
Quando comecei a escrever o livro que seria meu primeiro romance, Aquarela de Ilusão (2008), eu estava profundamente preocupado com o que dizer e, sobretudo, com como dizer. Não sendo egresso da área de Letras, nem possuindo domínio técnico das narrativas literárias, via-me constantemente tomado pelo receio de me expressar de forma inadequada — de cair no óbvio ou de me deixar seduzir por uma linguagem excessivamente coloquial. Foi um parto complicado. O que mais me inquietava era o medo de ser mal interpretado, de expor causos que colocassem em xeque meus valores ou comprometessem a imagem que eu acreditava sustentar diante dos outros.
Estava movido por uma angústia profunda, pois não almejava um livro recheado de lições de correta conduta, de moralidade panfletada. Tinha em mim a pergunta angustiante que Beauvoir, em seu primeiro ensaio filosófico, elabora no célebre diálogo entre o rei Pirro e seu conselheiro Cíneas: “Para que perguntar, quando se deve parar?”. Simone buscava investigar a essência da ação humana. Não era meu objetivo! Não projetava escrever um ensaio. Todavia, o modo e o propósito de minha ação influenciavam o bailado criativo de minh’alma. Não intentava escrever para ensinar, para melhorar, para edificar. Meu objetivo era exclusivamente provocar a juventude a refletir sobre si mesma, seus prováveis paradoxos existenciais e a efêmera experiência de ser e existir.
Recordo-me de uma ocasião em que tentei escrever uma cena carregada de sensualidade sem, no entanto, resvalar na pornografia. Reescrevi o mesmo trecho inúmeras vezes. Em uma viagem de Recife a São Paulo, resolvi retomar essa escrita. Assim que o avião decolou, abri o laptop e comecei a digitar, acompanhando o fluxo da imaginação, sempre atento a não ultrapassar certos limites. Ao meu lado, duas senhoras aparentemente dormiam. Escrevi por um bom tempo. Cansado, desliguei o computador, guardei-o na mochila e acomodei-a no compartimento acima. Inclinei a poltrona e fechei os olhos. Não demorou muito para eu ouvir: “Mulher, nunca vi um homem escrever tanta putaria de uma vez só”. A cena me desconcertou — e, ao mesmo tempo, me revelou algo.
Sempre fui muito curioso e atento ao cotidiano. Muitos episódios eu anotava em um caderninho. Serviam como matéria-prima para minhas narrações. Esforçava-me por manter coerência: nomes, falas, lugares. Ainda assim, aqueles a quem eu mostrava meus escritos elogiavam minha suposta criatividade, ao que eu respondia que não se tratava disso; eu apenas mirava com atenção o meu entorno imediato. Convocavam-me seus contrastes, seus soturnos gritos.
Quando já me aproximava do final de uma das narrativas, enfrentei um bloqueio: precisava nomear um personagem importante, cujo nome deveria carregar certa ironia. Foi então que entrou em minha sala um moço que desejava confabular com um professor. Ouvi-o atentamente e, ao perguntar seu nome, ele respondeu: Feliciano. Não contive a satisfação. Assim que ele saiu, anunciei à secretária: “Consegui o nome do personagem: será Feliciano”. E acrescentei, com certo alívio: não fui eu quem inventou.
Desde muito cedo gosto de escrever. No primeiro grau, chegava cedo à escola e, sentado à porta, escrevia minhas “poesias” em um caderno que intitulei O mundo e eu. Perdi-o! Mais tarde, por volta da sétima série, escrevia novelas nas cartelas que vinham dentro das camisas da loja de confecção de meu tio. Na faculdade, acumulava blocos de notas repletos de poemas. Entreguei-os a um renomado poeta pernambucano, pedindo sua opinião. A resposta foi dura e direta: “Suas poesias são uma merda”. Abandonei, então, esse tipo de escrita — ou ao menos tentei.
Mas não consegui permitir que a vida passasse por mim sem deixar marcas. Desde menino, vendendo ki-suco e velas nas romarias de Juazeiro do Norte, eu já observava atentamente as pessoas. Quando seminarista, auxiliando nas missas no Horto do Meu Padim, ficava profundamente tocado pelas expressões de fé e sofrimento estampadas nos rostos daquela multidão romeira. O sofrimento sempre me silenciou. E, ao mesmo tempo, sempre me convocou.
As histórias dessas pessoas simples me atravessavam de um duplo modo: primeiro, no desejo de transformar o mundo; depois, na tentativa de narrar aquilo que, sendo tão verdadeiro, precisava ser dito. Sou, talvez, um observador pertinaz — quem sabe até um cronista atrevido.
Perdi, com o tempo, parte do pudor de escrever. Já não peço opiniões com a mesma frequência. Sei que desagrado a alguns, acho previsível. Meus textos não são um exercício de vaidade; são, antes, uma necessidade vital. Ficar sem escrever me causa um desassossego que me destrói. Escrevo para dar passagem ao que me atravessa. A escrita é uma arma de sobrevivência e resistência. É, muitas vezes, um desabafo tatuado no papel.
