
1 – Considero, não poucas vezes, a memória um animal caprichoso, avesso à disciplina e, amiúde, capaz do cinismo de certos bichos que nos manipulam ao oferecer a patinha ou descrever umas cabriolas na hora certa.
2 – Se resolvo pressioná-la — é preciso que desperte para que haja crônica —, volta sempre aos lugares conhecidos e percorridos: o perdido já celebrado, já gasto, pura e preguiçosa reprise.
3 – O solitário sardento do colégio, o caminhante por ruas da Assunção cobertas de inço, as precárias piscinas em que se nadava por uma torrada completa à saída, os amigos perdidos, os amigos mortos, os amores encerrados, as tardes infinitas do subúrbio, o gosto da bala Xaxá de abacaxi.
4 – Se a forço um pouco mais, costuma pôr-se arredia, de maneira que secreta as coisas não resolvidas como uma forma de veneno.
5 – Ingratidões: dadas e recebidas.
6 – Traições: caladas e confessadas.
7 – Impasses: minúsculos e gigantescos.
8 – Somente quando a deixo correr livre, ou seja, conto com sua mesquinha generosidade, muito rara para amparar minha escrita, é que oferece seu melhor rasgo.
9 – Sua aleatória independência de guardar o que é importante — para ela.
10 – Letras de canções de abominável gosto.
11 – Vislumbres roubados do mundo.
12 – A risada das pessoas que queremos.
13 – O vento em San Martín de los Andes.
14 – A umidade do porão em que o amor começou.
15 – Coisas que aqui só posso listar, insuficientes para render uma crônica.
16 – E a memória me encara ofendida, como uma gata que espera a sua devida ração.
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