
Talvez vocês aí, pessoas normais, não estejam familiarizadas, mas há toda uma gama específica e muito peculiar de debates surgidos na esteira do sucesso da série ainda inacabada A Canção de Gelo e Fogo, escrita por George R.R. Martin, e de todo o material colateral que o autor já publicou sobre o universo em que a narrativa se passa, em especial O Cavaleiro dos Sete Reinos e Fogo e Sangue – e, assim como A Canção… foi transformada na série de TV Game of Thrones, as narrativas correlatas também vêm sendo adaptadas em programas de maior ou menor sucesso.
Embora imbuída de um certo espírito “realista” que se traduz no fato de que, no mundo brutal da série, erros de cálculo cometidos pelos personagens costumam ser punidos com a morte, A Canção de Gelo e Fogo ainda é uma fantasia medieval, portanto, elementos fantásticos ocupam posição importante em seu pano de fundo. Talvez o principal deles seja a existência de dragões, bestas cuspidoras de fogo que são cavalgadas como montarias pela dinastia dos Targaryen, reis de uma linhagem estrangeira que asseguraram seu poder em Westeros pela força bruta – o que se torna fácil quando você tem um exército alado. Quando a história da série principal começa, os dragões há muito tempo são considerados extintos, depois da sanha destruidora com que uma guerra civil entre dois pretendentes ao trono levou à morte de milhares de pessoas e de muitos dos dragões – essa história prévia vem sendo contada há três temporadas na série A Casa do Dragão.
Dragões
Bom, como eu dizia, a existência de dragões nesse mundo provoca, neste nosso universo fora das páginas e das telas, um tipo de discussão deveras específica e de uma inutilidade fascinante, ainda que movida por amplos esforços de imaginação. Fiéis ao espírito dos livros de Martin de casar amplas seções “realistas” com elementos fantásticos em segundo plano, integrantes do fandom da série se entregam a uma discussão pesada sobre o que os dragões teriam provocado em termos sociológicos e econômicos. E, em uma das discussões mais acirradas da coisa toda: como funcionaria a biologia de um dragão, e se a sua existência de fato seria possível num universo semelhante ao do nosso passado medieval.
Por exemplo, pegando o período histórico de Westeros apresentado no livro Fogo e Sangue e na série que o adapta, A Casa do Dragão – um momento em que o poder imperial dos Targaryen está vinculado ao grande número de dragões ainda existentes, mas há no ar sinais de problemas: as bestas aladas não se reproduzem mais como antes e as novas gerações, quando adultas, alcançam tamanhos significativamente menores do que os gigantes veteranos Balerion e Vhagar (esta última tem destaque na série de TV). Essa decadência física progressiva dos dragões demarca, nos livros de Martin, que a magia está abandonando o mundo que ele criou – uma noção que não é inédita em clássicos da fantasia e está presente mesmo em livros que tocam as fronteiras do romance histórico, como As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.
Imaginar as consequências “realistas” desse grande número de dragões circulando por aí levanta perguntas especulativas interessantes. Para começar, Westeros, sendo um cenário estabelecido em um mundo em que as regras físicas são aplicadas de modo errático (o ponto mais evidente é o fato de invernos e verões não terem uma duração padronizada, podendo se estender por anos de cada vez), obedeceria às leis da biologia evolutiva como as conhecemos hoje? Em outras palavras, o mundo de A Casa do Dragão é resultado de milhões de anos de evolução, como os nossos, ou teve uma trajetória completamente diversa nesse campo?
Evolução
Partindo da hipótese de que em Westeros valem as leis da evolução, como decodificadas por Darwin, surgem outras perguntas: sendo os dragões parte de um processo evolutivo, teriam evoluído de que outra espécie ancestral? Seriam os dragões dinossauros sobreviventes por alguma espécie de linha evolutiva alternativa da megafauna ancestral? Seriam eles lagartos, o que poderia ser óbvio, não fosse o fato de que eles voam, o que os torna mais próximos das aves? Nos livros, sua aparência é descrita como a de uma enorme serpente, o que aponta ainda outra linha evolutiva possível. E cada pergunta dessas abre novos questionamentos que, levados ao extremo, podem ser usados até mesmo para sustentar a ideia de que ou não deveria haver dragões nesse mundo ou a existência deles representaria um desastre ecológico que teria levado o mundo de Martin ao colapso antes mesmo de suas intrigas palacianas?
