
As ondas tecnológicas chegam cada vez mais rápidas, e já não temos a mesma resistência de antes. Lembro de amigos — especialmente os mais velhos — que juravam ser possível resistir ao celular. Doce ilusão. Ainda bem que cederam. Não havia outro caminho.
Desde a internet até as plataformas que dominam nosso cotidiano, fomos empurrados para situações que jamais imaginaríamos: caçar Pokémons pelas ruas, entrar no carro de desconhecidos, dormir na casa de alguém que nunca vimos, aceitar notas e avaliações de estranhos como moeda de confiança. Em poucos anos, o improvável virou rotina.
O telefone talvez seja a transformação mais profunda. Saímos do telégrafo, restrito a poucos iniciados, para o milagre de um aparelho em cada casa. Depois, essa mesma tecnologia se reinventou. O celular deixou de ser apenas telefone: virou lazer, educação, cultura, distração, mapa, banco, vitrine, carteira, agenda, identidade. Tudo num só dispositivo — individual, íntimo, indispensável.
Uma trabalhadora me contou que pagava com sacrifício as parcelas de um novo aparelho. O antigo havia caído e quebrado. “É impossível ficar sem”, ela disse. No telefone estavam seus clientes, o controle de pagamentos e, quando chegava em casa cansada, era a única forma de relaxar. Não era luxo. Era sobrevivência.
Smartphones não são meras ferramentas. Eles reconfiguraram comunicação, trabalho, consumo, política, educação, relações pessoais. São transformações sociotécnicas: tecnologias que não apenas mudam a sociedade, mas reorganizam sistemas inteiros — institucionais, econômicos, culturais. O impacto é fascinante e perturbador. Amplia limites, atravessa legislações, cria códigos próprios. E, como tudo que move poder, nem sempre traz efeitos positivos.
É nesse cenário que a discussão sobre o Airbnb ferve. A ideia original parece irretocável: hospedagem mais acessível, experiência local, a sensação de viver a cidade como morador. O problema começa quando isso ganha escala. Globalmente, a Airbnb tornou-se a maior empresa de hospedagem do planeta — sem possuir um único imóvel.
E o que isso provoca?
Em cidades turísticas, moradores deixam áreas centrais para rentabilizar seus imóveis. O número de visitantes explode, sem que se planeje a nova condição urbana. Bairros com infraestrutura consolidada passam a ser subutilizados, enquanto surgem áreas periféricas que demandam escola, posto de saúde, praça, iluminação. As zonas turísticas degradam equipamentos públicos: turistas não matriculam filhos em escolas, não usam postos de saúde, raramente frequentam parques locais. Enquanto as plataformas e os proprietários lucram, o poder público absorve novos custos coletivos. Ou não?
O que você considera justo?
Barcelona, uma das cidades mais visitadas do mundo — cerca de 15 milhões de turistas por ano —, decidiu enfrentar a proliferação de aluguéis de curta duração, vista como vetor da crise de moradia: aumento dos preços, gentrificação, expulsão silenciosa de moradores. Para devolver moradias ao mercado residencial e reduzir a pressão sobre os aluguéis, a cidade adotou um plano ousado: eliminar todos os apartamentos turísticos até 2028.
Primeiro, estabeleceu um teto de 10 mil licenças legais. Para alugar temporariamente, o proprietário precisava solicitar autorização, atender aos padrões mínimos de habitabilidade e não ultrapassar 120 dias por ano. Também devia recolher a taxa turística, declarar rendimentos e cumprir obrigações administrativas: contrato para hóspedes, contatos de emergência, canais formais de reclamação. Era uma proteção ao usuário — e à cidade.
Agora, Barcelona mudou o jogo. Nenhuma licença será renovada quando expirar. Ou seja: todas desaparecerão. A prefeitura faz inspeções ativas, e quem descumprir as regras pode receber multas de até € 600 mil. Plataformas como Airbnb passaram a remover anúncios irregulares a pedido do governo local. A medida busca conter o “overtourism”, preservar a convivência urbana e proteger a vida dos residentes.
Radical? Talvez.
Barcelona é referência mundial em urbanismo e qualidade de vida. Lá, política urbana não é retórica — é prática. A cidade escolheu priorizar os moradores, respeitar limites e evitar que o turismo devore o que sustenta o próprio turismo: a vida cotidiana. No curto prazo, pode parecer pouco lucrativo. Mas, para quem vive no hemisfério sul, não é difícil perceber: pensar apenas no imediato costuma ter um preço alto — e quem paga não são as plataformas.
Por que este tema nos interessa, já que no Rio Grande do Sul os dados apontam para pouco mais de 3 milhões de turistas por ano? Nossa capital está longe de ter o turismo de Barcelona, mas é curioso como adotamos o discurso do “Airbnb como oportunidade de ouro”. Apartamentos pequenos, bem localizados, vendidos a preços exorbitantes, embalados pelo sonho da renda fácil. A lógica do investidor que não mora, não conhece a vizinhança, não caminha pelas calçadas onde seu capital pousa. A tática de venda parece funcionar: quando não há regulação, o limite é apenas o desejo de lucro — nunca a vida urbana.
No Brasil, muita gente valoriza cidades estrangeiras como se fossem fruto de espontaneidade urbana. “Ah, mas lá tudo funciona”, dizem, como se fosse obra do acaso, e não a consequência de décadas de debate público, legislação e disputa política pela moradia. A ingenuidade está em achar que a qualidade de vida nasce do nada, que planejamento e políticas urbanas são ornamentos e não estruturas. A lição principal, talvez a única que nos interessa de verdade, é o cuidado com quem vive na cidade.
Cidades interessantes não são um shopping a céu aberto, nem um parque temático para visitantes ocasionais: são lugares habitados, com histórias, laços, memórias e fragilidades. Quando a moradia vira ativo financeiro, a cidade perde o caráter de casa e vira moeda, perde identidade. E, nesse processo silencioso, os cidadãos deixam de ser protagonistas para se tornarem, com sorte, figurantes.
Nossas vidas — não podem ser vendidas por metro quadrado, embaladas em narrativas de oportunidade, como se viver fosse apenas um negócio.
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