
Nesse período do ano, a região metropolitana de Porto Alegre recebe a Expointer, a maior feira agropecuária a céu aberto da América Latina. Lá, num pavilhão dedicado à agricultura familiar, passei a tarde da segunda-feira (31/8/26) com meus alunos ouvindo produtores rurais falarem sobre um assunto que raramente vira manchete: como as mudanças climáticas já mexem, todo dia, na vida de quem planta e cria.
O relato começou pelo clima fora de ordem. Julho, historicamente um dos meses mais frios do Rio Grande do Sul, veio muito quente este ano. As plantas, enganadas, floresceram antes da hora. Em agosto, o inverno voltou com frio, vento e chuva, e muitas flores caíram. Quando isso acontece, o potencial de produção diminui. Quem vive da terra sabe que uma flor perdida hoje significa uma fruta a menos daqui a alguns meses.
Mas foi uma criadora de galinhas quem me deu a imagem mais reveladora da tarde. Com o calor excessivo, disse ela, os ovos “ficam aguados”, clara mole, gema pálida. Eu, que cresci numa fazenda, sabia que galinha ofegante é galinha com calor. O que eu não sabia era que aquele calor podia chegar até o ovo. Fui pesquisar e descobri que a história é mais complicada: essa respiração acelerada altera o equilíbrio ácido-base do organismo e pode interferir no metabolismo do cálcio e na formação da casca. Ao mesmo tempo, o calor faz a ave comer menos, reduzindo a quantidade de nutrientes disponíveis para a produção. O resultado pode ser uma redução na produção de ovos, ovos menores e, principalmente, cascas mais finas e frágeis. Quando saímos, uma aluna comentou comigo: “E eu que achava que os impactos das mudanças climáticas estavam nas geleiras, nos oceanos e nas florestas”.
O mesmo mecanismo atinge outras espécies. Vaca com calor come menos, produz menos leite e arrisca perder a cria. Porco, ave, planta, bicho do mato, todos pagam o mesmo pedágio térmico. E nós, que nos julgamos fora da cadeia, pagamos também, só que ainda não sabemos exatamente o tamanho da conta.
Diante disso, cabe perguntar: qual é, afinal, o real impacto das mudanças climáticas? Ninguém sabe ao certo, mas todo indício aponta para algo bem maior do que se supõe. E aqui está o paradoxo mais perturbador de toda essa história: quem deveria estar mais apavorado com a crise climática seriam os empresários do agronegócio, aqueles cujo patrimônio depende diretamente do comportamento do clima. Mas são exatamente esses que menos percebem. São os pequenos agricultores, com décadas de observação empírica, que sentem a mudança na pele e se preocupam com o futuro. O prejuízo financeiro, por si só, não tem sido argumento suficiente para convencer quem mais deveria estar convencido.
E há os que, deliberadamente, escolhem não ver. Um candidato à Presidência, em sabatina na TV Globo, resumiu o negacionismo climático em uma frase pronta: “Não existe mudança climática, existem apenas ciclos, ora esquenta, ora esfria.” Perguntado sobre o que faria a respeito, respondeu “saneamento básico”, como se as mudanças climáticas fossem resolvidas com uma fossa e uma rede de esgoto.
O que torna tudo mais alarmante é lembrar que esse mesmo campo político, quando no poder, tentou desmontar a proteção ambiental às escondidas, como revelou o ex-ministro Ricardo Salles ao sugerir “aproveitar a pandemia para passar a boiada”. Não há ingenuidade nesse negacionismo; há estratégia, há interesse. E, se eleitos, repetirão a fórmula, escolhendo ministros afinados com a destruição, em nome de uma falsa prosperidade.
A temperatura média no mês de julho no Rio Grande do Sul costuma variar entre 10°C e 18 °C. Desde que a temperatura começou a ser medida há 116 anos, o recorde histórico ocorreu nesse ano, quando a temperatura atingiu 37,8°C em Três Forquilhas e 33,8°C em Porto Alegre. Em agosto, as temperaturas mínimas chegaram a 8°C. Não vivemos mais “mudanças climáticas”, tampouco uma simples “crise climática”; vivemos uma “emergência climática”, palavra que exige ação, não é mais hora de debate. Enquanto a mídia noticia sobre as enchentes, tem outras mudanças silenciosas ocorrendo: é a época da floração que mudou. Depois diminui a produção. Cai a produção de leite. A fruta fica mais cara. O ovo muda.
O ovo de galinha frágil é simbólico, revela mais sobre o nosso tempo do que qualquer discurso: é fraco por dentro, não alimenta, não gera vida. É a imagem do que estamos construindo, uma casca frágil, um conteúdo diluído, um futuro sem consistência. E, assim como a galinha ofegante que não consegue mais fixar cálcio, nós também vamos perdendo a capacidade de fixar o essencial. A pergunta que fica é: até quando vamos chamar de “ciclo natural” a nossa própria destruição?
Fontes:
– Robustness to chronic heat stress in laying hens: a meta-analysis. S Mignon-Grasteau 1, U Moreri 2, A Narcy 3, X Rousseau 3, T B Rodenburg 3, M Tixier-Boichard 4, T Zerjal 5. DOI
– G1 – Calor fora de época: Porto Alegre bate recorde de temperatura para julho desde 1910, diz Inmet.