
O artista pernambucano entoou, embalado pelo povão, nas ladeiras de Olinda: “A solidão é fera, a solidão devora”. Pura verdade! Há circunstâncias na vida da gente em que parece que o mundo esqueceu de nós. Vivemos cercados de redes sociais e muitas badalações; alguns apontam a era atual como sendo aquela da informação. O mundo está conectado por interações que se realizam no clicar dos dedos. Basta ter um simples celular e podemos viajar por terras desconhecidas, conversar com pessoas distantes – e com várias simultaneamente –, comprar e vender coisas. O conhecimento não viaja mais em solitárias carretas por estradas bucólicas. Somos encurralados por canais onde a comunicação flui facilmente. Imagine que até casamentos e congraçamentos sexuais se articulam pela mediação do mundo virtual.
Héraclito de Éfesos bem que acertou quando proclamou “πάντα ῥεῖ”, “tudo flui”. O capitalismo aprendeu rapidinho e expôs a vida a um vendaval no qual a transformação é a única constante. Por isso, Nelson Motta e Lulu escreveram: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. O fenômeno da mudança daria um robusto texto; o da perplexidade diante dela, produziria outro de igual solidez. Porém, quero ater-me a uma possível consequência desse dinamismo dialético que, ao tempo em que agrega, fragmenta.
De lá e de cá, escutamos expressões que falam em isolamento, enfermidade e egocentrismo exacerbado. Parece que a sociedade que impôs toda essa facilidade criou, igualmente, um lamentável adoecimento de pessoas que, paradoxalmente, vivem sozinhas em meio à multidão. Ironicamente, a época da hiperconexão exacerbou o individualismo e promoveu a solidão como uma moléstia perigosa. A OMS (2023, 2025) já se refere a ela como uma epidemia global de saúde pública.
Evidencia-se que estamos diante da configuração de uma grave patologia social. Analisando a 1ª Guerra Mundial, o pai da psicanálise expressou sua desilusão ao constatar que a civilização falhou em “resolver por outras vias as desinteligências e os conflitos de interesses” (Freud, 1915/2010). Para compreender o suporte dessa engrenagem, é produtivo recorrer a Zizek (1989), cuja categoria de “fantasia ideológica” propõe que “o nível fundamental da ideologia, no entanto, é uma fantasia – inconsciente – que estrutura a nossa própria realidade social. (…) A função da fantasia ideológica é a de nos proteger do encontro com o real traumático, com o antagonismo social fundamental que rasga o tecido da sociedade.” Contudo, o devaneio ideológico se relaciona diretamente com a desilusão e a solidão, porque ele funciona como um amortecedor psíquico. Quando essa fantasia falha ou se desfaz, o indivíduo é confrontado com o vazio da realidade. É crucial a tese de Safatle (2018), para quem a sociedade fabrica a produção e a gestão do sofrimento. Na seara dele, “inexiste sociedade que não se fundamente em um complexo processo de gestão de patologias, e tal gestão é uma dimensão maior, mas nem sempre completamente explícita, de reprodução social de afetos.” Essa ocorre quando o sofrimento político e estrutural é transformado em distúrbio individual e biológico, ocultando as causas sociais do mal-estar por meio de diagnósticos médicos padronizados.
Todavia, se não fosse tão trágico, seria, para mim, até engraçado, pois gosto muito de ficar só. Aprecio deitar-me em minha rede e olhar para o teto, curtindo apenas esse aparente ser que habita em mim e que eu sei que, no fundo, não é nada. Meu nada, todavia, não me assusta. Ao contrário, me motiva a constituir-me. Quando me casei, manifestava-se estranho à minha companheira o hábito, daquela época, de ouvir canto gregoriano no escurinho de minha varanda, de desfrutar Liszt tomando meu whisky, de gostar de ficar no escuro. Não raro me dizem ser mórbida minha preferência por chorinho e fado. Não acho! A questão é que não tenho medo de mim e, além disso, minha solidão não é ausência de presença. Cabe um mundo de gente dentro dela. Em alguma medida, estou ciente dos atravessamentos nocivos que me fazem companhia.
O isolamento social da pandemia da COVID-19 só me assustou pelo negacionismo do presidiário ex-presidente da República, visto que eu e os meus tínhamos as condições materiais para os cuidados necessários. Infelizmente não era e não foi a realidade da grande maioria — isso me apavorava. Assumi a imperiosa necessidade de permanecer em casa como militante pela vida. Fiz inúmeras lives, criei infindos grupos de estudos, promovi inúmeros seminários. Mobilizei pessoas e as mantive muito ocupadas, preocupado que eu fiquei com a saúde emocional de todos.
