Quando somos crianças, fazer amigos é uma questão de proximidade circunstancial: você mora no mesmo prédio, senta na mesma fileira na sala de aula, divide o mesmo recreio, vai para a escola no mesmo ônibus escolar, frequenta a mesma aula de inglês ou natação. Vocês se veem todos os dias, ou pelo menos algumas vezes por semana, e fazem parte de alguma atividade juntos. Muitas vezes, formam um grupo de amigos e compartilham o dia a dia, as descobertas, as mudanças.
De repente, quando viramos adultos, fazer amigos exige intenção e tempo. Exige paciência, compreensão e até um pouco de desapego emocional devido àquela distância que a vida se encarrega de trazer. Será que estamos todos nos sentindo um pouco sozinhos, inacessíveis?
Percebo a minha dificuldade em fazer amigos novos (os de verdade) depois dos trinta. Continuo conhecendo pessoas, acho algumas delas incríveis. Mas a intimidade, construída em camadas, em tempo, vulnerabilidades compartilhadas às três da manhã e em silêncios confortáveis, não parece vir tão facilmente. A agenda foi ficando mais difícil. A disponibilidade emocional, também mais rara. E fui me fechando na minha casa, na minha bolha. Não me levem a mal, eu amo a minha vida e os meus arredores cotidianos. Mas, de vez em quando, sinto falta de novas amizades, da excitação de sentir a pessoa se tornando sua.
Moro do outro lado do oceano e deixei a maior parte dos meus amigos para trás. Três a quatro horas de fuso, a depender do horário de verão (podia ser pior). As conversas começam em áudio e às vezes não terminam, ficam as pontas soltas, as perguntas sem respostas. Lembro dos aniversários pelas redes sociais. A vida adulta nos torna menos presentes. Hoje em dia tenho poucos amigos com os quais converso toda semana. Os dramas do cotidiano se perdem, e a vida vai se construindo em sua ausência, que vai deixando de ser notada com os anos. Falta contexto. Faço questão de, sempre que lembro de algum amigo, mandar mensagem: “Essa música me lembrou aquele dia / li um livro que acho que você vai amar / achei essa foto nossa no meu celular / sonhei com você essa noite”.
E o que sobrevive apesar disso tudo? Tem relações que resistem ao longo silêncio, à longa distância. Meses sem falar, às vezes perto de um ano – não por falta de amor, mas por falta de tempo e, talvez, prioridade – mas, quando o contato é retomado, você reconhece a pessoa imediatamente, por inteiro. Ela te reconhece.
A amizade adulta exige uma escolha que a infância nunca pediu: decidir, ativamente, que alguém vale o esforço, a mensagem mandada sem motivo, o áudio gravado no almoço, a ligação marcada em um domingo de preguiça. Vale priorizar, de vez em quando, o outro antes da própria exaustão.
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