
Diante da obra Cabeça Sonhadora (1938), de John Armstrong, lembrei-me do primeiro sonho de que tenho memória. Ao olhar essa pintura, para além de uma obra de arte, reconheço um antigo habitante da minha própria paisagem interior.
Eu era criança e sonhava que um homem emergia lentamente da terra. À medida que surgia do chão, fazia, com as mãos, um gesto de dúvida, de interrogação. Na época, vivi esse sonho como um pesadelo. Lembro-me de acordar assustada.
No entanto, hoje, esse sonho já não me parece uma ameaça. Vejo-o como um convite: permanecer diante do mistério sem a urgência de decifrá-lo. Aprender a sustentar uma pergunta sem violentá-la com uma resposta antes do tempo.
Jung escreveu que um de seus sonhos foi compreendido por ele como uma “iniciação nos mistérios da terra”. A Cabeça Sonhadora me fez retornar ao meu sonho de infância e também a essa expressão.
Em latim, humus designa a terra, o solo. Da mesma família de palavras vêm humano (humanus) e humildade (humilitas). Os mistérios da terra, da psique e da própria condição humana me exigem humildade suficiente para permanecer diante do desconhecido. Também percebo isso nas perguntas mais importantes da minha vida. Sempre que tento respondê-las depressa demais, lembro-me de Rilke e de seu convite para amar as perguntas antes de apressar respostas que ainda não poderiam ser vividas.
Apressar uma resposta é como arrancar uma semente da terra para verificar se ela já criou raízes. Na tentativa de compreender cedo demais, interrompo um processo que ainda precisava ser cultivado e, quem sabe, sonhado.
Compreendo o sonhar como um trabalho da psique, uma possibilidade de transformar experiências emocionais em imagens que possam ser vividas, pensadas e simbolizadas. Será que a terra sonha? Não sei. Mas imagino que ela e a psique compartilham um mesmo ritmo. Como escreveu Bachelard, ambas ocultam e manifestam aquilo que lhes é confiado.
Sonhar uma pergunta, além de permanecer aberto ao mistério, pode ser uma maneira de entrar em diálogo com ela. À medida que a consciência se amplia, as perguntas também se transformam. A Cabeça Sonhadora me faz pensar nessa consciência que emerge lentamente do subterrâneo, mas não dissipa o enigma; contudo, amplia a nossa capacidade de habitá-lo.
Hoje penso que aquele homem não saía da terra para responder às minhas perguntas, mas para me ensinar a habitá-las. Desde então, sempre que sinto urgência por respostas, volto a esse sonho e me recordo da humildade necessária para oferecer hospitalidade ao mistério sem apressá-lo.
Mesmo quando nada parece acontecer na superfície, aprendi a confiar que as profundezas continuam trabalhando, até que um dia encontram uma imagem, uma palavra, um gesto ou um sonho capazes de lhes dar forma. Grande parte do que aprendi na clínica e na vida vem desse lugar.
Hoje já não espero ter todas as respostas, embora gostaria muito de tê-las. Mas tento cuidar das minhas perguntas como quem prepara um solo fértil e confia que, nas profundezas invisíveis da psique, a vida continua trabalhando. E, quando a ansiedade por compreender retorna, lembro-me de Clarice: “em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim”.
Até lá, escolho continuar semeando as perguntas. Quem sabe um dia elas também emerjam, lentamente, como aquele homem do meu sonho e, em vez de me oferecerem respostas, me encontrem diferente daquela que começou a perguntar.
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Caroline Cezimbra é psicóloga, especialista em psicoterapia de orientação analítica para crianças, adolescentes e adultos. Sua escrita nasce do encontro entre a clínica, a literatura e a escuta simbólica das imagens que atravessam a experiência humana. E-mail: cezimbracaroline@gmail.com