Porque aí a parada começa a ficar séria e entram os nerds de verdade na discussão. Na narrativa de Game of Thrones, a princesa exilada Daenerys tem os últimos três dragões vivos do mundo. Existe farta discussão sobre como, a partir das descrições feitas por Martin do maior desses dragões, Drogon, qual seria o seu tamanho. E a principal conclusão é que, embora seja um indivíduo de profícua imaginação, Martin é meio confuso em imaginar coisas no mundo real. Drogon é apresentado como tendo asas que “atingem vinte pés de comprimento de uma ponta a outra”. A frase é ambígua porque Martin não usa a palavra mais específica “envergadura”, que representa a distância entre a ponta de uma asa e a outra, podendo, com alguma boa-vontade, significar que cada asa tem 20 pés de comprimento (algo em torno de seis metros, portanto, envergadura de 12 metros). Só que Martin também descreve em seus livros que os dragões são bichos com asas três vezes o tamanho do corpo – assim, Drogon teria no máximo uns dois metros de comprimento e olhe lá.
Para a TV, essas proporções foram alteradas. A certa altura, os dragões são mostrados, em cenas muito interessantes, basicamente como aviões de combate – Drogo tem, segundo um dos diretores da sétima temporada, o tamanho de um Boeing 747, ou seja, uns 70 metros de comprimento. Aí talvez tenha se exagerado para mais, dado que Drogon é um dragão ainda em fase de crescimento na série de livros e há toda uma narrativa em Fogo e Sangue sobre como dragões ancestrais, séculos antes, eram muito maiores. Os já citados Balerion e Vhagar, gigantes maciços, teriam mais de cem metros de comprimento. E isso levanta outra questão interessante. Que diabos esses bichos comem?
Dietas
Bom, até certo ponto é meio ridículo aplicar tanta massa cinzenta e ciência especulativa à existência de criaturas mágicas, mas Martin especificamente abre esse flanco ao deliberadamente mesclar “realismo” e fantasia. Dragões não são novidades não apenas em culturas espalhadas pelo nosso mundo, mas também em vários clássicos da fantasia literária. Mas não há pretensões tão “realistas” em um mundo completamente mágico como o de J.R.R. Tolkien em O Senhor dos Anéis. No universo de Martin, os dragões são mostrados como seres com infância e desenvolvimento análogos ao de outros animais ovíparos. Sendo criaturas fantasiosas mágicas, alguém poderia argumentar que os dragões não teriam razão para comer, por exemplo, mas em A Canção de Gelo e Fogo Daenerys é mostrada descobrindo laboriosamente como alimentar seus três “filhos” – basicamente, eles comem carne queimada quase até às cinzas, o que levanta toda uma discussão sobre o valor nutricional que esses animais obtêm dessa dieta a ponto de se tornarem os gigantes que são.
Voltando à outra questão que tratamos há alguns parágrafos: em qual linha evolutiva os dragões se encaixam e como isso influencia em sua dieta quando adultos? Dragões como os descritos por Martin têm um gasto de energia insano se analisados de perto: são criaturas gigantescas e ainda assim voam. Também sopram fogo. Só a parte do voo já é uma dificuldade considerável. Se os dragões descendem, por exemplo, de uma linhagem evolutiva semelhante à dos pássaros, e se forem comparados a grandes aves de rapina de nosso mundo, os dragões provavelmente teriam de ingerir uns 10% de seu peso corporal – uma águia de cinco quilos precisa de cerca de 500g de carne diários. Quanto isso representaria para animais com uma escala tão ampla quanto de 12 a 100 metros de comprimento?
Como Martin não explicita quanto pesa um dragão, entram aí cálculos e estimativas. Os dragões em crescimento de Daenerys, com apenas 12 metros de comprimento nos livros, podem pesar fácil uns 500 quilos – o que representaria uma necessidade de 50 quilos diários. E estamos falando de um dragão só. Na época da série A Casa do Dragão, em que já apareceram mais de 10 dessas feras, todas muito maiores, provavelmente estamos falando de bestas que precisam de mais alimento do que o continente poderia produzir. A Vhagar, mostrada na série, pesaria, com todo o seu tamanho, mais de mil toneladas – cem quilos de alimento por dia, mais ainda quando exigida a voar (existe uma razão biológica para que, no nosso mundo, seres voadores não atinjam esse tamanho, o gasto energético para o processo de voo seria proibitivo).
Gravidade e fogo
E isso simplesmente pegando um elemento da equação, dado que, para analisar a autonomia de voo desses dragões, seria preciso também entrar em outras considerações, como qual a composição de seus ossos (provavelmente muito ocos, para reduzir seu peso máximo), e de suas escamas, e qual a força de gravidade e a resistência do ar apresentada pela atmosfera nesse mundo (que, como vimos, não tem as mesmas disposições gravitacionais que o nosso, dado que suas estações são irregulares). Outra questão: como os dragões de Martin cospem fogo? Poderia ser simples magia, o que sai do reino da especulação possível. Se, no entanto, algum mecanismo biológico nas entranhas do animal produz alguma bile inflamável em contato com algum elemento do ar, some-se também o gasto de energia considerável para esse processo biológico específico, e seria possível que apenas a existência de 20 dragões em um mundo de características medievais fosse o suficiente para que a ecologia do lugar entrasse em colapso.
