
Sim, houve uma época, em minha vida intelectual, em que eu acreditei que, de negação em negação, de contradição em contradição, nossa sociedade terminaria por eliminar a opressão e a alienação, tudo acompanhado de elevados níveis de autoconsciência e de humanização. Depois, essa crença foi desabando e ainda guardo na memória o dia em que uma aluna (hoje professora de uma Universidade Federal) entrou em minha sala de trabalho e, lívida, me perguntou: “Professor, é verdade que o senhor não é materialista dialético?”. Senti-me o mais vil dos apóstatas! Não sei o que respondi para tranquilizá-la do fato de estar diante de um perigoso herege, mesmo que não pudesse simplesmente abjurar daquela heresia ideológica. Eu não era mais “materialista dialético”!
Mas, como disse, eu tinha sido. E a primeira vez que tive acesso ao conceito (e à filosofia da história que ela inspira) foi lendo o “manual” de marxismo – que todo mundo lera naquela época! – de Guy Besse e Maurice Caveing, “Princípios Fundamentais de Filosofia”, lá pelos meus 16 anos (pense num “manual” indigente filosoficamente! Mas era exatamente isso: um MANUAL, no próprio e no figurado: tinha todas as respostas ao “alcance da MÃO”!).
Mais tarde, comecei a perceber que a Dialética era uma metanarrativa: uma história que contamos, com início e fim, que prometia (sim, a dialética materialista, de Marx, ou idealista, de Hegel é uma promessa): que no fim(?) da história ou do desdobramento do espírito absoluto no tempo, alcançaremos a Liberdade, como autoconsciência ou como sociedade reconciliada. E, finalmente, estaríamos curados do GRANDE MAL SECULAR (GMS): a alienação! Foi ali que percebi o que Karl Löwith queria dizer com a frase “O marxismo é uma história da salvação em linguagem econômica!”.
Lendo a “Dialética Negativa” (Adorno), eu quase tive uma recaída: as sucessivas negações de cada “tese” não levariam — na sociedade de massas — a nenhuma “síntese superior”, ou a uma superação afirmativa do homem humanizado. Teríamos que permanecer no “momento” da negação.
E era tanta “negatividade” em Adorno (o proletariado absorvido pelo consumo, o tempo livre ocupado pelo entretenimento, a filosofia ceifada pelo neo-positivismo do Círculo de Viena, o movimento operário reduzido ao sindicalismo, o marxismo degenerado no stalinismo…), que ele terminou por ver a única salvação da “indústria cultural” (promotora de fascismo) na estética musical dodecafônica de Schönberg. Eu, hein!
Confesso que acreditava que cada formação social continha o “germe de sua própria desagregação”. Depois dei pra trás!
Até que apareceu Eduardo Bolsonaro.
Sua fuga para os EUA, os ataques às instituições nacionais, as articulações com potências estrangeiras (crime de lesa-pátria), visando livrar o papai de ver “o sol nascer quadrado”! Eduardo Bananinha (aliás, soube que ele está americanizando seu nome para não ser deportado, depois da condenação do STF: vai se chamar Edward Weenie (uma tradução livre de, digamos, “Pitoquinha”! Trump havia sugerido Edward Little Penis, mas ele recusou. Aliás, Trump é muito bom nessas coisas, como sabia o suicida Epstein). Com Dudu, digo Ed Weenie, eu voltei, milagrosamente, a acreditar na Dialética!
Primeira lição de dialética weenieana: A QUANTIDADE ALTERA A QUALIDADE. A quantidade de besteira, loucura, burrice e desfaçatez que ele e seu irmão, Flávio, pronunciam, altera definitivamente a “qualidade” de nossa extrema direita: deixa de ser projeto ideológico para se tornar “projeto ideotóxico”, até para os próprios bolsonaristas!
Segunda lição de dialética weenieana: O UNIVERSAL NÃO É A SOMA DOS PARTICULARES. Para tentar salvar seu pai (instância particular) da cadeia, ele tentou destruir a Nação (instância “universal”). Morra a totalidade, salve-se o particular!
Terceira lição: A NEGAÇÃO LEVA À SUPERAÇÃO DA SÍNTESE. Aqui ele se… superou (na burrice e na imprevidência política): se a TESE é Flávio Bolsonaro e a ANTÍTESE é Lula, na superação dialética de Ed Weenie (em certos meios cariocas, ele também é conhecido como o “Hegel de Rio das Pedras”), ele conseguiu elevar a popularidade de Lula, dividir o bolsonarismo e colocar Trump como o “outlaw” do sentimento de soberania. Aqui ficou claro para mim que cada realidade, cada conceito, cada projeto traz em si aquele “germe” desagregador.
Se eu havia abandonado a dialética como método e princípio da realidade, foi, contraditoriamente (como quer a Dialética!), com Ed Weenie que eu recuperei a fé perdida.
Os desígnios da Dialética são inescrutáveis!
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