
Enquanto sinaleiras derretem na Europa, pets e humanos sucumbem ao calor jamais sentido no Velho Continente, uns celebram os resultados inusitados da Copa do Mundo. Há quem esteja preocupado com o que está por vir devido ao El Niño. Enfim, como já estamos sentindo na pele, no bolso, no coração, o clima é quem realmente manda no mundo: define colheitas, o consumo e testa nossa capacidade de ser menos frágil diante de tantas metamorfoses que estamos atravessando. Embora ele (e nós) estejamos à mercê dos donos do dinheiro, do petróleo, daquela mísera fatia de trilhonários que estão pouco se lixando se suas decisões geram impactos nefastos no mundo. Só pra cutucar: vocês acham que o Putin, o Trump, Bezos, Musk, entre outros líderes, estão se importando com gente fritando em alguma parte do mundo?
O que resta é nos prepararmos, sabermos o que fazer diante do que pode vir, já que só aumentam as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) e os recordes de temperatura. E se sobem os índices de calor na atmosfera, isso significa maior ocorrência de eventos extremos. Pelo menos, tudo indica que a agenda da preparação para futuros desastres – pois nossa localização, especialmente a dos estados da região Sul, é um dos epicentros de eventos extremos no continente americano – está no circuito de alguns tomadores de decisão. Na semana passada, aconteceu o 1º Congresso Internacional de Proteção e Defesa Civil (CIPDC), com três dias de atividades. Foram troca de experiências, debates e apresentação de estratégias voltadas ao fortalecimento da gestão de riscos e desastres. A promoção foi da Defesa Civil Estadual e do ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade.
Consegui participar de um dia de intensa programação e registro aqui algumas participações que me marcaram. Precisamos adotar a cultura de nos interessarmos mais por esse assunto. Infelizmente, esse é um tema duro, que muitos preferem não tomar conhecimento. A não ser quando a água está batendo à sua porta. Só que está cada vez mais evidente que nós, simples mortais que não temos letramento sobre o que fazer diante de riscos climáticos, precisamos buscar compreender o que nos ronda.
A representante de um consórcio de municípios do Equador, a líder comunitária, eleita prefeita de Cotopaxi, Lourdes Tiban Guala, fez uma crítica contundente à corrupção e à mentira que envolvem situações de desastre. Para ela, essa crise não vai acabar. Lourdes defende a recuperação de valores no setor público. E enfatizou o quanto a antecipação diante das ameaças e vulnerabilidades, que agravam os desastres, significa o salvamento de vidas.
O professor da UFSM, Vagner Anabor, começou sua fala salientando que precisamos eliminar do vocabulário a palavra “imprevisível” para definir algum evento extremo que provoca desastre. “Só existe imprevisibilidade quando há ignorância”, reforçou o meteorologista. E ressaltou o quanto o Rio Grande do Sul tem potencial para ser modelo de exportação de conhecimento sobre o tema, pois aqui surgiram duas faculdades pioneiras de meteorologia, UFSM e UFPel, no país. Daqui saíram vários profissionais que fundaram centros e instituições de ensino sobre a previsão do tempo. Sim, somos vanguardas em muitas coisas e estamos sendo passados para trás devido a vários fatores (mas isso é assunto para outro momento).
Gostei muito da apresentação do Otávio Costa Acevedo, da Universidade de Oklahoma. Gaúcho, que hoje dá aulas nos Estados Unidos, contou o quanto o tornado de maio de 1999 (com ventos de 517km/h, 36 mortes diretas e 5 indiretas) mudou a cultura da prevenção por lá. Ele mostrou o quanto a região se vale das características naturais, para criar produtos, narrativas, filmes, séries que acabam conscientizando a população sobre a necessidade de se adotar ações de prevenção. Até uma cerveja local foi batizada de F5, a denominação mais devastadora para tornados.
Naquele estado norte-americano é comum ter voluntários da comunidade que são interessados em divulgar as condições do tempo. Eles fazem parte de uma rede de observadores de tempestades (storm spotters). Mas esse interesse se enraizou na cultura, tornou-se efetivo depois da criação do Mesonet, uma rede de 120 estações meteorológicas automatizadas, com coleta de dados de temperatura, umidade, vento, radiação e umidade do solo. A Mesonet tem inclusive um aplicativo, de onde todos se baseiam, inclusive a imprensa, escolas, empresas. Ou seja, uma fonte serve para todos.
O evento encerrou com a participação de representantes italianos trentinos. A província de Trento faz fronteira com o Vêneto, de onde vieram muitos imigrantes para o Brasil, inclusive meus antepassados. Eles mostraram como está estruturado o trabalho de bombeiros voluntários, com uma forte participação de crianças e jovens. Essa iniciativa tem uma longa história, começa ainda no tempo do Império Romano, quando o imperador Augusto criou uma defesa contra incêndios, isso lá por 26 A.C. A Itália também sofre com terremotos há muito tempo. Mas a proteção civil, liderada pelo Estado, nasceu em Trento em 1992. Ou seja, o voluntariado surgiu antes de o Estado instituir oficialmente serviços de proteção à comunidade.
Enfim, daria para elencar muito mais questões interessantes, pois a percepção de risco, a adoção de ações e medidas que incorporem a prevenção, o monitoramento, a resposta e pós-desastre envolve um processo que está dando os primeiros passos por aqui. A história comprova que só depois de episódios trágicos é que mudanças estruturais são efetivadas. E deu para notar o quanto aquilo em que a sociedade está envolvida e participou desde o começo é mais duradouro e resiste às mudanças de governo.
Mas, como minha praia é comunicação, não posso deixar de registrar o espaço que foi dado a esse assunto no evento – algo raro no Brasil – onde muita gente ainda acha que comunicar é divulgar o que está sendo feito.
A professora de Comunicação, Rosângela Florczak de Oliveira, da Famecos/PUCRS, enfatizou o quanto é crucial reconhecer as necessidades comunicacionais para além do simplesmente informar. Os governos precisam assumir a responsabilidade de se comunicar de forma perene, mantendo vínculos com as comunidades. Isso envolve traduzir a complexidade do contexto em uma linguagem acessível que situe as pessoas sobre o que elas devem fazer. Só que, para ajustar as práticas, é preciso ter o retorno da sociedade sobre o que está sendo comunicado.
Comunicar de forma efetiva requer uma série de cuidados. “Cuidado não é suavizar a gestão. É tornar a comunicação capaz de proteger”, sintetizou a decana da Famecos, na sua apresentação.
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