
Quando menina, a história da Cinderela, de Charles Perrault, me inquietava mais que qualquer outra. Incomodava-me, é claro, todo o sofrimento da pobrezinha, mas o que me pegava era a raiva que sua madrasta e irmãs postiças sentiam, sem o mínimo controle e vergonha, por ela.
Eu não entendia e tinha dificuldade em acreditar que, entre mulheres, havia violência, principalmente, psicológica. Até hoje, por incrível que pareça, mesmo tendo trabalhado em um presídio feminino, agressões, de qualquer natureza, vindas de nós ou entre nós me confundem um pouco por uma série de razões, começando pelo fato de que as considero, na maior parte dos casos, uma forma de burrice. E as mulheres não são estúpidas como alguns homens dizem.
A mulher tem de viver dentro do Ensaio sobre a Cegueira para não ver que o Patriarcado, com seu P mais maiúsculo, promove rivalidades e divisões, oferecendo sua validação masculina como prêmio apenas às que o legitimam. Coisa que ofende barbaramente os meus neurônios. Se não tenho vocação para ser Maria vai com as outras, menos ainda tenho para ser Maria vai com os outros. Legitimar a opressão por eles praticada, a misoginia por eles alimentada e, o que considero mais chocante, tomar as dores que eles dizem que sentem não é para mim.
Não quero, com isso, dizer que os homens são insensíveis e à prova de lágrimas. É óbvio que são sensíveis e sentimentais, mas, como nós, mulheres, uns mais que outros. E outros bem pouco, provavelmente os que querem que absorvamos o machismo a ponto de nos tornarmos as vigilantes, as julgadoras e as punidoras umas das outras, tornando-nos, se for o caso, até uma amiga da onça.
Mulheres detonando suas iguais é o que não falta. O time da patrulha moral a serviço dos homens, então, é incansável. Ai daquela que romper com o código de submissão e inverter as regras do jogo! Ai daquela que se afastar de um Fulano a quem esse time protege, em geral porque dele se beneficia em seus negócios, em sua vida social ou até em suas neuroses ou psicoses. Um time de mulheres interesseiras, recalcadas e com uma espécie de predisposição — para não dizer com falta de senso crítico — para sabotar a reputação das demais, fofocando o que o Fulano teria dito sobre A, B ou C, como se coubesse a ele transformá-las nas vilãs, Madalenas ou Genis do momento.
Na Ópera do Malandro, do Chico Buarque, o que mais me chama a atenção na faixa Geni e o Zepelim, como na história da Cinderela, também não é o estado de sofrimento da personagem, mas a violência que a ronda e que se torna incontrolável depois de ela passar a noite com um tirano para salvar a vida dos habitantes da cidade. Gente que a trata bem enquanto dela precisa e passa a apedrejá-la, sem constrangimento, assim que o tirano os poupa.
Gente tirana à sua maneira. Tiranos não precisam estar à frente de um país. Tampouco precisam ser do gênero masculino. Um tirano pode ser uma mulher que, mesmo com poucos poderes, anda por aí, em meio a um papo furado de que pratica a sororidade, sendo, na verdade, injusta e mal-educada.
Todos os textos de Helena Terra estão AQUI.