
Gabriel García Márquez tinha, sim, críticas ao governo de Israel, em especial por conta da Guerra no Líbano. Até se manifestou sobre isso em 1982. Mas mantinha contatos com políticos israelenses e nunca fez qualquer objeção ao direito de Israel existir, que é o limite entre o crítico politico e o canalha antissemita. De qualquer forma, o apreço de Gabo ao judaísmo e a Israel aparece em diversas passagens de “Cem anos de solidão”. Já se falou sobre a chegada dos Buendía a Macondo como sendo a travessia dos hebreus a Canaã e até do dilúvio que ocorre no fim do romance. Também se cita diretamente o “Judeu Errante”, culpado, perseguido, massacrado e morto por uma população incitada pelo padre da cidade (pela Igreja Católica) quando Macondo é castigada por um calor e um caos inclementes e, no mesmo momento, falece a matriarca Úrsula aos 120 anos (há aqui uma clara crítica ao antissemitismo). Tem ainda, indiretamente, a figura muito judaica e talmudista do sábio Melquíades com sua ciência e linguagem misteriosas, personagem que, veja bem, morre e renasce várias vezes. Também se mostra um trem da morte com grevistas assassinados semelhante aos trens da morte no nazismo. E não se pode deixar de registrar os nomes que se repetem gerações após gerações (algo muito judaico), assim como as tragédias e a vida.
(ressalva: essas relações, nenhuma delas explícita, aparecem sob a aí sim manifesta inspiração de Gabo na sua cidade, Arataca, e na história da Colômbia)
Mas tem uma figura em especial que me parece extremamente judaica: a de Rebeca, a menina órfã de nome hebraico (significa “a que une”) que chega a Macondo como uma errante, se caracteriza por comer terra e perpassa todo o romance como alguém misterioso e oculto, que sofre de insônia e esquecimento, forçando a população a registrar os nomes das coisas e ler para sempre lembrar. É curioso que a Rebeca de Gabo seja a menina que se alimenta da terra, e a Rebeca da Torá é a mãe de Jacob, sendo Jacob o pai das 12 tribos de Israel. Aliás, o nome do hotel em Macondo é, justamente, Jacob.
Seria tudo isso obra do acaso?
Enfim, a terra…
Falemos das duas Rebecas para entendermos o simbolismo judaico que até surpreende por na verdade nem ser assim tão oculto, sem deixar de lado o que talvez seja o mais óbvio dos sinais. O nome “Cem anos de solidão”, de obra ambientada em uma terra que foi o refúgio dos Buendía (José Arcadio e Úrsula, o patriarca e a matriarca, eram primos como eram primos o patriarca hebreu Isaac e a matriarca hebréia Rebeca…) tem muito a ver com os judeus e Israel. O que pode ser mais solitário que a perseguição, a segregação e a incompreensão?
Às Rebecas, então:
A Rebeca de “Cem anos de solidão” é uma menina órfã que chega a Maconco vinda de Manaure, carregando os ossos dos pais. É adotada por José Arcadio e Úrsula. Passa a fazer parte da família Buendia. Casa-se com o primogênito (também José Arcadio, seu irmão adotivo) e, ao criar raízes, atenua o hábito de comer terra. Quando José Arcadio morre, recolhe-se e vive sozinha até falecer. É todo um símbolo de pertencimento à terra, fidelidade e isolamento diante do hostil.
A Rebeca da Torá é esposa do patriarca Isaac e mãe dos gêmeos Esaú e Jacob, sendo Jacob o terceiro patriarca (depois de Abraão, seu avô, e Isaac, seu pai) e mudando o nome para Israel. Sim, o nome de “Eretz (Terra) Israel”. A terra onde seus netos estabeleceram o lar dos judeus. Deixou Harán, onde vivia com a família, para morar com o marido Isaac. E foi a partir dessa união que o povo judeu começou sua trajetória, com os descendentes dela e de Jacob liderando as 12 tribos.
A terra, sempre a terra.
Outra curiosidade que basta a leitura atenta pra percebermos que traz coincidências enormes é que, depois do dilúvio de quatro anos, 11 meses e dois dias e da morte de Úrsula, o filhinho proibido, o derradeiro da linhagem Buendía, também ele registrado como Aureliano Buendía, decifra os manuscritos de Melquíades e descobre que seu pai era Mauricio Babilonia. Ou seja, o verdadeiro sobrenome do “Moishe” era Babilônia. E existem dois Talmud, o de Jerusalém e o da Babilônia. Como diria o Roberto, veja bem, preste atenção, esta é a nossa canção.
Mauricio Babilonia se casa com a tia Amaranta Úrsula, e deles nasce o tão temido bebê com rabo de porco. Porco?! Sim, o animal que pela tradição judaica é impuro.
Gabo, tudo isso foi sem querer?
…
Uma das pessoas que mais sonhei entrevistar foi o Gabo, porque era genial, era jornalista e escrevia maravilhosamente, fazendo do realismo mágico a melhor de todas as narrativas da realidade. Se eu tivesse a chance, iria perguntar: “E a Rebeca, hein?” Porque acho que ninguém nunca perguntou. Pelo menos eu nunca li nada a respeito, e o simbolismo dessa menina que levava nome hebraico de união e se alimentava da terra me parece de uma clareza celeste ou até terrena.
Ah, em hebraico, Buen día é Boker tov.
Boker tov e shabat shalom!