
Já se abriu – e se abrirá muito mais depois da Copa do Mundo – o debate eleitoral.
Vou tentar me esquivar desse assunto, porque sou um incompreendido. Mas aproveito este espaço para, desde já, deixar clara a minha posição a respeito.
Vão falar sobre vários temas centrais, e eu estarei preocupado com algo que para mim é central, mas para a maioria das outras pessoas é periférico. Virá alguém do meu próprio campo ideológico com o discurso segundo o qual o antissemitismo configurado pelo ódio a Israel não é um assunto doméstico e que, por isso, deve ser deixado de lado. Não, não vou brigar, mas me permitam dizer que esse raciocínio é obtuso e inclusive ingênuo, podendo, em alguns casos, ser pusilânime, quando o cara o usa como álibi para se alinhar a quem o odeia e ficar de bem com a turma “descolada”. O antissemitismo me é doméstico e central aqui, ali e em todos os lugares, da eleição de síndico à de presidente da República. Onde houver antissemitas das mais variadas roupagens, na figura do próprio candidato ou das pessoas que o cercam, eu jamais darei o meu voto.
“Ah, mas as eleições são sobre as questões do prédio”, “Ah, mas as eleições são sobre as ruas da cidade”, “Ah, mas o Estado precisa priorizar o público em detrimento do privado”, “Ah, mas as eleições são sobre a linha econômica do governo, que pode ser mais privatista ou coletiva”. Sim, tenho claríssimas visões e convicções a respeito desses assuntos. Trata-se daquilo que chamamos de “ideologia”. Mas, no meu caso, com a devida vênia, devo dizer que a identidade está muito à frente na ordem das prioridades. Comigo, não!
Quero um prédio bem administrado, quero uma cidade de ruas limpas, inclusivas e seguras, quero um Estado que priorize a coletividade e quero um país que cresça necessariamente com justiça social, porque de nada vale crescer para poucos. Mas também de nada valem essas defesas se quem (supostamente) as implementa me odeia, seja como indivíduo ou como integrante de um coletivo. De nada valem se quem estiver no poder endossa o meu aniquilamento (no sentido particular de eu não estar confortável na minha identidade étnica ou no geral da demonização do Estado judeu, a conquista mais que legitimamente comprovada, moral e historicamente, do povo mais perseguido e segregado da história humana, ao lado dos africanos, sendo o Holocausto e a escravidão os seus ápices).
Logo, não contem comigo nem para debates, nem para apoios, nem para manifestações e, sobretudo, nem para o tão cobiçado voto.
Enquanto não digam claramente que não são contra mim, quero distância. Não me importo que sejam a favor do outro, mas digam que também são a favor do meu. Devo, inclusive, esclarecer que sou a favor do meu, evidentemente, sem deixar de ser solidário com o outro, se restam dúvidas.
Quem gritar claramente “‘Palestina livre’ e Israel segura”, seja com vírgula ou conjunção aditiva (“e”), possivelmente ganhe a minha simpatia.
Basta esse sinal. Aí podemos conversar.
Mas o sinal é essencial, é central, sua ausência é eliminatória.
Enquanto não puxarem a necessária vírgula ou conjunção aditiva, complementando o slogan “Palestina livre” com o esquecido ou ignorado “Israel segura”, na visão inequívoca de dois Estados em paz e mútuo reconhecimento, não só quero distância. Dedico-lhes minha repulsa.
Tentarei ficar à margem, mesmo que um dos lados me represente ideologicamente, porque, sim, há poucas coisas que transformam a mim, um convicto moderado, num radical. E uma delas é a defesa identitária, sendo a minha própria, naturalmente, a que mais me mobiliza.
Você dirá que de um lado há ignorantes que rejeitam a ciência, se opõem à vacina, depreciam as minorias e suas lutas e falam seriamente que a Terra é plana. E eu respondo que não vejo diferença desses caras em relação a quem empunha bandeira de grupo terrorista e obscurantista, defende aiatolás (os seres mais reacionários do planeta) com seu medievalismo violento, intolerante e abusivo, e rejeita a autodeterminação do meu tão sofrido povo.
Passei a eleição de 2022 gritando contra o gado. E assim continuo, com extrema coerência, uma coerência que possivelmente você não tenha.
Seja contra o gado destro ou contra o gado canhoto.
