
1 – Meu avô materno me chamava de Pedruca. Depois ninguém mais. É só na voz dele que atendo a uns chamados que às vezes escuto quando a memória se põe indômita, nessas duas horas entre o fim da madrugada e a manhã que já vem.
2- Aquilo que é catalogado em palavras plenas, nunca abstratas, palavras martelos de piano para as cordas sensoriais, que reverberam e acordam vozes, sabores, cheiros e tudo o que o corpo sabe mais do que nós.
3 – Hoje de manhã tive a nítida impressão de sentir o aroma de terra e doçura que saiu de um latão de um extrato de guaraná concentrado que certa vez minha mãe trouxe do norte. Todos os guaranás depois disso foram mera diluição.
4 – A mão burocrática da mulher que pela primeira vez me prestidigitou.
5 – Aquela finalíssima do campeonato do colégio, o abstrato mas eficaz senso de honra, e o sacrifício de se jogar contra o chute que te acerta na cara, mais bem no nariz, fazendo do sangue a inédita experiência de ser gosto, cheio e cor ao mesmo tempo.
6 – Talvez sejam alucinações esses retornos, porque não vêm, de fato, mediados pelo lembrar. Penso que se nossas memórias da mente fossem assim não saberíamos o que é real ou não, porque nos sentidos as memórias não têm tempo, não se alteram em essência. E ainda que não tenham, por óbvio, a intensidade do real estímulo, dão-nos a curiosa impressão de uma repetição perfeita. Se tomamos um choque, este choque é igual ao que de meninos levamos em alguma traquinagem ou distração. Um corte de papel no dedo me doeu igual, dias atrás, a todos os que estão guardados em meus nervos.
7 – Às vezes me angustia que este catálogo se perca com cada um de nós: podemos contá-lo, escrevê-lo, mas seu fundo sensorial é intransferível.
8 – Os árabes têm uma palavra, barak, para os sinais de uso, do tempo, sobre uma coisa. O modo como as antigas máquinas de escrever ficavam condicionadas por quem as batia (os carros também tinham isso, não sei agora os de China), a pátina que recobria os velhos móveis.
9 – Creio que também nossos sentidos são assim. Cada um de nós, de modo único e irrepetível, vai experimentando pequenas alterações, ou grandes traumas, em sua relação com o mundo. Posso reportar isso através de um discurso, espero ser entendido porque temos muito mais em comum todas as criaturas da Terra do que são capazes de aceitar os teólogos da diferença, mas o que fica gravado, grava-se em matéria viva e orgânica, em milhares de cicatrizes, variegadas em como se fecham ou voltam a se abrir.
10 – O cheiro das sovaqueiras erguidas quando o Grêmio saiu campeão em 1989.
11 – O gosto amargo das pétalas de rosa que comi no que deveria ter sido uma performance artística.
12 – A imensa peneira de aço às avessas que era o céu estrelado no sítio do meu tio Régis.