
A Europa está em chamas, forçando milhares de pessoas a deixarem seus presentes e futuros para trás e migrarem para territórios onde suas memórias não residem. Nós já vivemos isso aqui no Rio Grande do Sul, recentemente. A diferença é que, ao invés de chamas, enfrentamos a força imparável das águas. Apesar disso, e dos avisos de muitos especialistas sobre o clima no segundo semestre de 2026, pouco foi feito para transformar a maneira como estamos lidando com um fato simples e, ao mesmo tempo, transformador: os fenômenos climáticos extremos são e serão cada vez mais frequentes. Já sabíamos disso em 2024, quando a enchente que atingiu 90% do território do Rio Grande do Sul destruiu comunidades inteiras e expôs essa realidade e, também, uma verdade incômoda: nossas cidades não foram planejadas para essa transformação. Vivemos uma era policrítica, em que as crises não se sucedem — elas se sobrepõem e se intensificam mutuamente. Nesse contexto, buscar soluções e formas de lidar com as consequências da crise climática exige mais do que uma abordagem sistêmica: precisamos operar um deslocamento de perspectiva rumo ao ecocentrismo, urgente.
A partir dessa lógica, surge uma pergunta simples: quais candidatos e candidatas — às assembleias, ao Senado, à presidência — têm falado sobre a crise climática? Quem, de fato, está enfrentando os impactos profundos que os fenômenos extremos, decorrentes dessa crise, desencadeiam na saúde, na economia, na produção de alimentos, no abastecimento de água, na distribuição de energia, na migração forçada de pessoas e animais, na morte de ecossistemas inteiros — e de pessoas, suas memórias, seus sonhos e esperanças? Para muito além da lacração nas redes sociais, o que se espera é que esses temas ocupem o centro das propostas — afinal, é papel das políticas públicas preparar os territórios para os futuros que já estão sendo gestados no presente.
Talvez a crise climática ainda pareça distante para muitas pessoas. Ainda assim, é a mais profunda de todas — porque não atinge apenas os humanos: atinge, de forma contundente, ecossistemas complexos que existem há muito mais tempo que nós. Ela ultrapassa em muito as fronteiras do humano e, ao fazê-lo, produz efeitos ainda mais dramáticos. Como fomos alfabetizados, no Ocidente, a partir da separação de tudo, seguimos reproduzindo esse raciocínio. Para ir além disso, precisamos, com urgência, restaurar a primeira das relações: nós-natureza-planeta-vida.
É por isso que defendo, ao lado de muitas outras pessoas, que precisamos aprender a usar o(s) futuro(s) de outro modo. Inclusive, essa é a base da Alfabetização em Futuros (Future Literacy), cátedra da Unesco que existe desde 2012 e que busca democratizar o conhecimento sobre futuros para construirmos, coletivamente, imaginários e soluções voltados ao bem-estar planetário. Parece abstrato, mas é profundamente prático. A Alfabetização em Futuros tem, na antecipação, o coração que faz pulsar um sem-número de projetos e práticas protagonizados por pessoas e coletivos em várias partes do mundo. Inspirada por isso, há alguns anos me uni a esse pulsar e venho buscando conectar outros temas à Alfabetização em Futuros para pensar cidades mais resilientes, sustentáveis e regenerativas.
Dessas conexões nasceu, em 2025, o projeto FutureSeeds Scenario: uma plataforma digital assistida por Inteligência Artificial cuja ideia central é simples de enunciar e complexa de realizar — ajudar cidades a antecipar impactos sistêmicos e ecossistêmicos antes que se tornem irreversíveis. A partir de um framework que articula Alfabetização de Futuros, Design de Futuros, Inovação Responsável, princípios ESG e Regeneração, a plataforma gera cenários futuros para diferentes contextos urbanos — de cidades inteiras a bairros específicos —, sempre ancorados em fontes verificáveis, para que os usuários possam aprender e refletir a partir das visões de futuro apresentadas. E, claro, para que passem a usar o(s) futuro(s) de modo prático, nos seus cotidianos.
O último pilar do framework de base — a Regeneração — marca a diferença da proposta. Em vez de perguntar apenas se a cidade ou bairro resiste a choques, o FutureSeeds interroga a trajetória: a cidade ou bairro está se tornando mais ou menos capaz ao longo do tempo? Pautado nas Soluções Baseadas na Natureza, esse objetivo operativo da plataforma deixa de apenas mostrar como neutralizar danos para apresentar ideias para enriquecer ativamente sistemas e ecossistemas — recuperar matas ciliares, renaturalizar rios, criar cidades que crescem com a natureza, e não contra ela —, tornando a justiça socioecológica uma condição de validade, não um detalhe secundário.
Volto, então, à pergunta do início, agora ampliada. Ela não é só para os candidatos: é para nós todos. Que futuros estamos dispostos a imaginar e a construir? A política é uma das dimensões mais poderosas de transformação da realidade — local e global ao mesmo tempo. Não deveria, por isso, ser também o lugar onde se produzem soluções à altura da crise? Aprender a usar o(s) futuro(s) é, no fundo, uma forma de compromisso real com as pessoas — e com tudo aquilo que existe muito além de nós.
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Paula Visoná é Doutora e Pós-Doutora em Comunicação Social, especialista em estudos de futuros, foresight, inovação responsável e sustentabilidade. Cofounder da Radar ASG e Head de Inovação na Luzz Design e Branding, onde lidera o Lab de Antecipação. Pesquisadora/empreendedora FAPERGS com o projeto FutureSeeds Scenario, que democratiza a Alfabetização em Futuros para cidades resilientes e regenerativas.