
Os anciões japoneses acreditam que as palavras carregam alma e chamam isso de “kotodama”, de que as palavras que são ditas têm o poder de transformar a realidade. Então, se você disser palavras positivas, carregará energias positivas, criando a realidade desejada. O contrário, da mesma maneira. Isso tudo afeta, inclusive, sua saúde. Assim, “kotodama” dá o poder a cada pessoa de criar sua própria energia.
Quando tratamos de idadismo, ou etarismo, podemos dizer que o princípio do “kotodama” se faz sentir, já que a vida de quem sofre com o medo e/ou aversão de envelhecer, ou autoidadismo, pode ser encurtada em até 7 anos e meio, conforme estudo divulgado no Relatório Mundial do Idadismo da OMS, em 2022.
O idadismo, ou etarismo, é a estereotipagem, o preconceito e/ou a discriminação dirigidos a uma pessoa devido à sua idade. Ele afeta pessoas de todas as idades, mas seu impacto prejudicial costuma ser sentido com mais intensidade à medida que envelhecemos.
O quanto é disseminado
Pesquisa mais recente do Center for Ageing Better, da Inglaterra, sugere que o idadismo, ou etarismo, é generalizado no envelhecimento: quase dois terços (60%) das pessoas entrevistadas sofreram preconceito etário a partir dos 50 anos. Quase metade delas relata sofrer com isso pelo menos mensalmente, e um quarto sofre semanalmente.
Quase três quartos (72%) das pessoas disseram que seus próprios pensamentos relacionados à idade, ou expectativas, suposições ou julgamentos devido à sua idade, as impediram de fazer algo. A partir desses números, é possível concluir como o idadismo por parte de outras pessoas pode ser internalizado por nós e começar a impactar a forma como pensamos sobre nós mesmos ou sobre o que fazemos.
Ainda abordando os impactos sobre o idadismo, a pesquisa identificou que dois quintos das pessoas relataram ter sofrido discriminação institucional, afirmando terem recebido tratamento negativo por parte de uma organização por causa da sua idade, como a empresa onde trabalhavam.
Nessa pesquisa, um quinto (20%) das pessoas afirmou ter vivenciado as três formas de preconceito etário (autoidadismo, idadismo interpessoal e institucional) desde que completou 50 anos.
As maneiras como as pessoas vivenciam o idadismo
O idadismo, ou etarismo, comumente conectado com comentários degradantes e vexatórios sobre a velhice e pessoas idosas, também se manifesta de forma benevolente ou elogiosa. Frases como “Você está muito bem para a sua idade” ou “Ela/e é um/a vovó/ô super moderna/o” parecem elogios, mas escondem preconceito ao presumir que a deterioração física e mental é o estado natural e esperado do envelhecimento.
Na pesquisa conduzida pelo Center for Ageing Better, o idadismo é particularmente comum em comentários sobre a aparência: “você está bem para a sua idade” (55%) (mais frequente entre pessoas de 50 a 59 anos) ou “você não aparenta a sua idade” (46%) podem reforçar a ideia errada de que envelhecer é ruim ou que devemos nos envergonhar da nossa aparência se ela não estiver de acordo com um determinado ideal.
Os entrevistados afirmaram que o idadismo se manifesta nas suposições que os outros fazem sobre nós, de que não podemos fazer algo (51%) ou de que fazemos ou não queremos fazer algo por causa da nossa idade (40%), em afirmações como, por exemplo: “Você ainda dirige?”.
Sentir-se desconsiderado foi um tema recorrente nas experiências relatadas pelas pessoas – por exemplo, serem interrompidas (39%), não serem ouvidas (39%), não terem sua opinião solicitada (28%) ou terem sua contribuição desvalorizada (36%).
Esses são apenas alguns exemplos de como as pessoas dizem ter sido tratadas negativamente à medida que envelhecem. Infelizmente, esses exemplos são comuns e corriqueiros, e muitas vezes são descartados como se fizessem parte do processo de envelhecimento. Mas não fazem. São casos de idadismo.
Proibido ousar a partir dos 40?
De acordo com uma outra pesquisa contra o idadismo, Age Without Limits, os entrevistados declararam que “as pessoas deixam de ter boa aparência usando as últimas tendências da moda e deixam de ser vistas como contratações desejáveis pelos empregadores quando chegam aos 55 anos”.
A maioria do público, cerca de dois terços das quatro mil pessoas entrevistadas, acredita que a idade média em que alguém deixa de ficar bem usando as últimas tendências da moda é 56 anos. Mas uma em cada dez pessoas acha que as pessoas deixam de ficar bem usando as últimas tendências da moda aos 40 anos!
Como canta Caetano, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Então, possuindo essa imagem negativa sobre o envelhecimento introjetado, o mais provável é que, a partir dos 40, 50, 55, a pessoa já não se ache suficientemente autoconfiante para usar as roupas diferentes que usaria em outros tempos, ou procure o trabalho dos sonhos, pois sua autoestima estará prejudicada pelo idadismo.
É certo que nem toda pessoa 40+ vai querer usar as tendências da moda. Plenamente aceitável que, entre a diversidade humana, haja aqueles que prefiram outro estilo de roupa. E tudo bem. Cada um sabe o que é melhor pra si. Mas daí a rotular e determinar o que cabe ou não para cada idade é um absurdo, concorda?
Nessa linha, outro tipo de idadismo que existe é sobre atividades “de velho”. Assim, fazer crochê, tricô, tomar chá, jogar cartas são usualmente tachadas como coisa de gente velha, enquanto que surfe, skate, brincar o Carnaval são percebidas como de gente jovem. De novo, estereótipos de onde nascem preconceitos e criam discriminações idadistas.
Está mais do que na hora de quebrar muros entre as diferentes idades. Acredito que temos mais semelhanças a encontrar entre as gerações do que imaginamos, e muito a compartilhar com as nossas experiências.
Envelhecer traz seus desafios. Ser tratado negativamente por causa da idade nunca deveria ser um deles.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.