
Há alguns anos eu li, não recordo mais em qual referência, um texto que narrava que a poetisa Rachel de Queiroz repassava o alfabeto com a sua netinha e, a cada letra que ela falava, a menina a repetia, associando-a a uma palavra. Contudo, ao chegar na letra “F”, a criança falou que a palavra que correspondia à letra era “Vovó”. Surpresa, a avó indagou: “Vovô?” Ao que a criança respondeu: “Sim, vovó, a senhora não é uma flor?”
Histórias dessa natureza enchem o imaginário dos adultos ao tratar das crianças. Muitas vezes declinadas com simplicidade. Outras histórias são apresentadas com muita convicção, pois consideram a infância como um período de passagem pela singeleza da pureza e pela inocência que remete a um paraíso perdido no mundo dos adultos. O infante é, dessa forma, o aprendiz de adulto, ou, em outra hipótese, um adulto em miniatura. A criança transita por um processo singular que ficará na saudade, pois, ao despir-se da vida pueril, adentrará no portal onde ser criança terá a conotação de não maturidade.
A modernidade concebe a criança como um ser juvenil que requer educação e moralização, sobretudo disciplina para aprender o respeito devido ao mundo adulto e o comportamento esperado pela sociedade. Contudo, no advento do século XIX, notadamente com a Revolução Industrial, a infância é dividida de forma desigual. As burguesas frequentam a escola e recebem a proteção necessária nos contextos a que são expostas. Porém, as crianças das classes trabalhadoras são exploradas nas fábricas ou, quando muito, submetidas a uma lógica assistencialista.
No Brasil, a Constituição de 1988 a reconhece legalmente como sujeito de direito, como definido na Carta Magna e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ela não é apenas um “vir a ser” ou receptora passiva de cultura, mas um ator social e produtor de cultura que aprende por meio do corpo, das interações e das brincadeiras. Meu amigo, filósofo-menino Walter Kohan (2015), nos fala da criança como uma experiência “que nos habita – às vezes de forma mais perceptível, outras quase imperceptivelmente – desde que habitamos o mundo. Essa condição, que também devemos dizê-lo desde o começo, não nos abandona, mesmo na forma do silêncio ou de uma presença imperceptível, até que abandonamos o mundo.”
Arinha, minha netinha de seis anos de idade, parece muito feliz porque vai se formar no ABC. Nós, os familiares que temos por ela muito amor, estamos, igualmente, regozijados. Afinal, é uma etapa da escolaridade que será superada. A sociedade deposita nela, por meio da escola, o reconhecimento de uma pessoa competente para a decifração dos códigos linguísticos. Ara sabe reconhecer cada letra e seus respectivos sons, formar vogais e palavras e formular frases com alguma complexidade. Está alfabetizada! Digamos que passou por um adestramento mecânico no qual, no transcurso de uma breve temporada, adquiriu o domínio técnico e mecânico da língua escrita.
Na verdade, a criança vai além disso. Tem competência para utilizar em situações reais, com autonomia, o aprendizado adquirido. Participa ativamente da cultura escrita, quer seja pela leitura dos muitos livros que foi recebendo de presente de todos nós, quer seja pela habilidade de refletir e argumentar desde agora sua precoce visão das coisas. Posso afirmar que ela foi alfabetizada dentro de uma perspectiva de letramento. Estava com cinco anos quando fomos juntos a uma cafeteria, ocasião em que se sentou próximo de nós um casal homoafetivo. Ela observou e me disse muito convencida: “Vovô, você sabia que uma criança pode ter dois papais ou duas mamães?” Eu apenas respondi que sim, sem tecer maiores comentários. Tão logo chegamos em casa, ele correu ao seu quarto e retornou portando “o livro da família” (2003), de Todd Parr, e pediu que eu folheasse para que entendesse o que havia me dito.
No segundo turno dessas eleições, percebendo o engajamento de seus pais na campanha do nosso candidato Lula, dedilhou em seu órgão e cantou a canção “Lula Lá”. Pediu ao pai que a filmasse e depois autorizou que postássemos em nosso story. Um detalhe é que ela que não gosta de se ver retratada em redes sociais. Estava plena de felicidade na virada e consequente vitória de Lula.
O meu amigo leitor precisa saber que, embora eu seja um vovô literalmente babão, não tenho o propósito de fazer todo um artigo tecendo loas à inteligência de minha netinha. Não é bem assim! Mas quero utilizar o momento de sua “formatura” para refletir com você sobre as infâncias desde uma perspectiva de construção de uma esquerda progressista que seja capaz de atuar e pensar o Brasil nos próximos vinte anos. Meu intento abraça a ideia de que a infância não representa uma experiência isolada da sociedade e sua formação está atravessada por relações de poder, desigualdades, valores culturais e concepções de justiça.
