
Lembro de quando comecei a ter mais consciência do mundo ao meu redor, no final da década de 1980. Coincidiu com a mudança de bairro da minha família. Saímos de uma área mais central para outra considerada mais nobre, mais residencial, cheia de casas e jardins.
A mudança alterou minha rotina. Já não era possível ir caminhando para a escola. Mas o que mais me marcou eram as crianças nas sinaleiras. No trajeto de carro, era comum ver meninos e meninas mais jovens do que eu vendendo balas, limpando para-brisas ou simplesmente pedindo esmola.
Minha avó, quando vinha do interior, ficava indignada. Mais indignada do que nós, moradores da cidade, que, embora incomodados, já havíamos naturalizado aquela paisagem.
Hoje entendo o quanto aquele incômodo era necessário.
Muitos anos depois, vivi outro choque de realidade.
Durante a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul, não fui atingida diretamente. Ainda assim, a dimensão da tragédia abalou profundamente quem a acompanhou de perto. Talvez só não tenha sido mais devastadora pela força impressionante do coletivo. Pessoas comuns organizaram doações, cozinhas solidárias, resgates, campanhas e redes de apoio numa velocidade emocionante.
Aquilo me devolveu esperança.
Afinal, perder o que se conquistou com esforço deve ser uma experiência profundamente dolorosa. E não apenas pelos bens materiais. Há também o desafio de dividir espaços improvisados com desconhecidos, depender de doações até para se vestir e reconstruir a rotina em meio à incerteza.
Mas meu maior choque veio algumas semanas depois.
Assistia a uma reportagem sobre os abrigos quando uma jornalista perguntou a uma mulher como estava sendo sua experiência naquele local.
A resposta foi simples:
— Eu nunca me senti tão feliz.
Fiquei paralisada diante da televisão.
Como alguém poderia dizer isso depois de perder tanto?
Foi então que percebi a dimensão da minha ingenuidade — e do meu privilégio.
A mulher contou que criava sozinha um filho neurodivergente. O pai havia desistido da responsabilidade, e ela fazia o possível para sustentar a casa e cuidar da criança. Em um dos abrigos para famílias com necessidades especiais, encontrou outras mães vivendo situações semelhantes.
Ali havia alimentação, apoio psicológico, brinquedos, voluntários e pessoas dispostas a ajudar.
Mas não era apenas isso.
Pela primeira vez, ela tinha tempo para conversar com outros pais e mães que compreendiam exatamente os desafios que enfrentava todos os dias. Pela primeira vez, podia trabalhar sabendo que seu filho estava seguro. Pela primeira vez, sentia-se cuidada.
Nunca havia experimentado aquilo em toda a sua vida.
Aquela entrevista me fez compreender algo importante: proteção social não é apenas assistência. É dignidade.
Quando protegemos uma criança, protegemos também os adultos responsáveis por ela. Reduzimos sobrecargas invisíveis, evitamos adoecimentos silenciosos e criamos condições mínimas para que as pessoas consigam viver, e não apenas sobreviver.
Lembrei então daquelas crianças das sinaleiras que marcaram minha infância.
Elas não desapareceram por acaso.
Ao longo das últimas décadas, o Brasil construiu uma rede de proteção que envolveu escola, assistência social, transferência de renda, fiscalização do trabalho infantil, conselhos tutelares e políticas voltadas à infância. Não foi uma única lei nem um único programa. Foi uma decisão coletiva de que crianças não deveriam crescer nas ruas.
Talvez essa tenha sido uma das transformações sociais mais importantes que testemunhei.
Durante muito tempo, aceitamos aquela realidade como inevitável. Depois, passamos a considerá-la inaceitável.
E isso mudou tudo.
Por isso a fala daquela mulher continua ecoando na minha memória.
Ela nos lembra que os problemas sociais mais difíceis raramente se resolvem apenas com crescimento econômico ou boa vontade individual. Eles exigem atenção, continuidade, políticas públicas e capacidade de enxergar quem ficou para trás.
Sinto falta dessa disposição coletiva.
Sinto falta da coragem de enfrentar problemas complexos sem transformá-los apenas em estatísticas ou disputas ideológicas.
As enchentes revelaram uma imensa capacidade de solidariedade da sociedade brasileira. Talvez o desafio agora seja transformar esse impulso em algo permanente.
Porque ninguém deveria precisar perder tudo para finalmente experimentar o que significa ser cuidado.
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