Outros argumentam que dragões, mais aparentados com répteis do que com aves, seriam criaturas ectotérmicas, ou seja, animais de sangue frio que não produzem o próprio calor interno e cuja temperatura corporal se ajusta de acordo com o ambiente, um tipo de biologia capaz de gastar bem menos energia – o que, ainda assim, precisaria ser muito extrapolado para os dragões gigantes de A Casa do Dragão. Como esses animais sobrevivem durante invernos que duram anos em seus gélidos covis de pedra no porão dos castelos dos Targaryen? Obteriam do sol escasso o tipo de calor suficiente para manter um corpanzil daquele tamanho em condições saudáveis?
Quem sobreviveu à leitura deste texto até aqui deve estar, justamente, pensando em por que diabos estou sendo tão específico em relatar discussões sobre a biologia de animais fantásticos e de onde habitam (ops, desculpe, série errada). Esse tipo de exercício intelectual costuma ser chamado de vários nomes: biologia especulativa, evolução especulativa. Há, também, vezes em que esse tipo de especulação dá origem a pseudociências charlatãs, como a criptozoologia, que se dedica ativamente à busca de seres “lendários” em nosso mundo, como o Monstro de Loch Ness ou o Pé Grande. O interesse que motivou este artigo não se dirige a esse campo, e sim a essa pura mescla de imaginação e ciência que faz muitos buscarem cálculos e postulados da ciência real para justificar os mecanismos de funcionamento de um universo fantástico.
Muitos argumentam que, sendo o mundo de Martin, ou o de Tolkien, ou o de Brandon Sanderson planetas diversos dos nossos, é um exagero imaginar que sigam as mesmas leis físicas. Aí me lembro de um dos livros mais interessantes com essa proposta doida que apresentei aqui de aplicar ciência séria a contextos imaginários fantásticos A Ciência dos Super-Heróis, de Lois Gresh e Robert Weinberg (Ediouro, 2005, tradução de Domingos Demasi), hoje infelizmente esgotado, mas ainda encontrável em sebos reais e virtuais. É uma obra na qual os autores especulam questões do mundo dos heróis de quadrinhos, como: por que o Super-Homem teria poderes ou não de acordo com a cor de uma estrela? Como seu corpo funcionaria? Que tipo de gasto energético alguém como o Flash teria para correr à velocidade que corre? E a qual velocidade ele poderia ir sem que a fricção destruísse seu corpo? Qual a dinâmica possível na ampliação e no encolhimento de personagens como o Gigante e o Homem-Formiga? São eles também que explicam, no prefácio da obra, a objeção dos “outros mundos”:
“Em um artigo publicado em 1917, intitulado ‘Considerações cosmológicas sobre a teoria geral da relatividade’, Albert Einstein expôs o que chamou de princípio cosmológico. Nas palavras de Einstein: ‘Nenhuma característica do meio cósmico é limitada a um lugar ou a uma direção preferencial no espaço’. Em termos mais simples, o universo obedece a um certo conjunto de leis que são as mesmas em toda parte. O princípio cosmológico implica que não há nenhum centro no universo e que o universo é o mesmo em todas as direções e o mesmo quando levado em consideração na maior escala possível. Para usar uma terminologia mais formal: o universo é isotrópico e homogêneo. Assim, as leis da física que são verdadeiras na Terra são verdadeiras em qualquer outro lugar do universo.”
Logo, tirando a cartada da magia, que explica tudo sem precisar explicar, mas transforma ao mesmo tempo muitas obras em um vale-tudo meio chato, é sim possível ficar muito tempo pirando em como determinadas coisas descritas na página funcionam e que consequências teriam se aplicássemos nelas as leis físicas universais.
Isso não é necessariamente produtivo, mas sempre me pareceu – e aqui, para mim, está o centro deste texto – uma boa base de aproximação lúdica para o ensino de disciplinas como a Física, a Química e a Biologia. Ao contrário da Matemática, que é um universo próprio em si mesma e, portanto, até hoje é alvo de discussões sobre se o uso de exemplos do mundo real teria alguma vantagem didática em seu ensino, as outras disciplinas que mencionei são ciências dedicadas à compreensão de fenômenos e padrões do mundo real. Logo, embora a aplicação de seus conhecimentos não sirva para explicar mundos mágicos, os mundos mágicos podem ser um ótimo pretexto para que se conheçam as leis e princípios dessas ciências.
Que isso não seja mais usado ou que não seja planejado como uma estratégia política de ensino, sempre me pareceu uma oportunidade perdida.