Trago minha experiência de solidão como uma oportunidade de me reconectar com meu ser, refletindo sobre o sentimento de estar sozinho ou de estar jogado, imerso nesse caos que me constitui. Contudo, esse distanciamento de mim próprio, da dinâmica do meu vir-a-ser, resiste em eliminar o outro, ou produzir um exponencial afastamento do mundo da vida. É uma circunstância que me integra, como bem entendeu Merleau-Ponty. Pois, para este, “o mundo é inseparável do sujeito, mas de um sujeito que não é senão projeto do mundo, e o sujeito é inseparável do mundo, mas de um mundo que ele mesmo projeta. O sujeito é ser-no-mundo, e o mundo permanece “subjetivo”, já que sua textura e suas articulações são desenhadas pelo movimento de transcendência do sujeito” (1999).
Essa experiência de solidão aqui relatada é aquela vivência de liberdade que viabiliza a tecissitura de significados. Em Heidegger (1927), estar só não significa simplesmente ausência de outras pessoas, mas a condição existencial pela qual o ser humano é chamado a confrontar a si mesmo e a assumir, de forma autêntica, a responsabilidade pelo próprio existir. É nesse encontro consigo que se torna possível compreender o próprio ser e construir um modo de vida genuíno. Tal compreensão fenomenológica da solidão também encontra ressonância na reflexão de Hannah Arendt. Em A Condição Humana (2007), a filósofa distingue o estar só (solitude) do isolamento e da desolação. Enquanto o estar só constitui uma experiência necessária ao pensamento e ao diálogo interior, preservando a capacidade de julgar e de atribuir sentido ao mundo, o isolamento rompe os vínculos da ação comum e a desolação destrói o próprio sentimento de pertencimento à humanidade. Em direção semelhante, Simone Weil, em O Enraizamento (2001), sustenta que uma das necessidades mais profundas da alma humana é o enraizamento em uma comunidade de afeto, memória e responsabilidade compartilhada. A perda desses vínculos produz desenraizamento, fragiliza a dignidade e transforma a solidão em experiência de abandono. Assim, a solitude pode constituir um espaço fecundo de encontro consigo mesmo, enquanto a solidão imposta pela ruptura dos laços comunitários converte-se em expressão do empobrecimento das relações humanas e da crise do mundo comum.
Moreira e Callou (2006), no artigo “Fenomenologia da Solidão na Depressão”, dizem que a solidão, que faz sucumbir nosso pertencimento a um grupo social, nos leva a mergulhar no esquecimento do outro e a buscar. Pode ocorrer tanto na presença quanto na ausência do outro. A esse respeito, Ruggero (2004) define a solidão sociológica, que se revela pela ausência dos outros, mas lembra, também, que ela pode ser ontológica — própria do ser enquanto ser —, quando se revela na presença de outros, a também chamada ‘solidão acompanhada’. Parafraseando Minkowski (1999), que define o sofrimento, podemos afirmar que a solidão, que faz sucumbir nosso pertencimento a um grupo social, nos leva a mergulhar no esquecimento do outro e a buscar também pertencer ao domínio do pathos, o qual é descrito como “do domínio do pathos humano, e nele o homem reconhece o seu aspecto humano”.
Todavia, nem toda solidão nasce dessa experiência existencial. Há uma solidão produzida socialmente, construída por estruturas de organização econômica, cultural e política que corroem os vínculos humanos. É desta outra solidão que passo a tratar. Esta, que nos isola socialmente para mergulharmos no esquecimento do outro, levando-nos a buscarmos sentidos, conforto e segurança dentro de nós mesmos. Deste modo, pretende-se aqui colocar em cena a possibilidade de outra experiência de solidão, uma solidão marcada pela vaidade, pelo hedonismo, pelo individualismo narcisista. Ainda, uma solidão configurada no abandono e no etarismo.
Lipovetsky (1996) refletiu que “quanto mais a cidade desenvolve possibilidades de encontro, mais sós se sentem os indivíduos; mais livres as relações se tornam emancipadas das velhas sujeições, mais rara é a possibilidade de encontrar uma conexão intensa. Em toda parte, encontramos a solidão, o vazio, a dificuldade de sentir…” A revista médica The Lancet, no edital do número publicado em 8 de julho de 2023, Volume 402, Número 10396, referenciou a solidão como um problema de saúde pública, enfatizando que a “necessidade humana de conexão social é tão fundamental quanto a de comida, água e abrigo.” No entanto, em todo o mundo, as pessoas enfrentam uma epidemia silenciosa: a solidão”.
Não são poucos os que desdenham do fenômeno, atribuindo o confinamento à preguiça ou má vontade em relação aos outros. Há pessoas que escondem o sentimento de não pertencimento ou de abandono, implicando-se numa desconexão emocional. Em pesquisa da Meta-Gallup, realizada em mais de 140 países, quase um quarto da população mundial – mais de um bilhão de pessoas – relatou sentir-se muito ou bastante solitária. No Brasil, esse percentual foi de 15%, o mesmo registrado nos Estados Unidos (conforme o NEXO JORNAL LTDA, de 14/07/2025).
