
Você já ouviu falar no “Manifesto Palantir”? Então vamos destrinchar esta história, o que está em jogo e como isso nos afeta. Em 2025, Alexander Karp, CEO da empresa Palantir, e Nicholas Zamiska, seu assessor jurídico, publicaram “A República Tecnológica: Tecnologia, Política e o Futuro do Ocidente”. Em 18 de abril de 2026, a própria Palantir divulgou em sua conta no X um resumo do livro, apresentado como “Manifesto Palantir”, assumindo suas ideias como propósitos da empresa. A divulgação provocou forte repercussão na imprensa e abriu espaço para análises críticas sobre o papel das Big Techs na segurança nacional e no controle das informações privadas.
Para entender esse debate, é preciso começar pela própria Palantir. A empresa surgiu com incentivo da CIA, no contexto posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando os EUA intensificaram a criação de tecnologias voltadas à vigilância e ao combate ao terrorismo. Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor do Facebook, e Alex Karp fundaram a Palantir com a proposta de integrar grandes volumes de dados, cruzar informações e antecipar riscos. Hoje, a empresa possui contratos ativos com a CIA, o FBI e o ICE. Em outras palavras, ela coleta dados privados de cidadãos e os entrega para o governo.
Há uma ironia histórica que vale destacar. Durante a Guerra Fria, o Ocidente criticava duramente a União Soviética por espionar sua própria população e suprimir a privacidade individual. Agora, no Ocidente, são as empresas privadas que coletam nossos dados privados com fins comerciais e os repassam aos governos. É o pior dos dois mundos.
Quem é Peter Thiel? É uma figura controversa. Ele já declarou que “liberdade e democracia não são compatíveis”, defende a supremacia branca, sugere a criação de “territórios livres” onde os bilionários fariam suas próprias leis, e afirma que empresas devem buscar o monopólio, nada de concorrência. Falou que a população deve se despolitizar, chama as universidades de “bolhas ideológicas” e paga bolsas para jovens não irem à faculdade. Sua visão de mundo mistura apocalipse cristão com desprezo pela política democrática. Alexander Karp, por sua vez, já disse: “A Palantir está aqui para assustar nossos inimigos e, quando necessário, matá-los.”
Mas, afinal, o que é o Manifesto da Palantir? Trata-se de um conjunto de 22 pontos que sintetiza a visão de Karp sobre o papel da tecnologia, poder e segurança. Entre suas ideias, destaca-se a defesa do desenvolvimento de armas baseadas em inteligência artificial (IA), sob o argumento de que, se não o fizermos, nossos inimigos farão. O problema é evidente: armas autônomas, capazes de decidir sozinhas sobre a vida e a morte, deslocam para máquinas uma responsabilidade que deveria permanecer sob controle humano e ético. Tivemos agora um exemplo do uso de IA na guerra, quando os EUA bombardearam uma escola de meninas e mataram cerca de 170 crianças no Irã. A justificativa foi que a IA “errou” ao classificar o local como alvo militar.
Entre outros pontos, o manifesto propõe serviço militar obrigatório e exaltação de valores tradicionais. O foco do Manifesto é que as Big Techs sejam incorporadas como o braço tecnológico do Governo. Sem dúvida estas tecnologias são estratégicas para qualquer governo, mas Karp vai mais longe: propõe um “novo Projeto Manhattan” para IAs, semelhante aos investimentos feitos para produzir a bomba atômica.
O que dizem os críticos e analistas? Grandes corporações sempre influenciaram governos. O que chama a atenção agora é a ruptura com a antiga “cultura californiana” do Vale do Silício, que pregava diversidade, livre mercado, responsabilidade social, ambiental e governança (ESG). Hoje, muitos donos de Big Techs se aproximaram abertamente de governos autoritários e conservadores, como evidencia a sua ao lado de Trump em 2025.
Por que essa guinada? Alguns analistas apontam que a IA é uma bolha prestes a estourar: os investimentos são gigantescos, mas o retorno é incerto. Se as empresas forem consideradas essenciais para a defesa nacional, o dinheiro público garantirá sua sobrevivência.
Críticos como o economista Yanis Varoufakis chamam esse modelo de tecnofeudalismo: bilionários agindo como senhores feudais digitais. Outros analistas chegam a classificar essas propostas como tecnofascistas, pela valorização da vigilância, obediência e dominação.
E o Brasil? O que começa nos EUA e Europa logo chega aqui. É provável que compromissos como ESG e responsabilidade social das empresas percam força. O melhor para o Brasil seria encontrar o seu lugar, sem alinhamento ideológico com EUA ou China. Mas isso vai depender da posição do próximo governo.
Portanto, o Manifesto Palantir não é apenas um documento de uma empresa de tecnologia. É um aviso. Ele desenha um futuro onde máquinas armadas com IA decidem quem vive e quem morre, onde a vigilância privada alimenta o poder estatal sem controle democrático, onde bilionários se veem como salvadores de um mundo que eles mesmos ajudaram a destruir. O que deveria nos alarmar não é apenas o conteúdo do que dizem, é a normalidade com que dizem. Essas ideias, há poucas décadas, teriam chocado o mundo, hoje passam a ser anunciadas como manifestos corporativos e celebradas por líderes de Estado. Não estamos diante de uma ameaça futura: estamos dentro dela. A pergunta que cada leitor precisa se fazer não é “isso pode acontecer?”, mas “o que estou fazendo enquanto acontece?”
Referências:
- A República Tecnológica: Tecnologia, política e o futuro do ocidente. Alexander C. Karp e Nicholas W. Zamiska. 2025. Estante virtual.
- Calma Urgente – 27/04
- Manifesto Palantir: Tecnofacismo ou Marketing?
- Palantir lança manifesto político e acende alerta sobre nova era do capitalismo com IA
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.

