
Depois de treze anos focada em literatura produzida por mulheres, aumentei consideravelmente o meu repertório sobre nós e, por tabela, sobre os homens. De uns duzentos livros, devo ter agora uns mil escritos pelas minhas colegas. O tema mais trabalhado, entre os meus exemplares, é a maternidade, seja no lugar de mãe, no lugar de filha ou no de recusa a fazer parte do sistema de reprodução.
Eu tenho um filho e três vira-latas, eles quase filhos. Com o mais novo, o único macho, eu brinco que sou a vovó. Ele adora essa palavra. Dá saltos de alegria quando a digo, espichando a última sílaba: vovó… Talvez porque me ame. Gente antipática já me disse que os animais não amam ninguém. Não é o que parece. À nossa maneira, os meus quadrúpedes e eu nos amamos.
Todos os meus amores foram à nossa maneira, minha e também do homem envolvido comigo. ‘Todos’ soa meio exagerado porque, neste sentido, fui muito singular. Amei a pouquíssimos. Não acredito em amor produzido em escala industrial. Não faço parte do grupo de pessoas que ama ou pensa que ama ou brinca que ama com todas as pessoas com quem se relaciona.
Um dos meus poemas favoritos se chama o Amor é Tudo que Nós Dissemos que Não Era, do Charles Bukowski, e, nesse poema, na última estrofe, ele diz: “e o amor é uma palavra usada/ muitas vezes/ e muitas vezes/ cedo demais”. Opinião que compartilho sem ressalvas, o que não significa que eu esteja certa.
Em 2020, no triste ano da pandemia, escrevi, com o Heitor Schmidt, um livro ao qual demos o título de Bem que Eu Gostaria de Saber o que é o Amor, frase retirada do Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Roland Barthes, livro que eu tinha lido lá pelos meus dezoito anos e que voltei a reler na época sabe-se lá o porquê. Abrindo um parêntese, reler livros é uma espécie de ato amoroso. Fechando o parêntese, não ler não é o contrário. É uma lástima. Ou uma lágrima, como meu filho dizia quando pequeno.
Lágrima é uma palavra eficiente em se tratando de assuntos do coração. Faz parte de seu pacote derramar algumas. Quando elas se tornam muitas, aí a coisa muda de figura e passa a funcionar como um alerta de que o amor já era, se é que um dia, de verdade, esteve presente, ou de que ele está passando por uma metamorfose que talvez não sustente mais o vínculo afetivo que antes havia.
Se perder o embalo erótico, por exemplo, a situação se torna perigosa, principalmente entre aqueles que, em vez de tentar reencontrá-lo, partem para o adultério. Infidelidade tem nome e, é claro, nome e sobrenome, ainda que seus adeptos se escondam a sete chaves. O senso comum costuma chamá-los de traidores, e são, mas, se apertarmos o dicionário de língua portuguesa, escapa dele o vocábulo adúltero, pesado e azedo até na grafia. Substantivo ou adjetivo do grupo dos desgastes e das tentativas de perdão.
Eu não acredito em perdão ao primeiro pedido. Nem no último. Sou uma pessoa alérgica à ideia de ter de aliviar o remorso e a culpa alheios. Só de pensar em ter de estender a mão para um agressor, me aborreço. Não vejo e sinto paz nenhuma nesse gesto, mas sei que tem quem consiga fazê-lo e se beneficie. Gente admirável que, por alguma razão, se tornou alvo de gente menos admirável. Se houvesse equivalência, não aconteceriam essas falhas.
Amar, pelo menos em tese, implica boa vontade, zelo e confiança. Confiança, dependendo do caso, se perde para todo o sempre amém. Dependendo, sofre só um abalo. Falando assim, um abalo não parece desafiador. Eu o considero complexo como o retorno de Odisseu para Penélope. Vai ver não é. E eu é que sou um espírito por demais mitológico para não dizer antigo. Ana Cristina Cesar disse: “Sou uma mulher do século dezenove disfarçada de vinte”. Quem me dera estar tão perto assim.