
Há muitos anos, li uma crônica de Lourenço Diaféria sobre o aniversário de quinze anos de sua filha. Lembro-me do quanto me impressionou, na época, a precisão cirúrgica e poética do autor para traduzir o espanto de um pai diante do tempo: aquele choque sutil de perceber que a menina, de repente, havia crescido e deixado a infância para trás. Hoje, com minhas próprias filhas adultas e senhoras de seus destinos, aquela antiga leitura ganha um novo eco. O sobressalto que o cronista descreveu no passado é o mesmo que sinto agora, mas revestido por uma compreensão mais madura sobre os ciclos e as ilusões que sustentam o amor paterno.
Existe um momento na vida em que o mundo, até então sólido e seguro, começa a revelar suas costuras. É uma transição silenciosa, mas profunda, que evoca a atmosfera de um célebre conto do escritor John Fowles sobre um jovem príncipe em busca da verdade.
O príncipe vivia em um reino isolado onde seu pai, o rei, lhe garantira que três coisas não existiam no universo: ilhas, princesas e Deus. Como não havia sinal de nada disso em seus domínios, e confiando cegamente na palavra paterna, o jovem aceitava as certezas que lhe eram dadas.
Mas, ao ganhar o horizonte e explorar além das fronteiras conhecidas, o príncipe avistou ilhas na costa, contemplou criaturas fascinantes que chamou de princesas e deparou-se com um homem vestido de noite na beira da praia, que dizia ser o próprio Deus.
Sentindo-se traído por uma vida inteira de omissões, o jovem retornou imediatamente ao palácio e confrontou o pai. O monarca, mantendo um sorriso calmo, perguntou como esse suposto Deus se vestia. Ao ouvir do filho que as mangas daquele traje estavam arregaçadas, o rei sentenciou: — Esse é o uniforme de um mago. Tu foste enganado.
Aturdido, o príncipe voltou à praia e acusou o homem de ser um mero impostor. No entanto, aquele que se dizia Deus revelou uma camada ainda mais profunda e desorientadora: — És tu quem permanece enganado. No reino de seu pai existem, sim, muitas ilhas e belas princesas, mas tu estás sob o encanto dele e não consegues enxergá-las.
Tomado pela dúvida, o jovem retornou mais uma vez ao palácio e desabafou: — Então tu não és um rei; és apenas um mago.
O pai sorriu com serenidade, arregaçou as mangas de sua própria túnica real e admitiu: — Sim, sou apenas um mago.
Desesperado por encontrar algo que não fosse ilusão, o filho clamou por uma verdade que existisse além dos truques e da magia. O pai, então, deu-lhe a resposta definitiva: – Não há verdade além da magia.
O príncipe ficou profundamente triste. — Eu me matarei — disse ele.
O rei, pela magia, fez a morte aparecer. A morte ficou junto à porta e acenou para o príncipe. O príncipe estremeceu. Lembrou-se das ilhas belas, mas irreais, e das princesas belas, mas irreais.
— Muito bem — disse ele —, eu sou capaz de viver esta vida.
— Vê, meu filho — disse o rei —, tu, também, agora começas a ser um mago.
Essa narrativa funciona como a metáfora perfeita para o amadurecimento de filhos e filhas. Quando as crianças são pequenas, os pais agem como reis absolutos. Edificam um universo cercado por regras claras, certezas inabaláveis e proteções contra as incertezas do mar aberto — as “ilhas” e os “deuses” que poderiam confundir ou assustar seus caminhos precoces. Essa proteção é, em sua essência, um feitiço benigno para que possam crescer em solo firme e acolhedor.
Mas o tempo passa, o encanto perde a validade e todos, inevitavelmente, chegam à praia.
É nessa margem que descobrimos que o mundo é muito mais vasto, complexo e estranho do que nos foi revelado na infância. É quando percebemos que aqueles que tanto admirávamos — nossos pais — também trazem as mangas de seus trajes firmemente arregaçadas. Compreendemos que eles nunca foram os donos de verdades absolutas, mas sim caminhantes que aprenderam alguns truques e artifícios para sobreviver às tempestades da existência e manter o teto de pé.
A desilusão que brota ao descobrir que o monarca infalível é apenas um mago humano e vulnerável constitui o primeiro e mais doloroso passo da vida adulta. Pode ser assustador perceber que não há um mapa definitivo, um porto seguro preestabelecido ou uma resposta pronta à nossa espera. No entanto, é exatamente nesse aparente vazio que reside a verdadeira liberdade.
Dizer que “não há verdade além da magia” não significa que a vida seja uma farsa ou uma mentira. Significa, antes de tudo, que ela é pura possibilidade. A realidade não se oferece pronta; ela se constrói e se ressignifica continuamente através da percepção, da vontade e do afeto. A felicidade, portanto, não é uma ilha geográfica perdida no oceano que nos cabe localizar; ela é a própria magia que escolhemos praticar todos os dias, no sentido que conferimos ao trabalho, aos encontros e aos mistérios do cotidiano. Chega o momento em que o encanto dos pais se dissolve para que a magia própria dos filhos comece a operar. Deixam de ser súditos das certezas paternas para assumirem o papel de magos da própria história.
Olhando para as minhas filhas, hoje adultas, compreendo que o susto que Diaféria sentiu aos quinze anos da filha se desdobra em uma recompensa ainda maior quando o tempo avança. Ver quem amamos enfrentar o mar aberto nos ensina que não há sentido em buscar uma verdade rígida além da magia ou esperar um mundo livre de dores. O que nos cabe — a eles e a nós — é arregaçar as próprias mangas. Criar novas ilhas, definir o que é sagrado para os nossos dias e aprender a sofisticada arte de transformar o barro cru da realidade no ouro do propósito.
O mundo se estende não como um roteiro previamente traçado, mas como um palco de infinitas magias. E a magia mais bela é aquela criada com as próprias mãos.
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