
“Flaviô, você não sabe o que significa viver nessa cidade e se chamar… Mohamed!”
Ele era meu colega na Sorbonne, de origem marroquina e mulçumana. Nós conversávamos muito sobre nossas respectivas culturas e sistemas educacionais, e um dia, ao chegar na Faculdade, ali na Rue Danton, ele estava sentado num banco do corredor, chorando. Sentei-me ao seu lado, em silêncio, e, depois de algum tempo, perguntei-lhe se queria conversar. A sua resposta foi a frase que abre esse artigo!
Eu não consigo me lembrar do que ele me disse, tentando explicar a situação que o fez chorar. Acho, apenas, que, naquele momento (eu tinha chegado muito recentemente em Paris), eu avaliei aquilo como uma das manifestações de racismo e xenofobia que iria conhecer e presenciar ao longo de minha longa estadia naquele país. Ainda não dispunha das ferramentas conceituais para avaliar aquele fato.
Passados quase 40 anos daquele triste episódio, e quando vejo a cidade de Paris incendiada, depredada e saqueada, sobretudo por JOVENS – e, pelo que pude observar vendo diferentes cenas, jovens de origem não europeia -, a pergunta que faria a Mohamed, hoje, talvez não dissesse respeito ao seu sofrimento pessoal diante de uma agressão racista, mas gostaria de ouvi-lo sobre o que ele achava do fato de que tudo isso esteja acontecendo no país que fundou uma ideia de “ocidentalidade”, de “humanismo”, de “direito universal”, de crença numa “razão crítica”, de “resistência ao tirano”… e que tais ideias estejam, hoje, sob franco ataque.
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Em primeiro lugar, acho que o jogo de futebol que antecedeu aquela breve revolta urbana é apenas o superficial pretexto para destampar ressentimentos e humilhações soterradas por um determinado conceito de “CULTURA” (embora reconheça que o futebol seja hoje uma arena que transforma indivíduos isolados, com projetos sociais e profissionais frustrados, em MULTIDÃO, onde podemos nos diluir no “todo” identificatório e, assim, não ser responsabilizados individualmente por crimes menos contra os OUTROS do que contra a CIDADE e seus símbolos (o lixo, o carro de luxo, o restaurante chic, o monumento histórico, a Sinagoga, a Mesquita…).
Penso que há uma primeira e fundante relação entre JUVENTUDE e REBELIÃO, e Paris me parece ter sido o palco histórico em que essa relação mais fora encenada: em 1848, o jovem Gavroche (de “Os Miseráveis”) morre numa barricada; em 1968 são jovens universitários que incendeiam a cidade reivindicando um outro modo de vida em que “Eros” (o “Princípio do Prazer”) fosse liberado de sua histórica repressão (Marcuse) e entrasse em nossas vidas cotidianas: não queriam tomar o poder, mas contestar toda forma de poder! Não demorou muito e nossos “soixantehuitards” (como eram chamados) estavam integrados e absorvidos pela sociedade de consumo e pela “dessublimação repressiva” que pretendiam modificar (como assinalou o líder daquele movimento, Daniel Cohn-Bendit, em “Nós que amávamos tanto a revolução”). Dali sairiam os movimentos da contracultura (hippies, luta armada, guerras de libertação colonial, feminismo, direitos civis, crítica das hierarquias pedagógicas, familiares, políticas…: tratava-se de se libertar do “opressor” que nos habita e que não reconhecemos em nossa consciência!
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Agora, outros “jovens” voltam às ruas daquela mítica cidade, sem slogans, sem grafites nas paredes, sem palavras de ordem, sem ocupação de anfiteatros, sem barricadas, sem bandeiras ideológicas (nem a bandeira do PSG eu vi tremulando!). Por que, após um jogo de futebol?
O futebol – num campeonato envolvendo times de países diferentes – representa aquele mesmo sentimento de “união nacional”, de patriotismo (ver Bolsonaro e suas camisetas da Seleção) que dá a sensação de nos constituirmos num “NÓS” (que todo fascismo explora). O problema, nesse caso parisiense, é o “NÓS” que não se formou: grupos e classes inteiras, sobretudo jovens, ficaram de fora desse “NÓS” como instância de identidade, acolhimento, reconhecimento, e permaneceram, mesmo tendo nascido ali, como uma espécie de O OUTRO identificado e segregado pelo nome e pela aparência (como disse meu colega Mohamed). Por isso a destruição atinge a CIDADE, símbolo do lugar público onde pretendemos exercer uma cidadania igualitária (direito, pertencimento e reconhecimento).
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É curioso, no entanto, que o Homem (com H maiúsculo) inventado pelo Iluminismo francês (e contestado pelo Stürm und Drang alemão) – homem universal, racional, livre, subjetivamente autônomo – tenha sido criticado pelos próprios… franceses, na esteira filosófica logo de quem?: Nietzsche e Heidegger! Os célebres pós-estruturalistas muito contribuíram para a emergência de movimentos “regionais” (prisões, escolas, asilos…) que vão culminar nos atuais guetos identitários, produzindo, ao mesmo tempo, uma “eurofobia” e sua irmã siamesa, a “leucofobia” (aversão aos brancos!), em que a frase de Susan Sontag é o grafite pós-epistêmico(!) impresso nas almas: “O homem branco é o câncer da humanidade!”. Resultado: pulverização das lutas sociais, condenando conceitos como “luta de classes”, “revolução”, “consciência de classe”, “universalidade da condição humana”…, e que enxerga na cultura europeia, ocidental, apenas o repositório do colonialismo, da racionalidade instrumental, dos “epistemicídios” (crime que em breve estará no Código Penal do Sul Global!) e genocídios vários. Posso até concordar, e é por isso que aceito que “toda obra da cultura é também uma obra da barbárie” (Benjamin). O problema é saber se o contrário é válido: SE TODA OBRA DA BARBÁRIE E DA DEPREDAÇÃO É CAPAZ DE INSTAURAR UMA NOVA CULTURA DA LIBERDADE E DO PERTENCIMENTO!
A França, gostemos ou não, ensinou-nos o sentido da revolta e da indignação contra a opressão. O que nossos “revoltosos” da semana passada fazem é usar os mesmos instrumentos “críticos” fornecidos pela cultura política e intelectual que combatem! A dialética da história é inescrutável, como os desígnios de Deus!
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No filme de René Clément, “Paris brûle-t-il?” (1966), Hitler havia ordenado ao Comandante Nazista de Paris, Dietrich von Choltitz, que incendiasse Paris antes de evacuá-la (1944). Choltitz desobedeceu ao Führer!
Hitler, se estivesse vivo, talvez ficasse feliz com a vitória do PSG!
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