
Marjane não morreu de medo quando lhe tiraram a liberdade de ser quem queria ser, muito menos ao se afastar dos pais, aos 14 anos, para morar sozinha em um país distante. Marjane sobreviveu ao frio e à solidão das ruas, à dor do corpo, à pneumonia. Transformou a própria tragédia e a de seus conterrâneos em obra de arte. Carregou consigo as contradições de quem amadureceu entre culturas, entre idiomas, entre versões diferentes de si mesma.
Marjane Satrapi resistiu a tudo com a força que lhe ensinaram a ter. Só não aprendeu a se defender da melancolia que veio depois da perda de quem tanto amava. Dizem que morreu de tristeza, não do nome científico que deram ao coração partido, nem da depressão causada pelo abandono. Não foi fraqueza, nem covardia, muito menos um suicídio, mas uma tristeza persistente, daquelas que aos poucos esvaziam o sentido das coisas. Marjane sobreviveu a guerras, exílios e privações. Conviver com a ausência foi outra batalha.
A literatura retorna a essa experiência com frequência porque ela toca uma das questões mais difíceis da condição humana: o que fazer quando a vida continua, mas a pessoa amada não. A protagonista de “Não fossem as sílabas de sábado, de Mariana Carrara, pertence ao grupo daqueles que seguem carregando a perda por muitos anos.
Depois da morte do marido em um acidente absurdo — um homem se joga de um prédio e cai sobre ele na rua —, justamente no dia em que pretendia revelar a sua gravidez, Ana se fecha para o mundo. A tragédia interrompe não apenas uma vida, mas também o futuro que os dois começaram a construir juntos. Incapaz de encontrar sentido para o que aconteceu, ela passa a viver cercada pela ausência, transformando o luto no centro de sua existência.
O luto de Ana se estende por muitos anos. Primeiro vem a negação: a recusa em aceitar que o marido tenha morrido de uma forma tão absurda. Em seguida, surge a necessidade de encontrar um culpado. Ela culpa o homem que se atirou da janela por não dar valor à própria vida e Madalena, sua esposa, por não estar lá para impedir a tragédia. Depois chega a barganha, expressa nos inúmeros “e se”: e se ela não tivesse pedido que o marido saísse de casa, e se ele tivesse saído alguns minutos antes ou depois, e se Madalena tivesse conseguido impedir o salto. A depressão se instala, afastando Ana dos amigos e da própria vida, enquanto Madalena insiste em se aproximar. Por fim, vem a aceitação, quando Ana já quase não se lembra dos traços do marido e percebe que o tempo vivido sem ele tornou-se maior do que os anos passados juntos.
A tentativa de compreender o luto por meio da ficção é um tema constante na história da literatura. Em Não fossem as sílabas de sábado, Mariana Carrara oferece sua própria leitura dessa experiência universal. Mais do que um romance sobre a morte, seu livro é uma reflexão sobre o tempo que vem depois dela. Um tempo em que a ausência permanece, mas a vida, apesar de tudo, continua.
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