(obs: faço ressalvas e pontuo diferenças. Um terraplanista é bizarro; um defensor de aiatolás é irresponsável. O primeiro é adversário ideológico e de literal visão do mundo; o outro é inimigo com quem não convivo sob nenhuma hipótese e muito menos elejo)
…
Segue o texto lapidar do advogado Rony Vainzof, que não me traz novidades, mas está muito bem escrito e com bastante didatismo, o que é importantíssimo quando precisamos esclarecer as pessoas, em especial as não judias. Ele estabelece claramente a diferença entre a crítica política (sadia) e o antissemitismo (nefasto por definição). E gostei muito que ele citou o Caso Ellwanger, que cobri com muita atenção e dedicação pela Folha de S. Paulo (leia AQUI) e sobre o qual escrevi depois, inclusive em dois livros (“Uma estrela no Pampa” e “A Cronologia do Alef Bet”). A decisão no Caso Ellwanger deveria ser lapidar e definitiva sobre o suposto conflito entre liberdade de expressão e crime de ódio. As diferenças são abismais.
Aqui vai:
“Há um sinal silencioso de deterioração democrática. No Brasil e no mundo, judeus evitam expor símbolos, mencionar Israel ou simplesmente expressar sua identidade. É medo, baseado em agressões reais, o que representa grave falha da própria democracia, e não um problema comunitário.
Praticar, induzir ou incitar discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional é crime, agravado no ambiente digital. A liberdade de expressão protege a crítica, inclusive as políticas de governos estrangeiros. Questionar Israel, suas ações militares, políticas de ocupação, suas decisões de governo, é direito assegurado, da mesma forma que qualquer outro país pode ser contestado no debate público. Tais discussões ocorrem ferozmente mesmo em Israel, única democracia do Oriente Médio.
O limite é ultrapassado quando a crítica deixa de ser política e passa a atacar a própria existência de um povo ou o direito de um país existir. Quando símbolos nazistas são banalizados, quandoo Holocausto é instrumentalizado ou quando se nega ao judeu o direito à autodeterminação, não se trata mais de liberdade de expressão, e sim de discriminação.
A comparação entre Israel e o nazismo ilustra esse desvio com precisão. Distorce a História e inverte papéis, transformando vítimas em algozes. O regime de Adolf Hitler tinha como objetivo o genocidio dos judeus, com escala e métodos historicamente singulares.
Os conflitos atuais, embora com trágicas vítimas civis, têm como objetivo neutralizar terroristas e envolvem a defesa contra quem busca a sua aniquilação. Projetar sobre o Estado judeu a imagem do mal absoluto é violência moral e configura antissemitismo.
O mesmo raciocínio se aplica quando se nega a autodeterminação judaica. Assim como qualquer povo, os judeus têm direito a um Estado, princípio reconhecido internacionalmente.
Questionar exclusivamente esse direito configura padrão duplo de discriminação.
O ódio se reinventa em linguagens envernizadas para tentar buscar legitimidade. Expressões como “Do rio ao mar” são antissemitas, pois carregam conotação de eliminação de Israel. Apoiar o Hamas, igualmente. Discriminar israelenses no Brasil com base em sua origem nacional é crime. Mas criticar ações militares ou o número de vítimas civis é legítimo e protegido pela liberdade de expressão.
O perigo cresce quando o conflito externo é importado para a política doméstica, gerando responsabilização coletiva de judeus brasileiros por decisões que não tomaram.
O Caso Ellwanger é um marco de delimitação desses limites. Negar ou banalizar o Holocausto configura crime, assim como pregar a restauração da doutrina nazista. A liberdade de expressão não protege manifestações que promovam ódio ou intolerância.
Dados da Conib sobre antissemitismo em 2025 reforçam a gravidade: 70,8% deles envolvem o antissionismo como vetor do discurso de ódio. No ambiente digital, foram quase 116 mil menções antissemitas, com alcance potencial de 66 milhões de pessoas. Em 2025, registraram-se quase três denúncias diárias, crescimento de 149% desde 2022, com subnotificação elevada (apenas 32,58% dos episódios são reportados).
Chamar esse cenário de “novo normal” é naturalizar o problema. É um alerta crítico.
A situação atual produz medo real e autocensura: judeus passam a temer que sua identidade seja motivo de ataques no trabaIho, nas universidades, nas escolas. O verdadeiro efeito de silenciamento não decorre da proteção jurídica contra o ódio, mas de sua normalização.
O mais nocivo não é a crítica, que deve ser livre e protegida, mas o avanço do antissemitismo travestido de discurso político. O antissemitismo é o termômetro da democracia.
Quando a minoria judaica é atacada, as demais também estão em risco. Sempre que um grupo é desumanizado, a sociedade regride.”
…
Shabat shalom!
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