
No último churrasco em família, conversamos muito sobre genética. Meu irmão, Filipe, demonstrava uma certa paz em se autoperceber tão parecido com meu pai; não só a semelhança física, que é impressionante: a barba, o cabelo (ou a falta dele), a postura. Mas também o jeito de ser, de estar no mundo. Eu me enxergo em ambos e vejo muito do meu pai no meu irmão, apesar de também perceber as inúmeras diferenças entre eles. É estranho como somos tão similares e, ainda assim, tão distintos. Também sou muito semelhante à minha tia Lúcia, irmã do meu pai, mais do que com ele próprio: a inclinação a uma boa festa, a força de leoa e o sorriso constante estampado no rosto.
Não tenho minha mãe por perto desde os oito anos. Mais de vinte e cinco anos sem a presença dela. E, mesmo assim, todo mundo que me vê e que a conhecia fala como somos parecidas, e não só fisicamente — o formato do rosto, do corpo, dos olhos, do sorriso. Do meu pai, só tenho as cores dos olhos (cor-de-mel) e cabelos (loiros-acinzentados).
Ano passado, fui visitar minha avó em Juiz de Fora e encontramos um amigo da família em uma pizzaria. Quando meu tio me apresentou a ele, o homem ficou impressionado e disse que até o meu jeito era igual ao da minha mãe. O que é espantoso. Não cresci com ela para imitá-la, nem mesmo de forma inconsciente. Não aprendi seus gestos observando-a todas as manhãs, não absorvi seu tom de voz ao longo dos anos. E, mesmo assim, ela está em mim.
Isso me faz pensar: o quanto somos, de fato, autores de nós mesmos?
A ciência chama de epigenética o estudo de como experiências e comportamentos podem influenciar a forma como os genes se expressam e, mais interessante ainda, como essas marcas podem ser transmitidas entre gerações. Ou seja, não herdamos apenas a cor dos olhos ou a predisposição a certas doenças. Herdamos também padrões. Medos. Formas de amar. Reações que surgem antes mesmo de pensarmos.
Eu, meu pai e meu irmão somos tímidos e socialmente peculiares, apesar de as pessoas, no geral, nos aceitarem bem. Temos uma certa arrogância, que suspeito ser uma forma de proteção. Somos extremamente generosos, bem-humorados e pouco belicosos. Mas cada um à sua maneira: sou mais explosiva, como meu pai, enquanto meu irmão tende a guardar os desafetos para si.
Com minha mãe, compartilho a paixão por astronomia e a facilidade em aprender línguas. Ela me inspira até hoje, com toda a sua sofisticação que ficou impressa nas centenas de fotografias que guardo com muito carinho (o primeiro objeto que eu salvaria em um incêndio seria a minha caixa de fotos), e isso sem que eu tenha tido muito tempo para absorvê-la. Parte dela já estava em mim antes mesmo de eu saber direito quem ela era, quem era eu.
Então, o que, naquilo que chamo de “eu”, é realmente meu? O que moldei e o que simplesmente já estava dentro de mim?
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