
Nos últimos dias, sempre que entro nas redes sociais, tenho a impressão de que dormi em 2026 e acordei quarenta anos atrás, em um mundo mais colorido, mais alegre, mais feliz e…
Peraí!
Estamos falando de que década mesmo?
Ah, sim. Dos anos 1980. Aquela época maravilhosa em que vivíamos melhor. Sem internet, sem celular, liberdade de expressão, sem acesso à educação para boa parte da população, sem mimimi…
Opa!
Eu poderia dizer que a década de 80 foi o melhor período da minha vida. Afinal, os olhos da criança que eu era naquele tempo enxergavam apenas o lado bonito das coisas. Poderia afirmar que tudo era mais simples: os problemas eram menores, as soluções mais fáceis e as pessoas, mais felizes. Mas o senso crítico adquirido ao longo da vida não me permite romantizar uma época que a nostalgia vem mascarando nos feeds e stories. Os anos 1980 podem ter sido bons para muita gente e certamente foram especiais para a criança que eu era, mas estão longe de ter sido tão magníficos quanto têm se mostrado nas nossas telas.
No início dos anos 1980, ainda vivíamos sob uma ditadura que, embora atravessasse um processo de abertura política, continuava privando os brasileiros de direitos fundamentais, entre eles o de escolher o presidente da República, o que só aconteceu em 1989, depois da promulgação da nova Constituição. Apesar da mobilização pelas Diretas, Tancredo Neves, o primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar, não foi escolhido pelo voto popular. Mesmo assim, representou a esperança de um Brasil que nunca o viu assumir a Presidência. Tancredo adoeceu antes da posse e morreu sem assumir o cargo, deixando-o para o vice, José Sarney.
Mas não era apenas a democracia que precisava ser reconstruída. Sarney assumiu um país mergulhado em uma grave crise econômica, herança dos últimos anos da ditadura. A moeda mudava de nome a cada novo plano, enquanto a inflação corroía os salários e dificultava o acesso aos alimentos. No dia do pagamento, era preciso correr ao supermercado e estocar o que fosse possível antes que os preços subissem novamente.
Nos anos 1980, a licença-maternidade era de 84 dias. Minha mãe conta que não pôde me amamentar por muito tempo porque precisou me deixar com a minha avó para voltar ao trabalho. Com a Constituição de 1988, a licença-maternidade passou a ser de 120 dias e a licença-paternidade tornou-se um direito. Quando meu filho nasceu, em 2009, tive direito a 180 dias. Mas, ainda hoje, esse período não é uma realidade para todas as mulheres.
Outro grande problema da década foi a Aids. Depois de se espalhar por diferentes partes do mundo, a doença teve seu primeiro caso reconhecido no Brasil em 1982. Ainda sem tratamento eficaz e cercada de desinformação, logo recebeu rótulos preconceituosos como “câncer gay”, reforçando a falsa ideia de que atingia apenas homossexuais. O medo alimentou a discriminação, e muitas pessoas passaram a enfrentar, além do vírus, a rejeição da própria sociedade. Os medicamentos que transformariam a Aids em uma condição tratável só chegariam mais tarde.
O analfabetismo ainda atingia uma parcela significativa da população. Com pouco acesso à educação, muitas crianças abandonavam a escola para trabalhar ou ajudar a família. Se chegar ao ensino médio já era privilégio de poucos, alcançar a universidade era para menos gente ainda, sobretudo para a população negra, que enfrentava também as barreiras impostas pelo racismo e pela desigualdade social.
A violência doméstica era, muitas vezes, tratada com a famosa frase: “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Sobre as mulheres recaíam os cuidados com a casa e os filhos, mesmo quando trabalhavam fora. Na televisão, o corpo feminino era sexualizado em comerciais e programas de auditório, e comportamentos hoje reconhecidos como machistas eram vistos com naturalidade.
Eu confesso que, às vezes, sinto saudade dos anos 1980. Dos carros coloridos, da espera para ouvir no rádio a música preferida, da hora da novela, do desenho animado. Sinto saudade da euforia de ouvir um telefone tocar na casa de alguém, já que na minha não tínhamos esse luxo; de comprar fichas e procurar um orelhão para falar com quem estava longe. Sinto saudade de receber cartas, de visitar alguém sem avisar, mesmo correndo o risco de não encontrar ninguém em casa.
Sinto saudade de muitas coisas, mas não a ponto de dizer que aquele tempo era melhor ou desejar que tudo volte a ser como antes. Prefiro as facilidades de hoje, os direitos conquistados, os avanços da ciência, o acesso à informação e todas as mudanças que tornaram possível questionar aquilo que antes aceitávamos como natural.
Quando vejo nas redes sociais aqueles anos 1980 perfeitos, percebo que a saudade que sinto não é exatamente daquele mundo, mas da menina que ainda conseguia enxergá-lo sem perceber todas as suas sombras.