O capitalismo, ao preconizar a produtividade como condição de conquista da felicidade, ao propugnar uma estética da existência pautada em valores que pressupõem a jovialidade, o ter, o poder, ao promover o célere envolvimento de tecnologia de informação e comunicação, desenha uma constante geografia. Essa geografia isola e marginaliza todas as pessoas que não estão aparelhadas para acompanhar seu ritmo, seus pressupostos, seus valores. Ocorre que o próprio capitalismo evidencia os detentores do patrimônio e poder material em detrimento dos empobrecidos, tornando estes em condição de existência daqueles. Tal formatação inviabiliza o bem-estar, o contentamento, a dignidade de uma multidão de seres que apenas estão permitidos a sobreviver, empurrando-os para uma vida sem sentido algum. Moreira e Callou (2006) explicam que “a solidão é, nas sociedades contemporâneas ocidentais, consequência do modo individual de viver. Tais consequências, por sua vez, estão relacionadas a níveis de suporte social”.
A solidão contemporânea também pode ser compreendida à luz de outras análises. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2015) e Agonia do Eros (2017), argumenta que a sociedade do desempenho e da hiperconectividade não fortaleceu os vínculos humanos, mas intensificou a autoexploração, o narcisismo e o desaparecimento da alteridade, produzindo sujeitos cada vez mais isolados em sua incessante busca por reconhecimento. Bauman, em Amor Líquido (2004) e Comunidade (2003), demonstra que a fluidez das relações contemporâneas torna os laços afetivos frágeis, descartáveis e incapazes de oferecer pertencimento duradouro, alimentando sentimento de insegurança e desenraizamento. Na mesma direção, Sennett, em A Corrosão do Caráter (1999), evidencia que a flexibilização do trabalho e a crescente precarização das relações sociais enfraquecem a confiança, a cooperação e a construção de identidades coletivas. Sob essas perspectivas, a solidão deixa de ser apenas uma experiência existencial para revelar-se também como um fenômeno socialmente produzido. Ela é resultante de formas de organização econômica, cultural e tecnológica que transformam a convivência em competição, o outro em concorrente e a conexão em mera aparência de proximidade.
Não é trivial considerar a frustração de toda uma mocidade por estar aquém dos arquétipos de realização e beleza preconizados pela sociedade capitalista. Não parece elementar contemplar o abandono a que pessoas idosas estão condenadas quando desabrigadas em sua fragilidade existencial. O que dizer de adolescentes que se conectam em redes de internet, mas não tabulam diálogos afetuosos no próprio lar? Quanta gente amarga sozinha a falta de êxito profissional, o empobrecimento precoce. Cultivam o sentimento da falta, como a ausência de perspectiva de vida. Essa parece ser a parte que lhe cabe nesse latifúndio chamado vida. Rompem-se abruptamente vínculos de afeto, de atenção, de enternecimento. A sensibilidade é permutada pelo pragmatismo. A amabilidade pela vaidade. Suntuosos e mega empreendimentos imobiliários mais parecem cemitérios de gente enterrada no isolamento de suas vistosas moradias.
Como disse no início, “a solidão é fera”. Mas é possível combater essa fera. A doença da solidão, grave mal de nossa civilização, precisa ser combatida urgentemente. Porém, muito mais do que com medicação. Com política pública que considere de maneira transversal a convivialidade e o bem-estar em políticas já em curso. Trata-se de cuidar da pessoa, criar redes comunitárias de sustentação da vida e da dignidade. É necessário gerar toda uma engenharia da convivência, que vai muito além de parques públicos e áreas de convivência – sim, porque também eles são importantes. Escolas, bibliotecas, museus, igrejas, cinemas que funcionam como operadores de cuidado. Estratégias que ajudem a problematizar a vida, a colocar o indivíduo como primazia.
Finalmente, para os amigos que experimentam a dor da solidão e se sentem assustados pelos monstros do cotidiano, conclamo a não se conformarem com a utilização de drogas químicas que podem estabelecer o bem-estar fisiológico. No entanto, elas não tratam das mazelas do espírito nem cuidam dos atropelos psíquicos. Essa nefasta fragmentação de corpo e alma, psicológica, corpórea e espiritual, nos deita cada vez mais no lamaçal da existência. Precisamos aprender a meditar, a respirar, a não temer buscar ajuda de profissionais efetivamente habilitados para tanto. Afinal, não existe uma criatura que, em menor ou maior intensidade, não sofra. O pior remédio é o silêncio, o isolamento, a busca de subterfúgios. Tenham certeza, somos todos esses animais confusos tentando formatar uma lógica para a vida.