
Durante os anos em que vivi na Espanha, aprendi uma lição curiosa: os espanhóis possuem uma extraordinária capacidade de transformar quase qualquer coisa em patrimônio cultural. E, uma vez atribuído valor cultural, vêm os livros, as exposições, os roteiros turísticos, as atividades educativas e, inevitavelmente, alguma forma de rentabilização.
O interessante é que nem sempre se trata apenas do que foi criado por eles. Muitas vezes, basta reconhecer a riqueza de algo para incorporá-lo ao imaginário coletivo.
Tive a sorte de acompanhar um exemplo brasileiro desse processo.
Como arquiteta, trabalhei no escritório responsável pela montagem dos espaços expositivos do Cosmocaixa, o Museu da Ciência de Barcelona, inaugurado em 2004 e premiado, dois anos depois, como um dos melhores museus de ciência da Europa.
Foi ali que conheci uma figura fascinante: o físico catalão Jorge Wagensberg, diretor do museu e uma das mentes por trás de sua concepção. Ele era um entusiasta da ciência e um apaixonado pelo Brasil. Contava, com brilho nos olhos, histórias de quando viveu durante alguns meses na Amazônia. Para ele, a floresta não era apenas um ecossistema extraordinário. Era um patrimônio da humanidade.
Essa admiração influenciou diretamente um dos espaços mais emblemáticos do museu: o Bosque Inundado.
Trata-se de uma imensa estufa tropical que recria a experiência de caminhar por uma floresta amazônica. Grandes árvores, vegetação exuberante, rios, umidade constante e até chuvas reproduzem sensações muito próximas das encontradas naquele ambiente natural.
O visitante não apenas observa a floresta.
Ele a atravessa.
Mas há outro detalhe engenhoso.
Parte da exposição permite observar o ambiente também a partir de baixo do nível da água, revelando a vida aquática daquele ecossistema. Ali, um dos protagonistas é o pirarucu, frequentemente citado entre os maiores peixes de água doce do mundo.
Mas existe outro habitante que desperta enorme curiosidade.
A capivara.
Apresentada aos visitantes como o maior roedor terrestre do planeta.
Há uma curiosidade linguística interessante. Na Espanha, o nome “capibara” acabou se consolidando como a denominação mais comum do animal. Já em países vizinhos ao Brasil, como Argentina e Uruguai, predomina a palavra “carpincho”. Talvez porque, ao chegar ao imaginário espanhol, ela tenha vindo acompanhada da floresta amazônica e da influência cultural brasileira de Wagensberg.
Veio, por assim dizer, abrasileirada.
Também acompanhei algumas discussões sobre os desafios de manter capivaras naquele ambiente. São animais sociais, que vivem em grupos. Reproduzem-se com relativa facilidade e exigem cuidados específicos. A solução encontrada foi manter apenas um indivíduo, decisão que gerou debates entre especialistas e visitantes ao longo dos anos.
Essa discussão revela uma questão mais ampla: a convivência entre fauna silvestre e ambientes urbanos ou altamente artificializados nunca é simples.
E foi justamente isso que me veio à cabeça quando as capivaras começaram a aparecer com mais frequência em Porto Alegre após a enchente de 2024.
Nas proximidades da foz do Arroio Dilúvio, junto à orla do Guaíba, elas rapidamente se transformaram em atração.
É difícil não sentir simpatia.
Há algo de reconfortante em ver animais silvestres ocupando espaços urbanos. Eles parecem nos lembrar que a cidade não surgiu em um vazio. Antes das avenidas, dos edifícios e dos estacionamentos, existiam rios, campos, matas e uma enorme diversidade de vida.
A presença das capivaras produz uma espécie de nostalgia ecológica.
Mas também traz perguntas.
Estamos preparados para conviver com elas?
E elas estão preparadas para conviver conosco?
Nas últimas semanas surgiram notícias de incidentes envolvendo aproximações excessivas. Uma criança foi mordida. Vídeos mostram pessoas correndo atrás dos animais ou tentando interagir de maneira imprudente. Outros registram capivaras atravessando avenidas enquanto motoristas aguardam pacientemente sua passagem.
Até aqui, felizmente, nada de grande gravidade ocorreu.
Mas situações assim costumam servir como alerta.
Elas me fizeram lembrar do famoso golfinho Tião, que encantou turistas no litoral paulista durante os anos 1990. O animal tornou-se uma celebridade local pela disposição em interagir com seres humanos. O problema é que nem todos compreendiam os limites dessa convivência.
Houve pessoas que tentaram segurá-lo, montá-lo ou provocá-lo. O resultado foram diversos acidentes. Depois da morte de um turista, programas de monitoramento e conscientização foram finalmente implementados.
Como costuma acontecer, a gestão chegou depois do problema.
No caso das capivaras, talvez possamos fazer diferente.
Não se trata de afastá-las nem de transformar sua presença em motivo de medo.
Trata-se de compreender que convivência exige conhecimento.
Monitoramento populacional, avaliação das condições ambientais e campanhas educativas são medidas fundamentais para evitar conflitos futuros. Afinal, em ambiente urbano, as capivaras praticamente não possuem predadores naturais, o que pode favorecer o crescimento acelerado da população.
A beleza desses encontros não elimina sua complexidade.
Pelo contrário.
Quanto mais próxima se torna a relação entre natureza e cidade, maior deve ser nossa responsabilidade.
E essa reflexão vale para muito mais do que as capivaras.
Vale para os rios que insistem em nos lembrar seus antigos caminhos. Vale para os morros, as nascentes, as áreas verdes e os fragmentos de natureza que ainda resistem dentro da cidade.
Talvez a presença das capivaras seja apenas mais um lembrete de algo que frequentemente esquecemos: a cidade nunca substituiu completamente a natureza.
Ela apenas passou a dividir espaço com ela.
E dividir espaço, como qualquer boa convivência, exige atenção, respeito e cuidado.
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