
Estou passando por um período levemente conturbado.
Sou alguém que não briga com a vida.
Procuro passar, da melhor forma possível, por todas as dificuldades e desafios, sem me rebelar, reclamar ou desmerecer esses momentos que, um dia, acabam.
Afinal, tudo que dói ensina.
Um destes desafios está mexendo mais comigo, pois envolve um dos meus cachorros.
Quase todos são resgatados e essa fêmea já está com treze anos.
Recolhi junto com sua irmã e vários filhotes de ambas, quando elas tinham por volta de dois anos.
Nessa semana ela teve que se submeter a uma ecografia abdominal, algo que ela ainda não tinha feito, pois quase nunca adoeceu.
No meio do procedimento, a veterinária me olhou e disse: “Ela tem uma cicatriz no baço, provavelmente um chute bastante forte”.
Como ela sempre foi um cão muito assustado com pessoas, um chute me pareceu algo bastante provável.
Ainda na consulta, comecei a visualizar uma cadelinha prenhe, ou com filhotes recém-nascidos, recebendo uma agressão no seu corpo pequenino.
Foi o gatilho para mais um momento de imersão nos meus pensamentos ruminantes sobre as pessoas que habitam este mundo.
Quando vejo ou ouço sobre esse tipo de violência me sinto cheia de indignação, tristeza e até uma sensação de que o mundo perdeu o sentido por um momento.
Esses sentimentos são minha resposta humana ao reconhecimento da vulnerabilidade e da injustiça.
Porém, considerando que me julgo alguém com muita sensibilidade, a injustiça e a crueldade me tocam profundamente.
Aos dez anos de idade, gritava com os vizinhos da nossa casa na praia quando eles insistiam em matar os gambás que apareciam.
Aos quatorze, tentei salvar uma garça de ser torturada por dois marginais, na beira da mesma praia. Não consegui.
Já casada, levávamos nossa filha de cinco anos a um zoológico perto da nossa cidade.
Estávamos na fila para ver as tartarugas e, na nossa frente, uma menina estava acompanhada da mãe.
A menina pulava e comemorava, dizendo estar louca para ver os animais.
No meio da empolgação, ela recebeu um tapa forte no rosto, com a seguinte advertência: “Para quieta, guria, e não incomoda”.
No mesmo instante, reagi.
Certa vez, há pouco tempo atrás, uma mãe levava sua filha pequena à escolinha que abriu perto de casa.
Ela lutava com a criança para que ela colocasse o casaco e, como a menina se recusava, ela desferiu um belo tapa no rosto pequeno.
Na mesma tarde fui até a escola, contei o ocorrido e tive que me contentar com a justificativa de que, depois dos portões, a responsabilidade era dos pais.
E o mundo continuou sendo o que é, com crianças arremessadas da janela, mulheres mortas a socos, cachorros torturados por adolescentes em busca de views na internet, mulheres esmagando animais pequenos em troca de alguns euros, bebês sendo estuprados e mortos e o Oliver, de apenas três anos, morto a socos pelo pai missionário, por não lhe dar “bom dia”.
Como escreveu Fabrício Carpinejar:
“Com a contundência dos golpes, de acordo com os laudos, o coração chegou a sair do lugar.
Ele apanhava por não seguir as ordens, ele morreu por não cumprimentar.
Ainda um bebê, não pôde se defender. Não entendia os xingamentos, os castigos e a falta de paz, de colo, de acolhimento, tanto do lado materno quanto do paterno.
Já havia herdado hematomas. Mentiras vieram para encobrir a origem. Já havia quebrado o braço, mas justificou que se tratara de uma brincadeira com os irmãos.
Já circulava com pouca roupa no inverno, mas dava-se um desconto.
Já chegava com fome na escola, e acreditava-se em exceção”.
Então surgem as explicações, sem justificativas, para alguém que comete atos de extrema crueldade: passado violento, sadismo, ausência extrema de empatia, prazer em exercer poder e controle, dentre outros.
No caso de bebês e animais, há um aspecto particularmente perturbador para mim: eles são totalmente dependentes e incapazes de se defender.
Para uma pessoa cruel, essa vulnerabilidade pode representar uma oportunidade de exercer controle absoluto, sem resistência.
Procuro desesperadamente por uma resposta que possa me fazer entender a razão de tanta loucura.
E consigo algumas explicações de que, em alguns indivíduos, a violência pode ativar circuitos de recompensa do cérebro.
Em vez de gerar culpa ou aversão, dominar, humilhar ou causar sofrimento pode ser vivenciado como algo excitante ou gratificante.
A resposta mais importante é que, de acordo com a ciência, não existe um único “cérebro do mal”.
Um indivíduo também pode ter passado por todas as adversidades que aumentam o risco de acabar torturando e matando seres vulneráveis e simplesmente nunca ultrapassar os limites da normalidade.
A minha maior dúvida é a razão de eu estar dividindo este planeta tão cheio de belezas com pessoas tão loucas, doentes e desumanas.
Como sei que só saberei em outro plano, vou aguardar.
Que não demore demais.