No texto que publiquei na sexta-feira anterior, tentei provocar o amigo a pensar sobre a necessária e urgente formação política das juventudes. Trouxe à baila iniciativas que a extensão acadêmica das instituições de educação superior, o movimento social organizado e as lideranças das classes populares podem e, a meu franco ver, devem promover, não só para dar sustentação ao governo Lula 4, mas, sobretudo, para favorecer a formação de uma vanguarda e retaguarda progressista que não nos faça mais passar o vexame que vivemos nessas passadas eleições.
Quando me refiro ao movimento progressista, foco, notadamente, à esquerda. Apraz-me pensar que a história não é uma senhora anciã a conduzir vagões mundo afora, tão somente ilustrando possíveis alterações de curso. Permito-me alimentar a utopia de conceber a história de cada povo, de cada nação, de cada homem e de cada mulher como uma construção política e social. Isso porque sei que nada está previamente definido. Que a horrenda ironia de miséria na fartura pode e deve ser superada. Ainda que munido de paciência e persistência, ainda que com respeito a tempos e contextos… mas, sem jamais recuar um milímetro da utopia que nos move: a sociedade justa em que homens e mulheres tenham suas condições materiais de vida verdadeira asseguradas e sua dignidade respeitada.
E o que tem tudo isso a ver com a “diplomação de ABC” de Arinha? Tem um aprendizado fundamental. Primeiramente, compreender as infâncias em toda sua potência, em sua consciência de mundo, em sua possibilidade de interação e interpretação, em sua necessidade de colocar-se no mundo que é seu. Minha pequena tem me ensinado com sua insubordinação, com sua capacidade de perceber e ler o indizível. Toda vez que saímos só os dois, volto mais criança, porque mais tocado pela verdade que não ousa se expor. Um segundo aprendizado, quero colocá-lo na ordem da formação cidadã, consequentemente social e política.
Eu preciso deixar muito explícito que não quero e não estou advogando reduzir a educação das infâncias à preparação de futuros militantes esquerdistas. Mas quero enfatizar que ela favorece a formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade, reconhecer a pluralidade e participar da construção da vida comum. Não se trata de embrulhar e legar às infâncias um projeto político daqueles que já são adultos. É uma posição de compreensão do imprescindível letramento político. A delicadeza da temática reside justamente no intento de compreender o lugar de sujeito das infâncias na sua própria trajetória de vida.
É importante registrar que a perspectiva das infâncias como sujeitos de direitos implica em reconhecer e respeitar a condição jurídica, social e política da criança. Essa questão é inegociável. Porém, não menos importante é a nossa compreensão da infância como modo de experimentar, pensar e habitar o mundo. São visões complementares que nos movem em nossa reflexão.
O grande mutirão, que visa organizar a ciranda de gente de bem, garantidora da luta por um mundo melhor e sociedade construída sob outras bases, passa necessariamente pelas infâncias. Essas experiências plurais corroboram na tessitura de uma cultura de paz – entendendo paz como fruto da justiça – e convivialidade. Um mundo que requer gente corajosa, ousada, petulante até. Gente medrosa não se cria nessa sociedade que só visa o dinheiro e o poder. Nossos pequenos precisam fazer a experiência da escuta – de ser escutados e escutar; do diálogo sem barreiras erguido desde uma perguntação sem maneirismo, direta e assentada na curiosidade e na demanda de cada um e de cada uma.
Ainda que saibamos que o preconceito nos organiza em classes excludentes, ainda que tenhamos a compreensão de que o dinheiro é e continuará sendo o foco daqueles e daquelas que vivemos na sociedade capitalista, é necessário e até urgente pensarmos mundos possíveis. Devemos buscá-los fora das caixinhas, na margem a ser erguida. As crianças podem nos ensinar isso. Prestemos mais atenção nelas, pois elas serão aquelas que poderão erguer esse mundo novo. Mas isso passa também por a gente. Não que a criança seja a promessa do amanhã; ela já é uma pessoa plena, que se locomove, que instiga, que ensina, que averigua. Por isso, a formação política desejada não significa inculcação ideológica, mas criação de condições para que as crianças desenvolvam autonomia, capacidade de julgamento, sensibilidade diante das injustiças e disposição para a convivência democrática. A infância não deve ser compreendida como o tempo em que preparamos os sujeitos para construir o mundo que desejamos, mas como uma experiência que já nos interpela a transformar o mundo em que vivemos.
Como filósofo, permito-me concluir concedendo a voz ao Walter Kohan (2015): “Penso, talvez, que o mais importante é que a filosofia me permitiu recordar que sou criança, recordar a minha infância e ver a minha infância, não como algo passado e que tenho de ultrapassar para ser adulto, pelo contrário, como uma possibilidade de ser mais adulto como quero ser do que fui”.