos, romperam barreiras e ajudaram a construir a sociedade em que vivemos. São histórias que explicam por que hoje existem mais democracias, mais acesso à cultura e à tecnologia, e mais mulheres ocupando espaços antes reservados apenas para homens.
No Brasil, há uma geração de artistas idosos que segue em plena atividade e que representa um patrimônio cultural vivo: Caetano Veloso (83 anos), Gilberto Gil (83 anos), Paulinho da Viola (83 anos), Milton Nascimento (83 anos), Martinho da Vila (88 anos), Roberto Carlos (85 anos), Ney Matogrosso (84 anos), Maria Bethânia (79 anos). No cinema e na televisão, nomes como Fernanda Montenegro (96 anos), Lima Duarte (96 anos) e Ary Fontoura (93 anos) continuam presentes e relevantes.
No cenário internacional, a longevidade também não significa recolhimento. Paul McCartney, aos 84 anos, e os Stones Mick Jagger (82) e Keith Richards (82) ainda enchem estádios. Bob Dylan (84 anos), Diana Ross (82 anos) e Willie Nelson, com 93, continuam compondo e fazendo apresentações. No cinema, Clint Eastwood (95 anos), Jane Fonda (88 anos), Anthony Hopkins (88 anos), Al Pacino (86 anos) e Robert De Niro (82 anos) seguem sendo referências. E David Attenborough, com 100 anos, continua produzindo documentários alertando o mundo sobre a crise climática.
Na literatura, Edgar Morin, com 104 anos, continua escrevendo e participando de conferências debatendo educação, democracia, ecologia e o futuro da humanidade. No Brasil, Ignácio de Loyola Brandão (89 anos) e Adélia Prado (90 anos) seguem produzindo, publicando e mantendo viva a força da palavra.
Na política brasileira, há trajetórias que também desafiam estereótipos. Luiza Erundina foi a primeira mulher prefeita de São Paulo em 1988 e, hoje, aos 91 anos, segue como deputada federal. Benedita da Silva, que foi empregada doméstica, camelô, assistente social, professora, tornou-se a primeira mulher negra senadora no Brasil e a primeira negra a governar o Rio de Janeiro. Aos 84 anos, continua como deputada federal. Dilma Rousseff, depois de ter sido presa e torturada pela ditadura militar, tornou-se a primeira mulher a presidir o Brasil, sofreu um golpe em 2016 e hoje, aos 78 anos, preside o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, tornando-se uma das mulheres mais influentes da atualidade.
No cenário internacional, Michelle Bachelet (74 anos), que foi a primeira mulher a presidir o Chile em dois mandatos, segue como nome central na política global e é candidata a suceder António Guterres como Secretária Geral da ONU. Se eleita, será a primeira mulher a exercer este cargo na ONU. Hillary Clinton (78 anos), ex-senadora e ex-secretária de Estado, continua atuante como palestrante, comentarista política e liderança influente no Partido Democrata.
Mas não são apenas figuras públicas que mostram isso. Também nossos pais, avós, vizinhos e professores provam, todos os dias, que a velhice pode ser tempo de presença, sabedoria e contribuição. Eles continuam ensinando, cuidando, trabalhando, criando e transmitindo aquilo que aprenderam ao longo da vida.
A ideia de que tudo precisa acontecer antes dos 40 é uma narrativa limitada e cada vez mais falsa. O fim não começa aos 70. Ele começa no dia em que a pessoa decide que já viveu o suficiente para tentar algo novo. E esse dia é uma escolha, não uma data no calendário. No século XXI, há milhões de pessoas trocando de carreira aos 50, começando um negócio aos 60, aprendendo um instrumento aos 70, encontrando um novo amor aos 80. Talvez a única data que realmente importe não seja o ano em que nascemos, mas o dia em que dissermos “agora é tarde demais”.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.

