
Mudamos de casa: eu, Luigi, Sol e Lupo. Caixas com livros e decorações, sacolas recheadas de utensílios domésticos, malas de viagem cheias de roupas e sapatos, alguns poucos móveis, nossa máquina de lavar roupas (meu xodó)… enfim, tudo o que acumulamos em quatro anos vivendo em Portugal foi carregado de um lugar ao outro em nosso carro compacto. Depois de mais de uma semana entre casas, organizado o completo caos que reinou entre ambas, nos instalamos, ainda em adaptação. Estava, então, na cozinha, fazendo hummus (pasta de grão-de-bico típica da culinária árabe), utilizando o que aqui em Portugal é chamado oficialmente de varinha mágica (adoro esse nome, me sinto uma fada preparando poções), quando quase sofri um grave acidente e tive os lábios dilacerados pela tal varinha – que nada mais é do que um mixer, espécie de liquidificador móvel.
Foi mesmo um segundo de distração, que poderia ter mudado o rumo da minha existência. Após o ocorrido, eu tremi e encarei o absoluto nada por meia hora, enquanto Luigi, chocado com a minha falta de senso, repetia expressões de indignação.
Trago esta pequena história para ilustrar a reflexão que essa quase-fatalidade me trouxe: como as microdecisões que tomamos ao longo do dia podem transformar a nossa vida. Com a missão autoimposta de ver se estava faltando tahine ou, por acaso, limão, resolvi experimentar o hummus na própria lâmina da varinha mágica, ao invés de “perder” cinco segundos alcançando uma colher. Somou-se a isso o fato de o mixer ser da casa nova, logo, diferente do qual estou habituada. E então, sem querer, ao segurar o suporte, apertei o botão de ligar no momento em que estava com a lâmina na boca. Até agora não sei como saí ilesa dessa situação. Mas, caso o cenário fosse outro, e a lâmina estivesse milímetros mais perto dos meus lábios, eu não estaria aqui sentada na mesa escrevendo esse texto, e sim, no hospital, muito provavelmente em cirurgia, vislumbrando um futuro bastante distinto.
Cada microdecisão que tomamos, muitas vezes inconscientes, é um portal para novas possibilidades, que colapsa gerando o que chamamos de realidade. Não só as nossas próprias escolhas, mas também as de quem está ao nosso redor. Isso não é nenhum conceito inovador, mas é preciso uma quase tragédia, consequência de meus atos, para que essa questão saia das sombras e se torne objeto de reflexão.
O conceito de impermanência, central no budismo, e abordado por diversas correntes filosóficas – desde Heráclito ao estoicismo – afirma que todas as coisas, físicas ou mentais, estão em constante mudança, transitoriedade e fluxo. Aceitar esta natureza inconstante da vida é essencial para nos depararmos com menos sofrimento, e concluo que deve ser por isso que sofro tanto: sou muito apegada às pessoas ao meu redor e também, devo confessar, a mim mesma (não tenho medo de morrer, mas tenho medo de me tornar alguém muito diferente).
Em cada escolha pequena e esquecível, nossa realidade está constantemente se refazendo, e nós, constantemente nos tornando quem é suposto sermos. E o que somos hoje é o acúmulo de tudo que decidimos quase sem perceber, entre as infinitas possibilidades existentes, conhecidas ou não, ao longo de toda a nossa vida.
O apego às pessoas que amo e à versão de mim que existe enquanto escrevo isso talvez seja a resposta mais humana a essa vertigem. Se tudo muda, faz (e não faz) sentido querer segurar. Mas a varinha mágica me lembrou, de forma bastante literal, que segurar com força demais também tem seus riscos.
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