
Saiu mais uma pesquisa sobre a eleição presidencial de outubro. Trato dela mais abaixo. Começo pela novidade que, afinal, aparece na campanha eleitoral deste ano: Ronaldo Caiado. Não, a novidade não é a candidatura. A novidade é que temos o primeiro candidato com cashback.
O presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse, num evento promovido por um banco, em São Paulo, que, se o candidato ungido por ele, Kassab, tiver 15% dos votos, “já tá ótimo”.
Pausa para recordação: Ronaldo Caiado foi candidato a presidente da República em 1989, apresentava-se montado num cavalo branco e ficou em 10º lugar com 0,72% dos votos.
Volto a este abril de 2026.
O PSD, como você sabe, tem ministros no governo Lula, tem senador que promete voto pela reeleição e até a seção baiana do partido diz que vai com Lula, lá para o Planalto, mais uma vez.
Em tudo quanto é eleição, tem partido que lança candidato e apoia o nome de outra legenda, geralmente, a que tem mais chance de chegar ou se manter no poder. Nossos partidos são assim: dizem uma coisa, fazem outra. Não é por acaso que não chega a 30% dos eleitores o número de pessoas que acreditam nos partidos.
Mas este ano o Kassab inovou. Anunciou – com meses de antecedência e como se fosse o dono dos votos que, eventualmente, serão dados ao Caiado – a intenção de investir os 15% num dos classificados ao segundo turno. Flexível como é Kassab, eu me permito imaginar que ele pode oferecer, de repente, 7,5% para cada um…
Aqui, copio e colo trecho de matéria de O Globo, com o presidente do PSD, na edição do dia sete deste mês:
– É muito importante para o Brasil essa (candidatura) alternativa (de Caiado), nem que fosse para perder. (…) Nós precisamos mostrar, para quem não quer isso, que tem a alternativa. Vão falar: “mas não vai para o segundo turno”. Bom, mas se não for para o segundo turno, e eu acho que pode ir, mas se tiver 15%, ótimo. São 15% que nós vamos chamar alguém, porque essa alternativa ela é séria, e falar: “Ah, nós vamos apoiar porque nós queremos isso, isso, isso” – afirmou Kassab.
Quer dizer, é o apoio com cashback: o candidato escolhido por Kassb recebe 15% no dia 25 de outubro. Kassab investe esses 15% num dos que foram ao segundo turno. Vitorioso, o escolhido para o investimento devolve os 15% ao PSD em cargos no governo no dia 1º de janeiro de 2027.
Mas, não duvidem, se forem aparecendo indicações de decisão no primeiro turno, Kassab antecipa a proposta…
Caiado reagiu ao que disse o presidente do partido e pai da candidatura dele e garante que vai ao segundo turno para ganhar a eleição. Kassab não é bobo. Ele sabe que Lula está no segundo turno. É só olhar as pesquisas recentes e os resultados de eleições passadas.
O atual presidente da República (não me agrada muito o termo incumbente) já disputou, diretamente, seis eleições. Perdeu três. Apenas em uma delas teve, no primeiro turno, menos de 30% dos votos. Contra Collor, em 1989, Lula teve, na primeira rodada, disputando votos com Brizola, Mário Covas e outros candidatos alinhados à esquerda e ao centro, 17,9% dos votos. No segundo turno, somou mais de 44%.
Perdeu duas para Fernando Henrique e, nas duas, teve apoio de mais de 30% das eleitoras e eleitores.
Os mais petistas, ou lulistas, podem dizer que Luiz Inácio conquistou cinco vezes a Presidência da República. Três, pessoalmente, e duas por interposta pessoa.
Dilma Rousseff, candidata dele, ganhou duas vezes. Em nenhuma delas teve menos de 40% da preferência do eleitorado. Em 2018, Fernando Haddad, indicado candidato porque Lula estava preso, perdeu para Bolsonaro na espuma da Lava Jato, mas, por pouco, não manteve a marca dos 30%. Alcançou 29,28%. No segundo turno, subiu o sarrafo para mais de 44%. Lula voltou em 2022 e, recém-saído da cadeia, ganhou outra vez.
Agora, aí estão as pesquisas apontando desconfiança e queixas fortes da opinião pública contra Lula e o governo dele. É provável que esses indicadores negativos estejam alimentando a mais recente especulação: Lula pode desistir da disputa.
Não vou avaliar se o governo é bom ou ruim, se erra na economia, se precisa fazer mais na segurança… Mas deixo algumas questões:
A pesquisa do fim da semana – publicada no sábado, 11 de abril — mostra Lula, apesar de todas as críticas e desconfianças do público, à frente no primeiro turno, com 39% contra 35% do candidato Bolsonaro. Os outros candidatos à direita não passam de 5% (Caiado e Romeu Zema empatados).
No segundo turno, pela primeira vez, Flávio Bolsonaro passa, numericamente, de Lula (46% a 45%) e empata na margem de erro.
Mais dois motivos que me fazem duvidar dessa possibilidade de Lula desistir da eleição. Um: na indicação espontânea de voto, quando o pesquisador não mostra um cartão com os nomes dos candidatos, a citação de Lula (26%) supera os votos em Flávio (16%) somados aos de Caiado (2%), Zema (2%) e outros candidatos (5%). A eleição acaba no primeiro turno se um candidato tiver mais votos que a soma dos votos dos adversários.
Outro: em pesquisa recente perguntaram aos eleitores se eles ainda podem mudar o voto. Mais de 60% dos eleitores de Flávio Bolsonaro dizem que podem mudar… Entre os lulistas, não passam de 26% os que ainda podem escolher outro candidato.
A campanha vai começar. Lula corre solto na pista da esquerda, ocupando algum espaço no centro e, apesar dos pesares, tem uma história para contar e resultados positivos para mostrar.
O Bolsonaro candidato disputa espaço na sombra do pai, que o indicou para a disputa com, pelo menos, outros três candidatos: Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, com pretensões de chegar ao segundo turno. Eles vão ficar se empurrando uns aos outros. Caiado já disse que Flávio Bolsonaro não tem experiência para ser presidente da República; Zema se apresenta como um bolsonarista civilizado. Flávio só tem a história do pai, que desagrada muita gente, para contar e, ainda por cima, terá que justificar o que muitos chamam de submissão aos Estados Unidos.
Nos debates e nos comerciais e programas de TV e rádio, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e quetais, além de criticar Lula, vão se atracar uns aos outros para ver quem ocupa mais espaço na sombra do Messias… e ganha a bênção de dona Michelle…
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