
Com orgulho, fui ler a tese de uma arquiteta que, ainda na graduação, havia sido minha orientanda de iniciação científica. Fiquei feliz com o convite para agora participar como banca de mestrado. O tema era paradas de transporte público e gênero. Logo nas primeiras páginas, os dados me chocaram. Segundo o Instituto Locomotiva, a partir de entrevistas com mulheres usuárias de transporte público e aplicativo, 97% delas já haviam passado por situações de assédio. Já o Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento apresenta que 74% das mulheres acabam por condicionar hábitos de transporte e horário de deslocamento por medo. Parei a leitura por alguns instantes, tentando entender como aquilo poderia ser possível.
Aos poucos, vieram as lembranças.
A memória é curiosa. Com o passar dos anos, muitas dessas experiências ficaram esquecidas, guardadas em algum lugar incômodo da lembrança. Precisei abrir uma espécie de caixinha interna para recuperá-las. Talvez porque, naquele tempo, faltasse consciência sobre o desrespeito que tudo aquilo representava para nossa liberdade. Cresci em uma época em que era tratado como “brincadeira de moleque” passar a mão nas meninas, e ouvir comentários grosseiros de estranhos parecia fazer parte da rotina de andar na rua.
Lembrei de quando era jovem e usuária diária de ônibus: de um homem que se tocava e me observava enquanto eu aguardava na parada do outro lado da rua. De um dia de chuva, quando caminhava até o ponto e, escondido entre arbustos, um homem abaixou as calças tentando chamar minha atenção. De outra vez, já sentada no ônibus, quando senti um toque na lateral do corpo — quando virei, era um senhor no banco de trás que me tocava. Levantei indignada e denunciei em voz alta. A reação ao redor foi de estranhamento — como se a histérica fosse eu.
E isso não aconteceu só no Brasil. Antes dos trinta anos, viajando de mochila por Londres, um homem sentado à minha frente no metrô fez um gesto obsceno, mostrando a língua. Anos depois, durante o Caminho de Santiago, em um trecho mais vazio, um homem nu se masturbava e chamava mulheres que passavam. Poderia contar outras histórias, mas prefiro poupar vocês.
Desculpem-me ilustrar, mas é importante alinhar nosso entendimento: o assédio começa no desconforto, no medo que causa insegurança, que limita a liberdade, que condiciona o movimento. E, infelizmente, para alguns grupos, isso é difícil de compreender.
Por sorte, tive uma amiga revolucionária, que desde cedo não aceitava essas situações e me ajudou a desenvolver essa consciência. Mesmo assim, denunciar ou reagir sempre foi uma escolha arriscada — muitas vezes, parecia vulnerabilizar mais a vítima do que o agressor.
Naquela época, sequer existia a expressão “machismo estrutural”. E que me perdoem aqueles que acham tudo exagero — que bom que hoje temos palavras para nomear essas violências. Nomear ajuda a compreender e a enfrentar aquilo que, por muito tempo, foi naturalizado.
Depois das lembranças, os dados da pesquisa passaram a me parecer até subestimados. Afinal, eles contabilizam mulheres que sofreram assédio — mas não necessariamente quantas vezes cada uma passou por isso.
E você? Percebeu que tudo o que relatei até aqui, assim como os dados da pesquisa, está ligado apenas à mobilidade das mulheres? Fora isso, existem muitas outras situações: na balada, no trabalho, na academia, em comentários inconvenientes de colegas ou vizinhos.
Talvez uma das vantagens de envelhecer seja perceber que essas pequenas violências se tornam menos frequentes com o passar dos anos. Ainda assim, não desaparecem. Estão presentes em comentários machistas no trabalho, no trânsito, nas relações cotidianas. E, vale dizer, não apenas entre homens — muitas mulheres também acabam reproduzindo ideias e comportamentos que reforçam essas desigualdades.
Foi criando adolescentes que percebi o quanto esse problema ainda está presente. A disputa por liberdade começa cedo — especialmente depois dos doze anos — e traz preocupações muito diferentes para meninos e meninas. Para um menino, as orientações costumam girar em torno de como reagir a um assalto. Para uma menina, a lista se amplia: buscar ajuda em um comércio se alguém a intimidar, evitar ruas pouco movimentadas, cuidar o horário de retorno para casa.
Percebeu que ainda não falei de roupas?
Sinceramente, em situações de assédio, isso é um detalhe irrelevante. Sempre gostei da liberdade da rua, de me locomover sem depender dos meus pais, e isso, inconscientemente, moldou até minha forma de vestir — “preferia” roupas mais largas. Ainda assim, nada disso me protegeu das situações que relatei. A ideia de que a roupa justificaria o comportamento de um agressor é um dos preconceitos mais persistentes que ainda carregamos.
Homens circulam pela cidade sem camisa e sem culpa. Por que uma mulher de shorts deveria ser um problema?
Agradeço que nós, mulheres, tenhamos avançado no entendimento dessas violências. Cada denúncia que se torna pública, cada debate que questiona atitudes e comportamentos que limitam nossa liberdade, contribui para construir um futuro diferente — um futuro que o mundo parece precisar com urgência.
Homens, precisamos muito de vocês nessa caminhada. Sei que muitos já estão ao nosso lado, mas não podemos aceitar “brincadeiras”, comentários ou atitudes que minimizem o preconceito de gênero. Cultura só se transforma com consciência coletiva.
O planejamento das cidades também pode contribuir — e não apenas pelo desenho urbano, mas também por regras e educação. Embora seja triste admitir que ainda seja necessário, iniciativas como a do Metrô do Rio de Janeiro, que destina vagões exclusivos para mulheres em horários de pico, cumprem um papel importante de proteção. A medida exige fiscalização constante — há, inclusive, fiscais que divulgam nas redes sociais situações em que precisam intervir diariamente para garantir o cumprimento da regra.
Mas o transporte público é apenas parte de uma rede maior que assegura a mobilidade segura das mulheres. Tudo depende também da localização da moradia, da iluminação das ruas, da visibilidade das paradas de ônibus, da eliminação de espaços inseguros e do estímulo à presença de pessoas e atividades nas ruas — o que chamamos de vigilância natural. Estudos mostram que este tipo de presença é mais eficaz e viável que um policial em cada esquina.
Gosto de lembrar de um momento marcante, quando estava grávida, em Barcelona. Depois de um encontro com amigas, voltei sozinha de metrô, tarde da noite, sem sentir medo. Foi ali que entendi o que significava liberdade de verdade: poder circular sem insegurança, viver a cidade com naturalidade, sabendo que aquela experiência era possível para todas as mulheres daquela cidade.
Talvez tenha sido um pensamento romântico, influenciado pelos hormônios da maternidade. Mas uma coisa me parece certa: quando as cidades forem seguras para as mulheres, em qualquer horário do dia, elas serão melhores para todos.

