
1. Escrevo enquanto espero. Nunca me acostumarei à ideia de que um texto avança enquanto houver esta saída provisória do mundo, feito uma máquina antiga, a executar uma função por vez.
2. Digo isso porque nas redes alguém mostra a bela vista da janela ao pé da qual escreve. Um lago. Árvores. Depois das montanhas, lago é a minha vista favorita. Mais que mar ou paisagens urbanas. O que importa é que ao ler um texto seu anterior, sem foto nem comentário sobre o momento da escrita, estava ali apenas um raciocínio sem corpo, sem cenário, apenas a máquina solitária do pensamento codificado.
3. Em um texto será sempre preciso dizer esses arredores para que possam existir também para os leitores.
4. Os elementos sensoriais são os mais sonegados pela escrita.
5. Espero no carro, ouvindo a Aspen, estação que trouxe de contrabando de Buenos Aires para Canela. A internet é uma grande amiga do chibeiros.
6. O tempo na serra está fechado, agora vocês sabem.
7. Logo tenho de ir para a ergométrica. Os modos de tortura voluntária da humanidade demoram para mudar.
8. A partir de agora, o que se escreve já vem entre pedaladas. Bloco de notas do celular. Além da tortura, como rapidamente somos capazes de descer a ladeira.
9. A Aspen segue comigo, com um bloco de clássicos oitenteiros. Mas queria falar dos amigos que não vejo há muito tempo, muitos com quem já nem falo.
10. Não é fácil de explicar. Ao menos não consigo explicar para mim mesmo.
11. Cogito recorrer às fórmulas textuais. Tempo. Distância. Ocasião. É fácil escrever sobre isso. O drama disponível, o mea culpa conveniente. O tema da mudança. O tema da mudança é infalível.
12. Suo. Vocês também escutam as coisas que os amigos disseram nas vozes deles?
13. Tainá me manda uma foto de um óculos que foi experimentar. Quadrado, armação preta. Os formatos retangulares realmente lhe caem bem demais.
14. Um olho na tela, outro no cronômetro da ergométrica. Penso num amigo com quem costumava viajar e que, sem explicações ou rupturas, saiu da minha vida.
15. Nada lhe perguntei. Lá se vão anos. Também já saí assim algumas vezes. Às vezes passa com certos livros. Estamos gostando, não estão de fato ruins, mas paramos de lê-los um dia. Depois são dois. Uma semana. Anos. E aí os encontramos num canto esquecido da estante.
16. Pergunto notícias dele como se me importasse. Queria me importar.
17. Fim do sofrimento. Meia hora na bicicleta parece muito para tão pouca escrita.
18. Talvez a vida seja muita, meu caro amigo.
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