Digo, por meio de personagens, aquilo que talvez não conseguisse dizer diretamente. Não conto mentiras — mas reconheço que, por vezes, amplio um pouco aquilo que vejo, como quem tenta tornar visível o que, de outro modo, passaria despercebido. Observar o outro, portanto, não é um vício, mas uma espécie de pêndulo existencial. Escrevo porque preciso respirar e existir.
Não tenho método rigoroso, nem métrica definida. Tenho a mim — e essa disposição quase excessiva de viver a vida com intensidade e com os outros. Meus textos são uma fusão do que estou sendo com aquilo que os outros despertam em mim. São, assim, registros coletivos alimentados pela cumplicidade entre o autor e o leitor.
Não me reconheço plenamente como escritor, tampouco ambiciono esse título. Desejo apenas a liberdade de traduzir o que meus olhos captam, o que minha alma sente, o que brada a dor e o que a esperança insiste em sustentar. Imagino Jorge Amado sendo julgado por seus próprios personagens, e Cora Coralina, já provecta, deixando-se conduzir pelas vozes que a habitavam. Não sei ao certo se a arte imita a vida. Talvez não! Talvez a arte seja a própria vida em estado de intensificação — uma vida que transborda em quem a sente.
Como disse Cecília Meireles, “não sou alegre nem triste, sou poeta”. E Ferreira Goullar nos provoca: “Traduzir uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?” Eu, que fui um modesto professor de Estética, não saberia responder plenamente a essa indagação — por isso elas teimam em se abrigar dentro de mim desde tenra idade.
A escrita, para além de uma técnica ou de um exercício estético, pode ser compreendida como uma forma de constituição de si. Não se trata apenas de dizer algo sobre o mundo, mas de produzir-se no próprio ato de dizer. Nesse sentido, narrar é também desnudar-se — não como revelação ontológica, mas como exposição de um sujeito em processo, atravessado por experiências, afetos e encontros, carregando – despido – o matulão da própria existência.
A inquietação inicial diante da escrita — o receio da forma inadequada, do excesso de coloquialidade ou da incompreensão — revela uma tensão fundamental: escrever implica sempre um risco. O risco de ser mal interpretado, de expor aquilo que se gostaria de preservar, de ver desestabilizada a imagem que se construiu de si, de revelar as contradições. A escrita, portanto, não é neutra; ela compromete o sujeito. É uma construção social e política antes que um dom.
Contudo, essa preocupação com a técnica e com a recepção do texto frequentemente cede lugar a outra compreensão da escrita: não mais como domínio de regras, mas como, justamente, necessidade existencial. Escrever deixa de ser apenas um fazer orientado por critérios externos e passa a configurar-se como uma exigência interna — quase vital, uma etnografia da vida. Nesse deslocamento, a escrita aproxima-se menos de um ofício e mais de um modo de existir.
Essa perspectiva, embora potente, exige cautela. Se, por um lado, ela rompe com a ideia de que a escrita não se reduz à técnica, por outro, não pode ignorar que toda narrativa é também construção. A ilusão de que se escreve apenas a partir da observação fiel do real — como se o narrador fosse um mero transmissor do que vê — encobre o caráter inevitavelmente interpretativo da linguagem. Narrar não é reproduzir o mundo, mas recriá-lo, pois, toda narrativa implica seleção, recorte, intensificação. Não há neutralidade possível. O olhar que observa já é, em si, uma forma de intervenção. Manuel de Barros assinala que “é preciso transver o mundo”.
Concebo que é precisamente nessa relação com o cotidiano que a escrita encontra sua potência. A atenção às sutis cenas, aos gestos aparentemente banais, às histórias de sujeitos anônimos, constitui uma ética do olhar. O narrador não se coloca acima da vida que observa; ao contrário, deixa-se afetar por ela. Nesse movimento, o outro deixa de ser um objeto de descrição e passa a habitar o próprio sujeito que narra, carregando suas dores e nutrindo sua esperança.
Essa experiência pode ser compreendida como uma espécie de duplicidade existencial: viver a própria vida e, simultaneamente, a dos outros em si. Narrar, nesse sentido, é hospedar alteridades. O sujeito da escrita não é uno, mas atravessado por múltiplas vozes. A escrita, portanto, não oferece respostas definitivas. Ao contrário, ela mantém abertas as perguntas. Escrever é insistir na indagação, sustentar a inquietação, resistir à tentação de encerramento.
Nesse horizonte, a recusa de um método rígido ou de uma métrica fixa pode ser compreendida não como negação da forma, mas como busca por uma abertura ao imprevisível da experiência. Ainda assim, essa abertura não deve ser confundida com ausência de elaboração. A escrita que se pretende expressão da vida precisa também confrontar-se com seus próprios limites, sob pena de permanecer no nível da mera espontaneidade. Se há, portanto, uma possível “fórmula” para a escrita — ainda que provisória —, ela não reside na técnica isolada nem na pura espontaneidade, mas na disposição para o diálogo: com o mundo, com os outros e consigo mesmo.
Talvez seja justamente a ausência de respostas definitivas o que sustenta o gesto de escrever. Pois, no limite, narrar é continuar perguntando — e, ao perguntar, manter-se em movimento. E, ao movimentar-se, saber-se vivo e ter o que narrar.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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