
1 – A única coisa real na escrita é o lugar onde se escreve.
2 – Onde que também é enquanto se escreve.
3 – Durante anos como professor de pré-vestibular vi alunos sofrerem nos temas de redação, a angústia de chegar a dez linhas ou a velocidade de escrever trinta graças a um treino puramente formal, esvaziado do instante da escrita.
4 – Avançavam ou fracassavam movidos pelo futuro do texto, levados pelo interessante paradoxo das fórmulas, cujo futuro é sempre passado, cujo presente é convite a desaparecer no movimento circular dos raciocínios repetidos.
5 – E assim somos treinados e treinamos nossas supostas inteligências: ao replicável, ao automático, ao livrar-se de qualquer chance de conflito com o que está aberto.
6 – Meus dedos estão gelados, teclo devagar. Aos poucos, talvez sejam raciocínios do frio, tenho considerado o déficit entre a mente e as mãos. Ou as ideias vão mais rápidas que os caracteres (o que promove uma impressão curiosa de pista sensível de salão de baile que acende a cada passo), ou se arrastam de uma maneira deplorável, desordenadas e bocejantes ideias, e é como se os dedos tivessem de martelar palavras de resgate, que não as ditam nem a memória, nem o passado das fórmulas, mas o próprio instante do texto.
7 – E é isto o que chamei de real. A franqueza de não saber para onde se vai. O que desde o início de nosso aprendizado de escrita é desestimulado, ridicularizado até, para que possamos redigir eficientes laudas para memorandos, pareceres, relatórios, ou, nos casos de extrema gravidade, votos do supremo e decretos de ocasião.
8 – A própria literatura nos defraudou na tentativa de presentificar a experiência de escrever. Embriagou-se no codificar o sem sentido do imediato com rupturas frasais e formais quase sempre tolas. Em busca de dinamismo abraçou jogos gráficos e sonoros que envelheceram mal, eram futuro do passado, hoje sabemos.
9 – brrrrrruuuuummm, passa o caminhão na rua abaixo.
10 – tac … tac … tac …, eu escrevendo lento.
11 – Essas coisas.
12 – Quando na verdade o viver o instante da escrita é alguma coisa muito mais antiga, mas perenemente verde. Trata-se de estar disponível a tudo o que o texto não sabe o que é, que se configura aqui: frio, juntas enregeladas, o cheiro acre das salas de aula que a memória aviva, o maldito caminhão a sacolejar seus pinheiros cortados, meus raciocínios fracassados, meu fracasso de ter cinquenta em 2026 e ter dito pouco ou quase nada deveras relevante, tudo ao lado de uma pequena redenção:
13 – Escrever com a franqueza de um agora sem futuro.
14 – A franqueza do perecível.
15 – Diga! Eu digo: o real.