
1 – No fim, acho que sempre acabo por me interessar pela parte menos turística das cidades, por suas ruas anônimas, cuja aparência é o resultado de certa liberdade, de uma desistência em tentar impressionar.
2 – Todos tivemos colegas como essas ruas: não eram as mais populares, também não pertenciam às excluídas pelos rígidos e inflexíveis critérios do secundário. Estavam ali, com uma discrição que leva mais tempo para ser notada: nada de catedrais, ruas cobertas, outlets de quase tudo o que a humanidade conquistou, de tapetes a chocolates.
3 – É preciso dar-lhes tempo.
4 – São ruas que não tem avaliações nem estrelas.
5 – O carro da Google as gravou por compromisso de precisão.
6 – Tais ruas existem em todas as cidades.
7 – É preciso dar-lhes nosso tempo.
8 – Na contramão de um estar no mundo que está desesperado em saber: o que se pode ver em um dia?
9 – Quando talvez o mais apropriado fosse se perguntar: o que não veremos em uma vida.
10 – A saturação é o último estágio de uma civilização assombrada com o vazio, com o recolhimento, com a tristeza, por vezes.
11 – Muito de tudo. Sempre. Mais uma rodada. Mais um lançamento.
12 – Não ter tempo para ofertar ao nada, que rapidamente se confunde com não ter tempo para nada.
13 – Como caminhar nas ruas vicinais de uma cidade, naquelas calçadas que são as mesmas da infância. E lembrar dessas colegas que usam roupas sem marca explícita.
14 – Entre o alarido das crianças e uma conversa volumosa entre vizinhos, saber que o senso de urgência e relevância vicejam porque nos enredamos numa selva de luminosos artifícios.
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