
Guardadas as devidas e enormes diferenças entre nós, pensei em começar contando essa história como Machado de Assis, em “A Missa do Galo”. Certo conteúdo de encontro e desencontro erótico em comum o permitiria. Mas não sou Machado nem a história aconteceu comigo, o que dificultaria uma narração em primeira pessoa.
Quer dizer: não aconteceu, mas aconteceu. Se o protagonista era outro, eu fui o seu ouvinte e confidente; logo, as razões de não contar na pele dele se devem mais às minhas deficiências narrativas literárias. Quanto ao nome do sujeito, claro que vou omitir e, se estou publicando o texto, é porque ele me deu a devida autorização.
Vamos aos fatos: eu estava para atender o último paciente do dia, quando começaram a entrar sucessivas mensagens de um amigo, dizendo que era urgente. Como estávamos em fase de contarmos com pais bastante idosos, imaginei que pudesse ser algo com os pais dele. Avisei que ligaria imediatamente depois da consulta, e foi o que eu fiz.
Finda a consulta, ele me contou que tinha acontecido algo terrível e que precisava me contar ainda naquela noite. Como já fosse meio tarde e eu estivesse muito cansado, perguntei se era caso de vida ou morte e, caso contrário, se não poderíamos deixar a conversa para o dia seguinte. Naquele momento, ele me disse que talvez tivesse escolhido a pessoa errada, no caso eu, um amigo sem o senso de amizade e de urgência.
Senti tanta vergonha da minha falha afetiva que disse estar indo para o restaurante naquele exato momento. Eu o encontrei com a face amarfanhada, os olhos esbugalhados e, agora, lamento não ser Machado para escolher adjetivos melhores a fim de descrever um dos rostos mais desesperados que encontrei na vida.
E, como não comêssemos e sequer pedíssemos os pratos para um garçom que, com senso de amizade e urgência, não nos pressionasse nem um pouco, pude ficar bastante tempo quieto ao lado dele, como um bom poeta já recomendou para os amigos verdadeiros. Depois de um longo e sofrido silêncio, ele desabafou, numa frase curta e sincopada:
– E-la des-co-briu.
Foi então que eu mesmo interrompi o novo e prolongado silêncio:
– Ela quem? Descobriu o quê?
Desde aquelas duas perguntas, o diálogo destrancou um pouco, e eu o conto alternando discurso direto e indireto como forma de honrar Machado.
– Ela descobriu que eu tenho uma amante.
– Mas você nunca me disse que tinha uma amante… E nem parecia ter…
– Pois é. Eu tenho. E não tenho.
– Ela descobriu como?
– Eu falo dormindo.
Como achei impossível que alguém tivesse e não tivesse ao mesmo tempo uma amante, busquei novos esclarecimentos. Ele me contou, então, que tinha uma amante imaginária. Achei aquilo estranhíssimo, até mesmo inédito. Eu já tinha ouvido falar em amigo imaginário, mas isso costuma acontecer com pessoas bem mais jovens do que nós e, inclusive, aconteceu comigo. Mas amante imaginária?
– Sim, isso mesmo. Amante imaginária.
Antes de saber mais detalhes, tentei apelar para as minhas experiências de psicanalista e leitor. Na pele do primeiro, evoquei o Pequeno Hans, criança atendida por Freud, e a sua célebre frase de que pensar não é o mesmo que fazer. Depois, na pele de leitor, evoquei Anne Frank, que disse sobre as palavras algo mais ou menos parecido. Ele comentou que aquilo não lhe ajudava em nada, porque a mulher não estava nem aí para a psicanálise e, se evocasse Anne Frank, estaria bulindo numa ferida histórica. Com que direito?
Achei melhor parar de comentar e pude continuar ouvindo que ele estava sofrendo muito. Nesse momento, revesti a pele do analista e pedi para ele falar mais sobre isso. Se estavam separados. Se queria vir para minha casa. Se, se, se. Foi quando disse que ele e a mulher já estavam reconciliados, momento em que evitei comentar que ela agiu como o Pequeno Hans ou Anne Frank. Em seguida, ele me disse que não estava sendo fácil e continuou:
– Não pensa que é porque abri mão de minha amante perfeita.
– Perfeita?
– Sim, perfeita: não cobrava, não reclamava. Ela me deixava ver até os jogos da série B e vinha, com aquele corpo que era uma mistura de Gisele Bündchen e Juliana Paes, perguntar se eu estava precisando de alguma coisa.
– Puxa, não deve ter sido fácil abrir mão de alguém assim.
– O mais difícil não foi isso. Eu já estava me acostumando com a ideia de parar de imaginar. E, quando a mulher descobriu tudo, eu olhei para ela profundamente e tive um arrepio de emoção com cada um de seus defeitos. Vibrei com aquele corpo humano que eu conhecia tão bem, há tantos anos, e com aquela sensibilidade de que, dessa sim, eu jamais poderia abrir mão.
– E?
– E falei para ela, que me perdoou.
– Pois então, onde estão o drama e a urgência?
– É que ela me perdoou sem me olhar nos olhos e, desde então, eu a vejo permanentemente com um olhar curvo e desviado e…
Nessa hora, parei de escutar, invejando o amigo. Por mais que ele não fosse um Machado de Assis, era capaz de descrever um olhar melhor do que eu. Mas sou um psicanalista e não há adjetivo vago que paralise meu pensamento, evitando a próxima pergunta:
– Para onde você acha que ela está olhando?
– Não há dúvida. Ela está olhando para o seu amante imaginário. Imagino um homem que nunca perderia tempo com jogos nem da série A. E, com aquele corpo que é uma mistura de George Clooney com Rodrigo Santoro, pergunta para ela se está precisando de alguma coisa. Eu te digo, amigo, está insuportável.
E, como eu não tivesse mais nada para dizer, chamei o garçom e pedi dois à la minutas bem pegados. Com cachaça.