
De acordo com alguns perfis da internet, são necessários cumprir diversos deveres e regras para um envelhecimento e uma velhice bem-sucedidos. Para isso, recebemos diferentes fórmulas, às vezes conflitantes entre si, às vezes difíceis de seguir, às vezes que vão de encontro com nosso estilo de vida. Apresentam que a “nova maturidade é desse jeito”, “os novos 60mais são daquele jeito”, “os novos 50 são assim”, “os novos 60 são assado”, parecendo que, se a gente não seguir essa ou aquela bula, não estará envelhecendo “certo”. E, assim, vão se criando (novas e diferentes) necessidades e muita ansiedade.
Não sou louca em afirmar que não existem cuidados importantes para o nosso envelhecimento saudável. Estudo o assunto desde 2014. Sei que existem pesquisas e dados consolidados a respeito. Porém, se há algo que também aprendi é que o envelhecimento e as velhices são diversas e as pessoas são únicas. Há que se respeitar cada pessoa, seu curso de vida e seu contexto. Não existem fórmulas mágicas. Padronizar o que é singular, oferecer uma visão simplista para o que é complexo, pode produzir efeitos danosos.
No caso das mulheres, a gente junta as receitas para “envelhecer bem”, as receitas para nos mantermos desejáveis, belas, magras, “bem cuidadas”, sem aparentar a idade, mantendo-nos o mais jovem possível e pelo maior tempo possível, claro. Produtos, procedimentos, chips de hormônios, rotinas para serem acrescentados ao cotidiano, mas retirando o tempo de nossas vidas e dinheiro da nossa conta bancária, para obtenção de resultados incertos. E, por maior que seja a luta, o tempo passa para todas e os sinais do envelhecimento também.
Nessa sociedade do consumo e da performance, vivemos na ansiedade por apresentar nossos “resultados”, mostrando o quanto a gente conseguiu vencer e conquistou os objetivos e as metas, atingindo a velhice “bem-sucedida” e a beleza “ageless”, sonho que se torna uma prisão, porque impossível de chegar aos padrões que nos são apresentados, levando-nos a nos sentir insuficientes e inadequados, já que, pelas redes sociais, testemunhamos aparentes sucessos e vidas perfeitas.
O que funciona?
Funciona o acompanhamento por profissionais de saúde habilitados, adoção de um estilo de vida consistente, cultivo da boa saúde emocional e social em dia. Como chegar lá? Cada pessoa haverá de encontrar seu caminho, em que o objetivo não é a rapidez, mas persistência e continuidade.
Quando aparece a doença?
Percebo que existe uma percepção que se atravessa a partir dos 50, mas que tempos atrás percebia que se passava aos 60 anos, da compreensão de que, a partir dessa idade, as “doenças da velhice” já começam a aparecer. Um estereótipo de que envelhecer é adoecimento. Não refletimos quando reproduzimos as falas nesse sentido de que centenas de milhares de pessoas convivem com doenças desde a infância ou, no decorrer da sua vida, irão desenvolver algum tipo de limitação e/ou adoecimento. Fica a impressão de que a doença e os limites “nascem” apenas na velhice. Desconsiderando-se toda a história que cada pessoa carrega em si.
Velho ou idoso?
O medo de se chamar ou de se escutar chamada de pessoa idosa ou velha, faz com que novos nomes sejam constantemente criados para substituí-los: maduros, prateados, sênior, 60+, maior idade, melhor idade. O nome mais recente que surgiu foi “NOLT” (link aqui para coluna onde escrevo sobre esse novo termo), que carrega na sua definição uma série de estereótipos, determinando como que os “novos velhos” precisam se comportar.
O uso que se faz da palavra idoso ou velho é triste, cinzento, redutor das capacidades e habilidades de alguém. Afinal, chamamos de velho aquilo que já não funciona, que está estragado, que é para se jogar fora.
Mas se conseguirmos compreender que uma pessoa velha é aquela jovem que deu certo. A que resistiu ao tempo, a que acumulou experiências e venceu ele, qual é o problema em chamá-la pela palavra de velha, se o mesmo não acontece quando chamamos a criança de criança, o jovem de jovem ou o adulto de adulto?
A gente gosta de um vinho que envelheceu num velho barril de carvalho. Preferimos sentar debaixo da sombra de uma velha árvore. Nossas velhas amizades são importantíssimas à nossa vida. Então, que tal pensar a nossa velhice com esses novos significados? O que acha de substituir pelas palavras ultrapassado, gasto, mal conservado, antiquado, obsoleto, estragado o que você chama de velho?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.

