
1 – Uma revoada de caturritas compete com o barulho dos caminhões. Esta é nossa contribuição.
2 – Um alarido cinza que ensombrece o alarido verde.
3 – A essa altura da civilização, precisamos admitir que a feiura venceu. Com tantas opções limpas, nem falo da beleza dos trens, que uma cidade continue recebendo caminhões de madeireiras que bem deveriam ter aberto uma rota alternativa, só se explica pela preguiça ou interesse dos poderosos.
4 – Em geral esta horrenda combinação.
5 – Bosques de araucária, em tese preservados, que desaparecem despudoradamente.
6 – Mas parece estar tudo bem. Enquanto manarem turistas e empreiteiras, a alegria do tempo está garantida.
7 – A patacoada grasna no lago. Torço para que tragam conforto às inteligências que nos sucederão, que lhes sejam testemunhos da infância do mundo, mais perenes do que nossos apetrechos de alumínio e vidro.
8 – Agora os caminhões se buzinam ao cruzar. 6h30 da manhã. A nobreza de um aceno silencioso, tesouro desconhecido.
9 – Nessas horas um superpoder (a IA diz “habilidade fictícia e sobre-humana” — mas quem entenderá desses dois conceitos?) fundamental seria dispor de uma mesa de mixagem de som, daquelas grandes e luminosas, 48 canais, em que todos os sons estivessem isolados, para cima com os pássaros, um pouco mais de volume no vento, um pouco menos de eco no coração, mais grave no crepitar das folhas, agudos para o primeiro fogo que lambe as lenhas, e para sempre mutados caminhões, escapamentos, canções ruidosas do presente, influenciadores incapazes de usar microfones, demagogos de toda sorte que se lembram de perdigotar-nos a cada quatro anos.
10 – Um novo alarido das caturritas. Um chamado à memória de que um dia fomos bonitos.
11 – A última forma circular de religião.
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